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O adeus de Umberto Eco: Dez pensamentos do intelectual italiano sobre futebol

“Não amo o futebol porque o futebol nunca me amou”. Em sua genialidade costumeira, Umberto Eco certa vez usou a definição para falar sobre a sua relação com o esporte. Nascido na cidade de Alessandria, o italiano bem que tentou se aproximar do futebol na década de 1940, época em que o time da cidade ainda desfrutava de boa reputação na elite nacional. Não conseguiu. De qualquer forma, suas visitas às arquibancadas ajudaram a provocar logo na adolescência o seu senso de confrontar a realidade que lhe era proposta. E não é isso que o impedirá de ser homenageado em campo: surpreendente semifinalista da Copa da Itália, a Alessandria usará uma braçadeira negra na rodada da terceira divisão, lembrando tanto o filho ilustre da cidade quanto o ex-jogador Giorgio Tinazzi.

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Eco faleceu nesta sexta, aos 84 anos, consagrado como um dos maiores pensadores contemporâneos. Entre seus estudos filosóficos e semióticos, no entanto, chegou mesmo a se debruçar sobre o futebol. Entre a seriedade e a fina ironia, ressaltava sua admiração pelo jogo em si, mas questionava o comportamento das massas.  Especialmente, pela maneira como a fascinação pelo futebol pode cegar. E, como estudioso da comunicação, pela maneira como o discurso sobre os eventos esportivos tem sua capacidade de manipulação. Visões que podem não ser unânimes, mas são válidas ao menos para se indagar. Sobretudo, por saírem de uma mente privilegiada, que soube analisar o mundo com tanta lucidez. Não se aplicam de maneira absoluta (especialmente no ponto em que coloca o futebol apenas como alienante, e não também como meio para se confrontar a alienação), embora carreguem altos teores de uma verdade crua e, por vezes, dolorida a quem é fanático pelo esporte.

E se o futebol chegou a ilustrar alguns de seus artigos, em outro momento fez parte de uma das lendas mais peculiares sobre sua figura. Qual teria sido o assunto do encontro com Sean Connery, o homem que protagonizou a versão cinematográfica de seu romance mais popular e que quase chegou a jogar pelo Manchester United de Matt Busby? “Falou comigo o tempo todo apenas sobre o futebol”, teria respondido Eco. Sinal de que, apesar de suas ressalvas, também teve o seu amor peculiar sobre o futebol. Ou não daria contribuições tão profundas sobre a maneira de pensar o seu contexto.

Abaixo, reproduzimos dez trechos de pensamentos de Umberto Eco sobre o futebol, retirados de seus artigos e de reportagens sobre o italiano. A tradução, na maior parte deles, é livre. Para melhor entendimento da linha de raciocínio completa, podem ser lidos na íntegra através dos links:

DVD 613 (23-05-13) Umberto Eco, escritor y filósofo italiano. ' Cristobal Manuel Photo via Newscom/elpphotos024012/1305241709

“Muitos leitores malignos, vendo como eu discurso aqui sobre o nobre futebol com desprendimento, irritação e (ó, tudo bem) malevolência, irão abrigar a suspeita vulgar que eu não amo futebol porque o futebol nunca me amou. De que desde a minha tenra infância eu pertenci a essa categoria de crianças ou adolescentes que, no momento em que chutam a bola (assumindo que elas possam fazer isso) prontamente mandaram contra o próprio gol ou, na melhor das hipóteses, passaram ao adversário, ou ao menos com uma tenacidade teimosa a mandaram para fora do campo, além das cercas, para se perder em um porão, um córrego ou mergulhando nos sabores de um carrinho de sorvete. E, assim, seus companheiros o rejeitam e o banem do mais feliz dos eventos competitivos. Pois nenhuma suspeita nunca será mais patentemente verdadeira”.

Trecho do texto ‘A Copa do Mundo e suas pompas’, no livro Viagem na irrealidade cotidiana.

“Na tentativa de me sentir como os outros, eu muitas vezes implorei para o meu pai, um sóbrio e leal torcedor, para me levar ao jogo. E, um dia, como eu estava observando com desapego os movimentos sem sentidos em um campo, eu senti como se o sol envolvesse os homens em uma luz deprimente, e como uma atuação sem sentido estava decorrendo diante dos meus olhos. Depois, lendo Ottiero Ottieri, eu poderia descobrir que esse é o senso da ‘irrealidade cotidiana’, mas na época eu tinha 13 anos e traduzi a experiência da minha própria maneira. Pela primeira vez, eu duvidei da existência de Deus e decidi que o mundo era uma ficção sem sentido”.

Também em ‘A Copa do Mundo e suas pompas’.

“O futebol é um ritual no qual os deserdados expandiram a sua energia combativa e o seu sentimento de revolta, praticando feitiços e encantamentos para ganhar dos deuses de todos os mundos possíveis a morte do volante adversário, completamente inconscientes das elites, que queriam mantê-los em um estado de êxtase, condenados à irrealidade”.

No livro O Pêndulo de Focault

“Quem assiste ao futebol é um depravado sexual. Marcar um gol é como fazer sexo. Além disso, diante de tamanha depravação, até mesmo o Marquês de Sade pareceria uma criança inocente. O torcedor é como um voyeur. Em algumas ocasiões, pode ser também interessante assistir aos outros fazendo amor, mas você vai concordar que é definitivamente melhor fazer do que ficar assistindo. Mas eu não posso perder esse jogo, é muito importante. É melhor jogar futebol, claro, mas eu sou um apaixonado e não posso perder”.

Durante visita a Argentina, antes de Itália x Noruega pela Copa de 94

“Eu gosto de assistir a uma bela partida de futebol na TV, com interesse e o prazer com que eu reconheço e aprecio todos os méritos deste nobre jogo. Eu não odeio o futebol. Eu odeio os seus fanáticos. Compreenda-me bem. […] Eu não amo o tifoso porque ele tem uma característica estranha: ele não entende por que você não torce e se obstina a falar como se você torcesse. […] Inútil tentar interromper, como se falasse com uma parede. Não é que ele se importa por eu não me importar completamente. É que ele não pode conceber que alguém não se importa. Ele não conceberia mesmo se eu tivesse três olhos e duas antenas plantadas nas escamas verdes do meu crânio. Ele não tem noção da diversidade, da variedade e da incomparabilidade dos mundos possíveis”.

Trechos do texto ‘Como não falar sobre futebol’, do livro Segundo diário mínimo.

“É curioso que os mais fanáticos por futebol estão claramente convencidos que os homens estão igualmente prontos a brigar com o primeiro torcedor da província vizinha. Esse chauvinismo ecumênico me arranca lágrimas de admiração”.

Também em ‘Como não falar sobre futebol’.

“Surgida como elevação a enésima potência daquele desperdício inicial (e calculado) que era o jogo esportivo, a falação esportiva é a magnificação do desperdício e por isso o ponto máximo de consumo. Sobre ela e nela o homem da civilização de consumo consome diretamente a si próprio”.

Trecho do texto ‘A falação esportiva’, no livro Viagem na irrealidade cotidiana.

“É claro porque eu tenho me sentido muito relaxado durante essas semanas de Copa do Mundo. […] Os jornais e a TV estão falando sobre aquilo que não quero ouvir nada [a Copa] – e os terroristas, que têm um grande entendimento sobre os meios de comunicação e os conhecem muito bem, não tentarão nada interessante, porque eles vão acabar no noticiário local ou na página de culinária.”.

Em ‘A Copa do Mundo e suas pompas’.

“Em outras palavras, a Copa do Mundo chegou como o Papai Noel. Finalmente uma notícia que não tem nada a ver com as Brigadas Vermelhas”.

Em ‘A Copa do Mundo e suas pompas’.

“A luta armada é possível em um domingo de Copa do Mundo? Talvez seria melhor se envolver em menos discussões políticas e em mais sociologias circenses. É possível ter uma revolução em um domingo de futebol?”.

Em ‘A Copa do Mundo e suas pompas’.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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