A relação especial de Koulibaly com o Napoli precisa ser aplaudida – algo ainda maior num clube em que a torcida é devota dos ídolos
Koulibaly deixou o Napoli como nono jogador com mais partidas, mas é maior pela forma como entendeu o clube e abraçou essa identidade
Kalidou Koulibaly passou oito temporadas no Napoli. Disputou 316 partidas, conquistou uma Copa da Itália, liderou excelentes campanhas na Serie A. A dimensão do zagueiro para os celestes, ainda assim, é maior que isso – e não se quebra com sua transferência ao Chelsea. Ver um gigante como senegalês por tanto tempo em Nápoles, mesmo com o assédio de clubes bem mais endinheirados, foi uma façanha para os tempos atuais do futebol. Koulibaly desejou construir uma grande história pelos partenopei e, mais importante, entendeu o que representa o clube para a sua torcida. Virou um napolitano a mais e isso será reconhecido por muito tempo, não apenas a excelência de seu futebol.
Koulibaly chegou ao Napoli em 2014, aos 23 anos. Era um zagueiro promissor, que vinha de boas temporadas com o Genk e tinha integrado as seleções de base da França. Não foi preciso muito tempo para que os torcedores napolitanos percebessem que o clube havia contratado um monstro. O senegalês não demorou a se adaptar no Estádio San Paolo (o atual Diego Armando Maradona) e a se tornar uma referência técnica dentro de campo. Era uma certeza dos celestes, independentemente do treinador ou do momento do clube. Triunfar no futebol italiano, que leva em alta conta os defensores, era um plus ao seu sucesso.
É uma pena que o alto nível de Koulibaly não tenha sido recompensado com tantos títulos pelo Napoli. Ter apenas uma Copa da Itália e uma Supercopa é pouco para o que o senegalês entregou ao clube. A Serie A bateu na trave algumas vezes e o zagueiro é exatamente uma das explicações para que o time tenha sido tão competitivo nos últimos tempos – aquele gol na reta final de 2017/18 contra a Juventus, que provocou um terremoto na cidade e sustentou as esperanças, é inesquecível. Mas não é a falta do Scudetto que atrapalha a dimensão de Koulibaly entre os maiores beques da história dos partenopei. É candidato a figurar ao lado de Ciro Ferrara no melhor time de todos os tempos. Não é pouco, especialmente num clube que venera suas lendas.

Koulibaly é o nono jogador que mais vestiu a camisa do Napoli, e esse número já sinaliza essa fidelidade à camisa celeste. A qualidade pode ser sublinhada pelas quatro vezes em que ele constou na seleção da temporada na Serie A. Já a conexão com a torcida é representada por inúmeros episódios. Não tem como ser ídolo dos celestes sem viver a cidade por completo, e o senegalês mergulhou nessa identidade.
“Em Nápoles, eu estou no lugar certo e no momento certo. Na cidade, as pessoas vivem pelo futebol. Quando ando nas ruas, mesmo as velhinhas vêm me pedir para vencer a próxima partida. Se alguém quiser uma definição de paixão, precisa vir a Nápoles”, declararia em 2018. Koulibaly virou até sabor de pizza, na terra em que o prato foi criado e é levado muito a sério. Além do que entregava em campo, passou a participar de várias iniciativas na cidade e de ações sociais para auxiliar crianças carentes. Ganhar o título de “cidadão honorário” era uma mera formalidade para aquilo que o senegalês colocava em prática.
Se por um lado Koulibaly se notabilizou pela empatia, por outro ele também ganhou respeito pela luta. Mais de uma vez o senegalês foi vítima de racismo durante sua passagem pela Serie A e bateu de frente com o preconceito, cobrando autoridades e discutindo o tema com a imprensa. Citava Martin Luther King e Malcolm X como seus mentores, não deixava de usar o exemplo de Lilian Thuram. Tinha uma correspondência também entre os napolitanos, que o apoiaram incondicionalmente e o exaltaram mais nas arquibancadas. Tamanho afeto a Koulibaly e sua família só podia ser correspondido com comprometimento.

“Minha família está muito feliz aqui e isso me faz feliz”, dizia também em 2018. Na época, o zagueiro chegava a indicar um desejo de seguir em Nápoles até o fim da carreira, mas não escondia que sua opinião poderia mudar. O que, de qualquer forma, não atrapalhava seu profissionalismo: “Eu não vou dizer que não desejo ficar para sempre, mas eu não quero enganar ninguém. Sabemos como são as coisas no futebol. Você pode dizer que vai ficar para sempre, mas então é vendido. Em vez disso, eu direi aos torcedores que eu darei 200%, 300% enquanto eu vestir esta camisa”.
Não surpreende, então, que a estadia tão longa em Nápoles tenha partido também por vontade de Koulibaly. Teve várias propostas ao longo dos últimos oito anos, mas se sentia bem na cidade e no clube. Queria retribuir um pouco mais, enquanto também se via recompensado por aquilo que o clube oferecia e pelo salário que pagava. Talvez o currículo do senegalês fosse bem mais recheado em títulos se ele partisse para outro lugar antes, talvez seu talento fosse melhor reconhecido em clubes mais midiáticos. O que ele construiu no San Paolo, contudo, é o que garante sua eternidade no coração e nas saudades de uma torcida inteira.
Koulibaly viveu o grande momento de sua carreira com a seleção de Senegal. O zagueiro mais uma vez foi incrível na conquista da Copa Africana de Nações e teve o gosto de erguer o troféu como capitão. Seu nome ficava mais em evidência, enquanto o Napoli vivia um fim de ciclo com vários outros ídolos também saindo, a exemplo de Lorenzo Insigne e Dries Mertens. A diretoria bem que tentou ofertar um contrato mais vantajoso, mas, aos 31 anos, o beque já desejava se provar em outro lugar. Por tudo o que havia entregado, não tinha como os torcedores pedirem mais para o ídolo.

A bronca da torcida do Napoli é com a diretoria, que vê o time se esfarelar depois de uma grande campanha na Serie A. Natural que ótimos jogadores como Koulibaly vejam melhores perspectivas em outro lugar. E a porta aberta no Chelsea é daquelas que podem, em definitivo, confirmar o posto do senegalês entre os melhores zagueiros dos últimos anos. Jogará num clube ambicioso, numa equipe forte e sob as ordens de um excelente treinador. Poderá aprimorar seu jogo e igualmente formar uma dupla gigantesca com Thiago Silva. Será uma das defesas mais imponentes do planeta.
Em Nápoles, os torcedores celestes admirarão de longe e desejarão o melhor. É difícil não gostar de Koulibaly mesmo torcendo por outro clube, quanto mais acompanhando de perto tudo o que ele ofereceu ao Napoli. Por talento e por contribuição, o defensor conquistou sua idolatria. Por caráter e por postura, se transformou num personagem ainda mais amado pelos napolitanos. Sempre que quiser voltar, será ovacionado nas ruas da cidade. Não seria por menos, principalmente por ter entendido com perfeição o que o Napoli significa. Consciente disso, Koulibaly deu seu máximo, e esse máximo foi muito.



