Sem prometer revolução, Conte dará sequência à Azzurra com base bianconera

Depois de três temporadas de sucesso na Juventus, Antonio Conte deixou o clube de Turim, coincidentemente no mesmo momento em que a seleção italiana estava sem herdeiro para o cargo deixado por Cesare Prandelli. Conte jura que sua ideia era ficar um tempo estudando, esperando uma proposta de um clube grande, mas que foi surpreendido pela proposta da FIGC. Ninguém na Itália acredita nisso, e estava claro desde o início que seu destino deveria ser mesmo a Azzurra. Diferentemente da situação do Brasil, não se exige do novo treinador italiano algum tipo de grande mudança ou revolução. Ele tem suas próprias ideias de como a equipe deve jogar, claro, mas o momento de transição está claro para todos.
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Os últimos anos de futebol internacional têm mostrado que as seleções com melhores desempenhos nas grandes competições têm sido aquelas cuja base estão em um só clube, poderoso no cenário nacional daquele país. Alemanha e Espanha tiveram sucesso assim, mas porque lhes foi possível. No Brasil, não daria para fazer uma base com o Cruzeiro e disputar título de Copa do Mundo. Já na Itália, ainda que em um nível menor que alemães e espanhóis, isso é possível. A tricampeã Juventus vinha sendo o alicerce da Azzurra, e com a chegada do treinador que colocou os atletas nessa condição em Turim, evidentemente isso não muda a princípio. Conte até destacou a importância disso.
“Muitos treinadores de seleção optam por construir um time formado pela base de um clube. A Espanha usou a base do Barcelona, a Alemanha, do Bayern de Munique. Os treinadores de seleção não têm tanto tempo para trabalhar com os jogadores como nos clubes, isso é claro. O que vou fazer é tentar selecionar um bloco histórico para a seleção, que é aquele do Juventus, e tentar otimizar meu tempo com os jogadores”, disse o novo técnico da seleção em sua coletiva de apresentação nesta terça-feira.
Considerando que Antonio Conte terá à disposição uma base de jogadores que já conhece e que costumava usar como comandante da Juve, é de se esperar que os mesmos vícios e virtudes apareçam na Azzurra, ao menos inicialmente. O jogo pelos lados do campo podem ficar mais fortes, mas junto com isso vem a dependência do treinador nesse tipo de proposta. Quando os Bianconeri enfrentavam equipes que sabiam marcar esse tipo de estilo ofensivo, encontravam muita dificuldade para contornar a circunstância. A eliminação para o Benfica, na semifinal da Liga Europa da temporada passada, no Juventus Stadium, é um exemplo significativo disso.
Como de praxe desde que Balotelli passou a jogar pela Azzurra, a questão comportamental foi assunto na coletiva. Conte deu a resposta protocolar de que para ganhar espaço com ele precisaria mostrar dedicação, e não apenas ter o talento. Se isso se tratou apenas de papo furado ou de fato representa alguma mudança, não podemos afirmar ainda. A questão do atacante do Milan tem até outro fator em conta, já que tanto a seleção italiana quanto o atleta são patrocinados pela mesma empresa de materiais esportivos, o que de vez em quando levanta alguma suspeita no país de que seja esse o motivo das ilimitadas oportunidades do indisciplinado jogador no conjunto.
“Em caso de dúvida, quero ter garantias de que existe essa ânsia (de jogar pela seleção) novamente. Prefiro 25 jogadores mais fracos, mas com vontade de vestir esta camisa do que 25 talentos que não lutam pela seleção. Eu quero ver com os meus olhos quem merece ser chamado. Vamos partir do zero. Só confio no que meus olhos veem, não no que pensam os nossos patrocinadores nem os jornais”, afirmou contundentemente o treinador.
Como qualquer treinador que assumisse uma seleção tetracampeã mundial, Conte falou em tom confiante sobre o objetivo de levar novamente a Azzurra ao topo do futebol mundial: “Os jogadores são os mesmos que vêm de uma experiência decepcionante, mas nós temos grandes jogadores. Estou muito convencido de que podemos nos levantar novamente porque a Itália tem que estar entre os melhores times do mundo”. Competência para tal ele tem, e daí em diante o sucesso da nova empreitada dependerá das circunstâncias que se lhe apresentarem. Sobre a continuidade do elenco, Conte sabe que não poderia fazer uma grande revolução, afinal, os nomes que hoje representam o país são mais ou menos os melhores à disposição. Isso, no entanto, não significa que falte qualidade.
Individualmente, as peças são boas, e o time sub-21 indica que haverá também material para o futuro a médio prazo. O desafio de Conte, a princípio, será ter um bom início nas Eliminatórias da Eurocopa. Como o nível de dificuldade desta competição não é lá dos maiores, afinal o adversário mais difícil na chave italiana será a Croácia, o novo técnico tem tudo para ter um início tranquilo e que possibilitará um comando da maneira que ele melhor entender, sem a necessidade de medidas imediatistas para eventuais problemas. Soma-se tudo isso ao salário de aproximadamente € 4 milhões, e Conte está no melhor lugar que poderia no momento.



