O inferno é aqui
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Silvio Berlusconi é um apaixonado pelo Milan, e sobre isso não há nenhuma dúvida. Se não fosse assim, ele não teria desembolsado tantos milhões para tirar o clube de uma situação difícil nos anos 80 para criar uma dinastia que restabeleceu a grandeza rossonera no cenário nacional e internacional. Ele tira grande benefício político de sua posição, é verdade, mas o clube não lhe dá lucro.
Berlusconi é, também, um sujeito passional. Não é raro que ele tenha atitudes inconvenientes com sua posição de primeiro-ministro italiano. Oficialmente, ele não pode ocupar o cargo de presidente por causa da incompatibilidade com a função pública. Mas seu distanciamento é apenas para inglês ver, já que sua influência no dia-a-dia do clube é evidente – como esquecer a ligação para um programa de televisão italiano em janeiro para proclamar o “dia do fico” de Kaká?
Quando é perguntado por cidadãos sobre o Milan, ele responde o que lhe vem à mente. Assim, quando foi abordado por um grupo de turistas italianos durante uma recente visita ao Egito, Berlusconi disse o que pensava do trabalho de Carlo Ancelotti nesta temporada. Não eram palavras amáveis. O assunto repercutiu na imprensa, os desmentidos de praxe não surtiram efeito, e desde então Ancelotti tem sido o que se chama em inglês de “dead man walking”, um homem que já tem seu destino selado, aguardando no corredor da morte o momento da execução.
No último domingo, antes da partida contra a Roma, Berlusconi foi abordado por repórteres de televisão, pedindo impressões sobre aquela que seria a última aparição de Maldini com a camisa do clube em San Siro. “Lamento que seja a última vez”, disse. A réplica dos jornalistas era óbvia: e a de Ancelotti? “Também”.
O futuro de Ancelotti foi decretado antes que o Milan alcançasse seu objetivo mínimo de terminar em terceiro lugar. E se chegou até a imprensa brasileira, proclamada no Jornal Nacional, a notícia da escolha de Leonardo como novo técnico da equipe para a próxima temporada, é porque dentro de Milanello não se faz muita questão de manter segredo. Então, por que toda a preocupação em negar e adiar a confirmação da saída de Ancelotti? O dano já está feito de qualquer forma.
Parece surreal que o Milan tenha passado de postulante ao título – e esta coluna dava “razões para acreditar” há menos de um mês – a candidato a perder a vaga direta na Liga dos Campeões. Mas aconteceu, e Berlusconi precisa assumir suas responsabilidades.
A saída de Ancelotti e a iminente chegada de Leonardo são decisões pessoais do proprietário do clube, que bate de frente até com o homem-forte do futebol milanista, Adriano Galliani, que em várias ocasiões defendeu o atual treinador de críticas. É necessário levar também em conta o acordo de Ancelotti com o Chelsea, mas a negociação poderia perfeitamente se manter em sigilo com um pouco mais de empenho.
O Milan não seria campeão de qualquer maneira, mas também não se esperava que entregasse o título de bandeja para a Internazionale como na derrota para a Udinese, quando foi amplamente dominado. Contra a Roma, o time voltou a ser uma caricatura de si mesmo.
Sob o forte calor primaveril de Milão, o peso da idade do elenco milanista se fez sentir. E também, de certa forma, transpareceu o fato de o clube parecer já trabalhar pela próxima temporada, esquecendo-se de que ainda havia uma vaga direta na Liga dos Campeões a conquistar. Imagine se os dois primeiros jogos oficiais de Leonardo forem uma eliminatória preliminar que o time não pode se permitir perder.
A Roma fez a festa em San Siro com as arrancadas de Motta e Riise pelas laterais, a criatividade de Totti e a ameaça de Vucinic no ataque. A entrada de Menez no segundo tempo matou a cansada defesa rossonera.
E como explicar as substituições de Ancelotti? Beckham e Pato, os dois melhores do time no primeiro tempo, já não estavam mais em campo aos 15 minutos da segunda etapa. Pensando por outro lado, como cobrar algo de um treinador que o clube abandonou faz tempo?
A semana será dura para o Milan. O risco de ter prejudicada sua preparação para a próxima temporada, antecipando o início dos treinamentos, passa pelo estádio Artemio Franchi de Florença. Onde haverá uma Fiorentina empolgada – e um certo Alberto Gilardino que adoraria dar motivos para seus ex-patrões se arrependerem.
E Maldini foi contestado…
Melhor começar pela lista de títulos: são 26, em pouco mais de 24 anos de carreira como profissional. Sete Campeonatos Italianos. Cinco Ligas (e Copas) dos Campeões. Duas Copas Intercontinentais. Um Mundial de Clubes da Fifa. Cinco Supercopas Europeias. Cinco Supercopas Italianas. Uma Copa da Itália. Tudo pelo mesmo clube.
Este é Paolo Maldini, o capitão que mereceria todas as reverências possíveis no dia em que fazia sua última partida diante do próprio público. E as reverências vieram da grande maioria – até dos jogadores da Roma, que entraram em campo com uma camisa comemorativa ao defensor. Mas houve um bando de idiotas, palavra ainda leve para defini-los, que conseguiu estragar a festa.
Na Curva Sud fica a ala mais radical das torcidas organizadas do Milan. É ali que se concentram alguns dissidentes da Fossa dei Leoni, que era o grupo de torcedores mais tradicional do clube antes de ser dissolvido em 2005 por desavenças internas.
Foram estes os homens capazes de desrespeitar Maldini naquele que deveria ser um dia especial. Exibiram duas faixas contra o defensor. A primeira dizia: “Obrigado capitão: no campo, campeão infinito, mas faltou com o respeito a quem te enriqueceu”. Na segunda, outra provocação: “Pelos seus 25 anos de carreira, sinceros agradecimentos daqueles que você definiu mercenários e pedintes”.
Maldini nunca foi de apoiar posições de torcidas organizadas – e deveria servir de exemplo para jogadores que o fazem, inclusive copiando seus gestos obscenos, sem perceber que facilmente se tornam reféns delas. O episódio dos “mercenários e pedintes” se deu após a perda da Liga dos Campeões para o Liverpool, em 2005, quando o grupo organizado protestou contra a equipe.
Colocar um episódio do gênero um patamar acima da dedicação de toda uma carreira às mesmas cores é uma atitude que não tem nem nome.
Pior ainda foi exibirem uma bandeira gigante em formato de camisa, com o número 6 e o nome de Franco Baresi, de quem Maldini herdou o posto de capitão em 1997. Ao tentar usar Baresi para provocar Maldini, a torcida desrespeita ambos, já que o antigo capitão não aprovaria tamanha falta de educação.
Felizmente, o futebol italiano está todo posicionado a favor de Maldini. Declarações de apoio vieram não apenas de dentro do clube, mas também dos rivais, da federação italiana, do chefe dos árbitros Pierluigi Collina, de ex-jogadores históricos… enfim, de todos aqueles que compreendem o tamanho de uma lenda.
E pensar que Fabio Cannavaro se despediu da torcida do Real Madrid com uma sonora ovação no Santiago Bernabéu. Em dia de derrota, como foi com o Milan em San Siro, depois de ficar apenas três anos no clube e sendo apenas em raras oportunidades o zagueiro de seus melhores dias.
E pensar que, cinco anos atrás, Roberto Baggio foi a San Siro pelo Brescia para enfrentar o Milan, em seu último jogo, e recebeu os aplausos de 80 mil pessoas por sua brilhante carreira.
Seria fácil demais recorrer ao clichê de que os que contestaram Maldini “não são verdadeiros torcedores”. O fato é que são verdadeiros torcedores imbecis.