Itália

O Homem-Aranha está vivo

Walter Zenga havia sido o melhor goleiro da Copa do Mundo de 1990. Dois anos depois, após o fracasso da Azzurra nas eliminatórias da Eurocopa, ele se viu fora dos planos do técnico Arrigo Sacchi. Questionado pelos jornalistas, cantarolou um trecho de “Hanno ucciso l’Uomo Ragno” (“Mataram o Homem-Aranha”), canção do grupo pop 883 na época. Era uma referência ao apelido que havia recebido por seu talento debaixo das traves.

Zenga permaneceu na Internazionale até 1994, completando doze temporadas no clube que ainda o tem como ídolo. Depois disso, jogou dois anos na Sampdoria e um no Padova, antes de ir encerrar a carreira de jogador – e começar a de técnico – nos Estados Unidos.

Em 2008, a Itália descobre que o Homem-Aranha está mais vivo do que nunca, à frente de um surpreendente Catania. Em sete rodadas na Série A, o time siciliano acumulou 14 pontos, e chegou até a ser líder por algumas horas no último domingo. Foi entre a vitória por 2 a 0 sobre o Palermo no dérbi e a goleada de 4 a 0 da Inter sobre a Roma, na capital.

Na Itália, Zenga chegou a dirigir o Brera, na Série D (quinta divisão), em 2000, mas só engrenou quando deixou o país novamente, em 2002. Desde então, teve altos e baixos, passando por times de Romênia (National, Steaua e Dinamo Bucareste), Sérvia (Estrela Vermelha), Turquia (Gaziantepspor) e Emirados Árabes (Al Ain). O melhor momento foi em Belgrado, onde conquistou copa e campeonato nacional em 2006.

A volta de Zenga aos holofotes italianos se deu não como treinador, mas como comentarista da RAI. A experiência foi breve, já que em abril deste ano ele aceitou a missão de livrar o Catania do rebaixamento. Tarefa executada com sofrimento e competência, com a ‘salvezza’ garantida diante da Roma em uma dramática última rodada.

O ótimo trabalho de Zenga ajuda a explicar como o Catania passou de ameaçado pelo descenso a um dos integrantes da zona alta da tabela. O clube não aumentou de forma significativa o investimento na equipe (a folha de pagamento é de € 14 milhões, metade da que tem o Palermo, derrotado no clássico de domingo), o que justifica que sejam creditados méritos ao treinador.

O elenco do Catania conta com diversos sul-americanos pouco conhecidos, alguns deles verdadeiras barganhas do mercado. Ao todo, são sete argentinos e um uruguaio. Estes jogadores não apenas dão boas opções ao técnico, como ainda se valorizam e ajudam o clube a lucrar com suas saídas. A venda do peruano Juan Vargas para a Fiorentina por € 12 milhões ajudou o mercado de pré-temporada dos ‘rossazzurri’ a fechar com balanço positivo de € 5 milhões.

O zagueiro argentino Matías Silvestre, campeão da Libertadores pelo Boca Juniors ano passado, é o destaque de uma defesa que cedeu apenas quatro gols (sendo dois contra, diante da Inter) em sete jogos – é a menos vazada do campeonato. O goleiro Albano Bizarri, que fazia parte do elenco do Real Madrid que venceu a Liga dos Campeões em 2000, é outro que tem sido fundamental para o sucesso do time.

Zenga também acertou na escolha de Biagianti como protetor da defesa. O volante de 24 anos, que roeu o osso em divisões inferiores por times como Chieti e Pro Vasto, ganhou espaço após dois anos à margem da equipe e logo se encaixou no esquema.

A capacidade de variar taticamente também rende frutos. Contra o Palermo, o time não contava com Paolucci, seu artilheiro com três gols. Zenga, então, optou por um ataque com o uruguaio Martínez e o japonês Morimoto atuando abertos, para tirar da área os zagueiros Carrozzieri e Dellafiore e dar espaço para as penetrações de Mascara desde o meio-campo. Sem referência, Carrozzieri teve uma atuação desastrosa e acabou expulso antes do fim do primeiro tempo com o segundo cartão amarelo.

Com um homem a mais, Zenga abriu mão de Biagianti no segundo tempo e mandou a campo o argentino Llama, perigoso em seus avanços pela esquerda. O Catania passou a jogar com Morimoto na área e uma linha de três homens logo atrás, com Martínez, Mascara e Llama. O resultado foi o gol de Martínez em um dos tantos cruzamentos de Llama. Já no final, Mascara selou o resultado cobrando pênalti.

Credenciar o Catania a uma vaga européia seria colocar o carro à frente dos bois. O discurso no clube ainda é o de acumular pontos suficientes para ter a certeza da permanência na Série A, e só então redimensionar o objetivo. Mas, por enquanto, o Homem-Aranha está no alto, e não descerá de lá sem lutar.

Nápoles sonha

A torcida do Napoli entoando “'O surdato 'nnammurato” após uma vitória é uma cena que vale a pena assistir. O refrão “O vita, o vita mia” gritado a plenos pulmões, em uma mistura de alegria e orgulho regional, é sinal de que o San Paolo está cheio de motivos para festejar.

Foi assim novamente no último sábado, quando o Napoli derrotou a Juventus por 2 a 1, de virada, garantindo uma noite na liderança da Série A depois de 16 anos. Hamsik e Lavezzi podem não ser Maradona e Careca, mas formam uma dupla capaz de fazer o público napolitando voltar a sonhar alto.

Afinal de contas, quem diria que este é o mesmo clube que recomeçou da terceira divisão e, na primeira tentativa, em 2005, perdeu o acesso à Série B em um play-off contra o Avellino? Pois foi justamente naquele momento que o Napoli se fortaleceu.

O presidente Aurelio De Laurentiis, mostrando preocupação com o planejamento a longo prazo, manteve o técnico Edy Reja e lhe deu condições para trabalhar. Daí em diante, o caminho foi só para o alto. Dois acessos consecutivos, e logo na temporada de retorno à Série A veio a classificação para uma competição européia.

De Laurentiis se mostra entusiasmado por fazer parte de um ambiente que vai se livrando das manchas do escândalo de 2006 – e a isso ele atribui o sucesso do Napoli de hoje: “Foi retomado o rumo da seriedade profissional, e há espaço para todos. Nada é previsível, e o público pode se divertir de verdade, com um campeonato que não está definido após somente sete rodadas”.

Melhor que isso, porém, é saber que se pode falar do Napoli e do Catania pelo belo exemplo que dão dentro de campo, e não pelas desgraças provocadas por seus torcedores em tempos recentes.

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Equipe Trivela

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