Itália

O dérbi da Roma

Roma e Lazio fazem um dos dérbis mais quentes da Itália. Não só em campo, como também (e principamente) fora dele. Christian Panucci, hoje no Parma, costumava dizer que era o clássico mais apaixonado que já havia jogado, acima dos de Londres, Madri, Milão e Gênova. O desse domingo tinha um ingrediente especial: marcava o aniversário de 80 anos do jogo, que teve sua primeira edição em 8 de dezembro de 1929. Aquele foi vencido pela Roma por 1 a 0, gol de Rodolfo Volk, primeiro grande artilheiro da história giallorossa.

O 164º encontro no dérbi da Cidade Eterna aumentou a vantagem romanista. Agora, Totti iguala o goleiro Masetti como maior vencedor da história do clássico: esteve presente em dez das 59 vitórias da Roma – e perdeu 12 das 46 que a Lazio venceu. Isso com outra vitória de 1 a 0, dessa vez com gol do lateral-direito Cassetti, seu quarto em quatro temporadas de Roma, e que só entrou no jogo porque o zagueiro Mexès sentiu o joelho no fim do primeiro tempo.

Na prática, a diferença entre os dois times se deu entre a trave e o gol. A Lazio teve domínio de quase todo o jogo, mas não conseguiu convertê-lo em vantagem e pagou caro por isso. Quando Julio Sergio não chegou à bola, a trave direita estava lá para ajudá-lo. No rebote, o goleiro romanista já estava pronto para fazer milagre em ótimo chute de Mauri. Mesmo Muslera fez sua parte, desviando pra escanteio uma bomba de Riise que, pelo conjunto da obra, ficou a uma rede da antologia.

Mas o futebol tem suas peculiaridades. O italiano, em especial. Uma delas é fazer-se esquecido em um de seus dias mais importantes. Foi o que aconteceu, graças a duas torcidas que, com um clima insuportável, faziam recordar um jogo de cinco anos atrás. Em março de 2004, um dérbi acabou suspenso por uma notícia falsa de que um garoto havia morrido no meio de um confronto.

Os 40 mil euros de multa para Roma e Lazio pelo jogo deste fim de semana são uma piada perto das punições que deveriam ser adotadas num dia em que pelo menos 18 petardos foram atirados entre torcedores enquanto o locutor do estádio pedia, quatro vezes, para que a brincadeira terminasse. A cidade de Roma é a prova de que nem a morte (Gabriele Sandri, a última) é capaz de mudar os rumos de um país que não faz muito esforço para melhorar, no mínimo, sua imagem.

Voltando ao futebol, justo num dérbi a Roma pôde comemorar o fim de uma incômoda sequência de 18 jogos: desde 3 de maio o time não saía de campo sem levar gols pela Serie A. Um dos responsáveis é o brasileiro Julio Sergio, fato impensável há dois meses atrás. O melhor terceiro goleiro do mundo, como era chamado por Spalletti, aproveitou a oportunidade para colocar Doni no banco e deve renovar contrato nas próximas semanas. Prêmio merecido para a melhor “aquisição” romanista em 2009.

Por outro lado, a temporada a Lazio já contabiliza uma eliminação na Liga Europa e uma campanha terrível na Serie A, com apenas duas vitórias em 15 rodadas. A última campanha tão ruim dos biancocelsti foi em 1990-91, quando a Lazio passou todo o turno (17 jogos) com 13 empates e só duas vitórias. O returno viu mais seis vitórias para afastar o time da Serie B. Porém, aquele time estava unido em torno do técnico Zoff, o que não é tão certo na atual gestão de Ballardini. E não perdeu nenhum dos dérbis. E não tinha seus dois melhores jogadores afastados por litígios com o presidente.

A 15ª posição atual, com 13 jogos sem vitórias e um só ponto à frente de Livorno e Atalanta, obriga a Lazio a se rever. Por mais que o elenco não seja o melhor do mundo, é mais do que suficiente para estar longe da zona de rebaixamento. As astúcias táticas de Ballardini, como a escolha de Mauri para bancar toda a ligação do dérbi, não têm bastado e esbarram num Zárate sempre mais individualista. Com Genoa e Inter nas próximas duas rodadas, a Serie B se aproxima como um risco concreto e o onipresente presidente Lotito terá trabalho no mercado de janeiro. Deveria engolir o orgulho para, quem sabe, recuperar os “dissidentes” Pandev e Ledesma, como já fez com Stendardo.

As principais críticas a Ballardini, que só por milagre ainda não foi demitido, fica na parte tática. Dificilmente a Lazio repete algum módulo de jogo e jamais conseguiu repetir seus onze titulares. O 4-3-1-2 que deu bons resultados no início da temporada passou a render menos com a queda de Baronio e Zárate e o mau condicionamento físico de Rocchi. O 4-4-2 com Brocchi e Mauri pelos lados também não vingou. Agora, é a vez da defesa com três zagueiros. A Lazio não dá sensação de ter uma proposta de jogo e isso se reflete na insegurança de todo o time.

Também pode-se discutir o modo como os jogadores estão sendo aproveitados. Foggia terminou a última temporada jogando muito bem pela meia-esquerda no 4-4-2 de Delio Rossi, mas hoje faz parte do grupo dos atacantes e rende bem menos. Matuzalém também fechou o campeonato em alta, mas com Ledesma a seu lado, formando uma das melhores duplas da Serie A. Hoje, é um fantasma jogando a alguns metros do gol adversário. Pra não falar de Rocchi, que, quando está campo, dificilmente recebe mais de três bolas razoáveis por jogo. Todos esbarram no individualismo ofensivo de Zárate.

O dérbi também serviu para dar um bom exemplo de uma Lazio “alcalina”, de pouca duração. A pré-temporada não dá bons frutos nesse início de temporada, o que preocupa para os meses seguintes. No início do trabalho em Formello, havia um grupo de mais de 40 jogadores, número impossível de ser gerido. A disputa da Supercoppa, em Pequim, também mudou muito a rotina a partir do momento em que a Lazio tratou o jogo como prioridade. Ballardini topou o risco. E não foi lá muito feliz.

Reabriu? Ainda não

Outro clássico marcou o fim de semana italiano. Enfrentavam-se Juventus e Inter, as duas maiores vencedoras de títulos nacionais do país. Num jogo de arbitragem bem contestada, os comandados de Ferrara se deram melhor, bateram a líder por 2 a 1 e, reza a lenda, conseguiram reabrir o campeonato: agora, a Inter tem quatro pontos de vantagem sobre o Milan e cinco sobre a Juve.

Mas, com a aburda superioridade da Inter em terreno nacional, o jogo esteve longe de ser uma decisão importante para o título. Ainda que dê boa moral para a Juventus seguir seu caminho, nada impede que os nerazzurri se aproveitem de uma tabela acessível nas próximas rodadas para seguir abrindo vantagem na ponta. É praticamente impensável ver a Inter tropeçando em times de menor expressão, algo bem mais factível para Juventus e Milan. Uma das poucas coisas que podem derrubar a campeã é uma eliminação prematura na Liga dos Campeões que ecoe no cenário nacional. Mas, por enquanto, o título está ainda bem fechado.

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Equipe Trivela

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