Itália

Gratidão tem limite

“Tu vuò fa l' americano, mmericano! mmericano! Ma si nato in Italy! Siente a mme, non ce sta' niente a ffa, ok, napolitan?!”

A música “Tu vuò fa l' americano”, de Renato Carosone, é uma das mais famosas do rico cancioneiro napolitano. Parte da trilha sonora do filme Totò, Peppino e Le Fanatiche, de 1958, ela conta a história de um rapaz que abusa dos trejeitos e do estilo de vida norte-americano, mas é lembrado de que nasceu na Itália, é napolitano, e não há nada que possa fazer a respeito.

O caso de Giuseppe Rossi é exatamente oposto. Ele nasceu em Nova Jersey e viveu nos Estados Unidos até completar 12 anos, quando se mudou para a Itália para perseguir o sonho de ser jogador de futebol, passando a integrar as categorias de base do Parma. Segunda-feira, na primeira rodada da Copa das Confederações, justamente contra seu país de nascimento, Rossi saiu do banco de reservas para ser decisivo na vitória de virada da Itália por 3 a 1.

Desde que Rossi se transferiu para o Manchester United, aos 17 anos, os italianos pouco o viram de perto. Apenas no primeiro semestre de 2007, quando teve um breve retorno ao Parma por empréstimo. Foi bem, mas nenhum time italiano teve a ideia de bancar sua contratação. O Villarreal teve, e nas últimas duas temporadas contou com os gols do atacante – que, por força do hábito, saiu gritando “vamos”, em bom espanhol, na comemoração do primeiro gol diante dos norte-americanos.

A explosão de Rossi mostra que nem o futebol italiano, nem a seleção italiana podem abrir mão de um jogador com seu talento e faro para o gol. E mostra, sobretudo, que Marcello Lippi precisa ser mais incisivo na renovação do elenco se quiser resultados dentro de um ano, na Copa do Mundo da África do Sul.

Por mais que Lippi valorize o sentido de grupo e tenha gratidão pelo elenco que conquistou o título mundial de 2006, na Alemanha, algo está errado se uma escalação da equipe, três anos depois, tem nove jogadores que estiveram naquela campanha – e seriam dez, se Cannavaro não estivesse lesionado. Seria justificável se aquele fosse um grupo extremamente jovem, mas não é o caso. A média de idade do elenco atual é de 28 anos e 7 meses.

A história registra um equívoco semelhante em 1986, quando sete titulares da Azzurra que fracassou no Mundial do México eram remanescentes do título de 1982 – e dois deles, Cabrini e Scirea, tinham estado também em 1978, na Argentina.

Alguns jogadores que foram importantes em 2006 não têm sido capazes de manter os níveis de antes. O caso mais evidente é o de Camoranesi, cujo melhor momento em campo contra os Estados Unidos foi sua saída para a entrada de Rossi. Mesmo diante de um lateral fraco como Bornstein, ele não conseguiu fazer a diferença pela direita do ataque. Outro exemplo é Toni, que não consegue mais ser o matador de outros tempos. Tem perdido gols fáceis, dando a impressão de que seu ciclo com a Azzurra já poderia ter acabado. Seria melhor, por exemplo, convocar Pazzini.

Até mesmo Buffon, de quem sempre se esperou confiança, deu alguns sustos na estreia em Pretória, soltando bolas inofensivas. Não é o caso de pedir sua saída, até porque não há outro goleiro capaz, mas também não parece ser mais aquele goleiro que justificava o título de melhor do mundo.

A reviravolta do jogo contra os norte-americanos com a entrada de Rossi e Montolivo foi evidente, ainda que se leve em conta a superioridade numérica desde o primeiro tempo, o desgaste físico que isso implicava aos adversários e a notória inferioridade técnica.

A escalação inicial no 4-3-3, com o meio-campo formado por Gattuso, De Rossi e Pirlo, deixou o time sem inspiração ofensiva, apesar de Pirlo ter liberdade para se aproximar do trio de ataque. Pela esquerda, os avanços de Grosso deixavam Iaquinta buscando um espaço que não conseguia encontrar, enquanto na frente Gilardino sofria com as poucas bolas que chegavam – mas se mostrava apático quando tinha a chance de intervir.

Nem a expulsão – rigorosa, mas justa – do norte-americano Clark aos 33 minutos bastou para dar à Itália as rédeas da partida. Chiellini cometeu um pênalti em Altidore, inaceitável para um jogador de sua competência que fez uma Eurocopa brilhante há um ano. A seu lado, Legrottaglie se mostrava inapto à responsabilidade de atuar como titular da seleção, o que levanta uma questão importante: como a Itália, com toda sua tradição defensiva, passou a ter dificuldades para produzir zagueiros, enquanto o Brasil, ironicamente, agora tem tantos que tem de deixar alguns bons fora da Seleção?

Lippi ainda aguardou uns minutos no segundo tempo para ver se apenas a conversa do intervalo bastaria para mudar a postura do time, mas se convenceu rapidamente de que seria necessário fazer alterações. Com as saídas de Gattuso e Camoranesi para as entradas de Montolivo e Rossi, a Itália passou a rezar pela cartilha do Barcelona – três meio-campistas, sendo um volante com boa saída para o jogo e dois meias habilidosos, e na frente três atacantes de ofício.

Jogadores que haviam feito um primeiro tempo apagado, como Pirlo, cresceram na partida, obviamente com efeito do gol de empate marcado por Rossi um minuto depois de entrar em campo. A virada de De Rossi, com outra bomba de fora da área, acabou com as dúvidas sobre o resultado, já que os norte-americanos não teriam forças para reagir, e coube ao nativo de Teaneck selar o resultado nos acréscimos.

Em momento algum faltou raça, empenho ou determinação, mas estranho será quando isso faltar em alguma partida da Itália. Não será sempre que isso bastará para buscar os resultados.

A Copa das Confederações não é um título que alguém se orgulhe de ter no currículo, ou lamente por não tê-lo. Vale mais a pena arriscar e fazer testes agora do que lamentar depois. Dos campeões do mundo de 2006, já se sabe o que esperar. Alguns deles merecem estar em 2010, outros não. Já os jogadores mais jovens precisam de uma oportunidade para mostrar que merecem.

Contra o Egito, por exemplo, Rossi e Montolivo têm de começar jogando. E por que não dar uma oportunidade a Santon como titular na lateral-direita? O garoto interista tem potencial para jogar mais do que Zambrotta – e jogou mais na temporada da Serie A que acaba de terminar. Lippi precisa entender que o sentimento de gratidão pelos heróis de Berlim não terminará se alguns deles precisarem ser deixados de lado.

Para recuperar a hegemonia

O processo de renovação da Azzurra de Lippi pode ganhar um empurrão importante dependendo do desempenho da seleção sub-21 de Pierluigi Casiraghi na fase final do Europeu da categoria, na Suécia. Nesta terça-feira, os Azzurrini estreiam contra a Sérvia.

Casiraghi conta com um elenco forte, recheado de jogadores que já se destacam por seus clubes na Serie A. A provável escalação tem Consigli; Motta, Andreolli, Bocchetti, Criscito; Marchisio, Cigarini, De Ceglie; Balotelli, Acquafresca, Giovinco.

Os sérvios são os atuais vice-campeões e derrotaram a Itália na última edição, em 2007. No papel, são os adversários mais difíceis da chave, que ainda tem Belarus e os anfitriões suecos. Os dois primeiros colocados de cada grupo passam às semifinais.

O último título da Itália no Sub-21 foi conquistado em 2004, quando jogadores como De Rossi e Gilardino deram o salto para a equipe principal que conquistaria o mundo dois anos depois. Deve servir de exemplo para a atual geração.

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Equipe Trivela

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