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Gigi Meroni, o craque de vida meteórica que rompeu defesas e conceitos na Itália dos anos 1960

Luigi Meroni era daqueles jogadores que atraíam as atenções, fosse como fosse. Não passava despercebido. Gigi ganhou o apelido de “La Farfalla Granata” (A Borboleta Grená) muito por aquilo que fazia dentro de campo: era um ponta de muita qualidade técnica, que não se furtava a entortar os seus adversários com seus dribles estonteantes e anotava seus gols. A alcunha, porém, também servia para aquilo que vivia fora de campo. Um personagem ímpar, em meio à realidade italiana dos anos 1960. Pintor e poeta, amava os livros e a música. Usava cabelos compridos, barba longa e roupas extravagantes. Ícone da rebeldia que incomodava a sociedade mais conservadora, mas também atraiu milhares de fãs. Até que um acidente encerrasse sua carreira meteórica. Aos 24 anos, Meroni faleceu, atropelado horas depois de uma vitória de seu Torino. Tragédia marcante que completou 50 anos nesta semana.

A importância de Meroni não se traduz por seu futebol e por sua figura. Em campo, parecia o salvador pronto a levar o Toro de volta a uma época de glórias, com as cicatrizes de Superga ainda se fechando. Deixou novamente o coração dos torcedores grenás em carne viva, por todas as esperanças que depositaram e que não se cumpriram completamente. Além disso, Gigi era o símbolo de um futebol que se transformava. Que, apesar dos bons moços, também tinha espaço aos contestadores. O astro que emulava George Best mais ao sul da Europa, mas sem que sua história pudesse ser escrita por completo. O potencial se perdeu naquela noite de 15 de outubro de 1967, seja no futebol ou na transgressão.

Nascido em Como, no extremo norte da Itália, Gigi Meroni teve uma infância já atribulada. Perdeu o pai aos três anos e, em uma família de três irmãos, via a mãe se desdobrar como tecelã. O garoto começou a trabalhar cedo e logo aprendeu dois ofícios que seriam emblemáticos para a sequência de sua vida: considerava a pintura como seu “real trabalho”, enquanto atuou como aprendiz em uma fábrica de roupas da região, se especializando em produzir gravatas de seda.

Neste tempo, de qualquer forma, o futebol transformava-se em um caminho para Meroni. Ele desenvolveu sua habilidade em um pequeno campinho da vizinhança, até começar a praticar com mais frequência no Oratorio di San Bartolomeo, onde estudava. De lá seguiu para as categorias de base do Como e chegou a ser descoberto pela Internazionale, mas a mãe não autorizou as viagens até Milão. Profissionalizou-se aos 18 anos e permaneceu apenas uma temporada completa no clube de sua cidade-natal, na época militando na Serie B. Logo seria observado pelos olheiros do Genoa, que acabara de retornar à elite do Campeonato Italiano. Era uma aposta do Grifone para se restabelecer na primeira divisão.

Durante sua primeira temporada no Luigi Ferraris, Gigi não teve tanto espaço. Pior, o jovem ainda se envolveu em um episódio polêmico, ao se recusar a realizar um exame antidoping na última rodada da liga, alegando que tinha esquecido seu teste no hotel. Três jogadores rossoblù deram positivo para anfetaminas e Meroni acabou suspenso dos cinco primeiros jogos da temporada seguinte. Sua ascensão aconteceu justamente no segundo ano com o Genoa, graças à chegada do treinador Benjamín Santos. O argentino logo percebeu o talento do ponta e o alçou ao posto de protagonista, colhendo os resultados ao longo dos meses seguintes. O Grifone terminou na oitava colocação da Serie A 1963-64, conquistando também a Coppa delle Alpi. Naquele momento, o camisa 7 caía nas graças da torcida em Gênova.

Benjamín Santos saiu de férias sob a promessa do presidente do Genoa que seguiria contando com seu prodígio no elenco. Entretanto, em meados de julho, a oferta do Torino era tão boa (o recorde da época para um jogador de 21 anos) que o cartola não resistiu. Acabou acertando a transferência por cinco vezes mais do que tinha gastado dois anos antes. A notícia gerou revolta em Gênova, com os torcedores se reunindo para protestar. Enquanto isso, ao saber do ocorrido, o treinador decidiu interromper sua folga e se dirigir da Galícia à Itália para apresentar sua demissão. Em meio ao estresse, perdeu o controle do carro e bateu em uma árvore. Benjamín Santos faleceria por conta do episódio. Já Meroni seguiu ao Torino, onde atravessaria o momento mais emblemático de sua curta carreira.

O Torino passava por um processo de reformulação naquela década. A presidência foi assumida em 1963 por Orfeo Pianelli, que se tornaria o mandatário mais longevo dos grenás. Já o comando técnico ficou a encargo de Nereo Rocco, importantíssimo técnico italiano que acabara de conquistar a Copa dos Campeões com o Milan, dando o primeiro título continental ao Calcio. Era neste contexto que Gigi Meroni se inseria. E depois de anos difíceis desde a Tragédia de Superga, em que o multicampeão nacional se tornara apenas figurante, as perspectivas de reaparecer nas primeiras colocações ressurgiam.

Na mesma época, Gigi Meroni começava a atrair a atenção da seleção italiana. E aconteceu um dos episódios mais significativos de sua carreira. O técnico Edmondo Fabbri chamou o meia para a preparação dos azzurri rumo aos Jogos Olímpicos de 1964. Entretanto, deixou claro que esperava o prodígio “de cabelos aparados e bem vestido” para defender a equipe nacional. Pois o camisa 7 manteve as suas convicções. Recusou a oportunidade, sem se curvar às ordens.

“Por que eu deveria mudar? Eu sou assim porque eu aprecio. Eu não estou apenas nadando contra a maré. É o meu gosto”, afirmaria, certa feita. “Sou um cara simples, porque me sinto um sujeito simples. Mas a opinião pública quer impor o papel de estranho a todo custo. Sou feliz sobre mim mesmo. Eu nunca fiz nada que eu não faria de novo”.

Diante de toda a aposta do Torino, Meroni foi recebido de braços abertos pela torcida grená, que preparou uma grande festa em sua estreia. Contudo, demorou um pouco para o ponta se aclimatar ao novo clube, chegando a passar 13 jogos em jejum. A partir da virada de 1964 para 1965, despontaria. Em um time que prezava pelo trabalho defensivo, como mandava a cartilha de Nereo Rocco, o camisa 7 era o toque de magia no setor ofensivo. Seus dribles encantavam, especialmente as canetas que aplicava, e ele teve papel decisivo na reta final da temporada. O Toro terminou na terceira colocação da Serie A, em sua melhor campanha desde Superga. Além disso, chegou às semifinais da Recopa Europeia, eliminado apenas no jogo-desempate contra o Munique 1860.

Não havia quem competisse com a popularidade de Gigi Meroni no Torino. O craque de meias arriadas não escondia sua inspiração em Omar Sívori, justamente ídolo da rival Juventus. Mas tinha a sua marca própria. Nesta época, ganhou o apelido de Farfalla Granata. Também era chamado de Beatnik do Gol, em referência ao movimento de contracultura americana. Seus penteados lembravam os Beatles. O bigode, a barba ou as costeletas apareciam nas manchetes dos jornais. Dedicava-se aos quadros e à poesia. E o estilo extravagante para se vestir causava impacto constantemente.

O problema é que nem todos adoravam Meroni. Se ele surgia como uma inspiração aos torcedores do Torino e a uma parcela da juventude, o mesmo não se compartilhava em parte da sociedade italiana, conservadora e apegada aos preceitos religiosos. Um entrave claro era o grande amor do craque, Cristiana Uderstadt. Depois de um fim de namoro conturbado, ela se casaria com um homem mais velho, mas, ainda apaixonada, largou o marido para viver seu romance com o camisa 7. Uma história que ganhou contornos de escândalo nacional por tudo o que envolvia.

Além do mais, Meroni gostava de provocar. Seu animal de estimação era uma galinha. Certa vez, após uma série de críticas da imprensa de Como, ele saiu por um dos cartões postais da cidade carregando a ave por uma coleira. Não bastasse isso, ainda tentou colocar uma roupa de banho para que ela “nadasse” no Lago de Como. Uma postura pouco ortodoxa, que demonstrava como o ponta estava ignorando seus detratores.

Em abril de 1965, apesar dos problemas com Edmondo Fabbri, o treinador deu o braço a torcer e convocou Gigi Meroni pela primeira vez à seleção principal. “Espero que possa jogar bem, mesmo com o cabelo comprido”, afirmou o jogador, em declaração provocativa após o episódio anterior. Ele ficou no banco, mas os azzurri conquistariam a classificação à Copa de 1966. A segunda temporada do camisa 7 no Torino seguiu elevando seu moral. Embora o time tenha feito uma campanha modesta, terminando na décima colocação da Serie A, o brilhantismo de seu artilheiro era evidente, acumulando oito gols. O sucesso o ajudou a se firmar na equipe nacional às vésperas do Mundial, adotando também um visual mais comportado, sob a sugestão do presidente do Torino. O ponta disputou cinco amistosos preparatórios em 1966. Balançou as redes duas vezes, contra Argentina e Bulgária. Seus únicos dois tentos pela seleção.

Já na Inglaterra, a vida de Gigi Meroni não foi fácil, assim como de toda a seleção italiana. O time sucumbiu em uma campanha medíocre. O ponta entraria em campo apenas uma vez, na segunda rodada, titular na derrota para União Soviética. A personalidade difícil e os atritos com Fabbri o deixaram no banco contra a Coreia do Norte, no último compromisso da fase de grupos. Sem as melhores condições físicas, o capitão Giacomo Bulgarelli foi para o jogo na posição de Gigi e precisou deixar o campo ainda no primeiro tempo, agravando uma lesão no joelho. Numa época na qual as substituições não eram permitidas, os italianos tiveram que atuar com um a menos e acabaram derrotados pelos norte-coreanos, consumando a vexatória eliminação. Apesar da ausência, ainda assim o rebelde seria responsabilizado pelo fracasso. Era a deixa para que criticassem o seu estilo de vida e a maneira desinteressada como tratava alguns assuntos.

Restava a Meroni se dedicar ao Torino. E os torcedores grenás não reclamariam, diante do futebol exuberante exibido por seu jovem ídolo. Em 1966-67, Meroni ganharia a companhia de Néstor Combin, seu célebre parceiro de ataque. O argentino com nacionalidade francesa, que estava na Varese, não demorou a se adaptar ao time. Juntos, devastaram as defesas da Serie A, combinando-se para 16 dos 33 gols marcados pelo Toro na competição – nove deles anotados pelo camisa 7.

O começo daquela campanha, de qualquer forma, não foi tão bom, e o presidente Pianelli ameaçou cortar os salários em meados de novembro, diante do baixo rendimento. O técnico Nereo Rocco pediu para que poupasse Gigi Meroni. Pois o próprio ponta sugeriu que, se o mandatário assim achasse justo, que o fizesse, pois não desejava ter privilégios. Pianelli tratava seu craque como um filho. Que logo ajudaria a equipe a se reerguer, terminando na sétima colocação da Serie A, um posto razoável. O grande feito aconteceria mesmo na 24ª rodada, quando o time de Nereo Rocco visitou a poderosa Internazionale. Sob as ordens do mítico Helenio Herrera, os nerazzurri não sofriam uma derrota no San Siro havia três anos. Aconteceu justamente naquela tarde, e graças ao talento de Gigi. Ele anotou o primeiro tento no triunfo grená por 2 a 1, o mais significativo de sua carreira.

Marcado pelo lendário Giacinto Facchetti, Meroni recebeu o lançamento em velocidade e, no domínio, conseguiu se desvencilhar do defensor com um só toque. Tinha espaço o suficiente para criar alguma jogada, mas ninguém imaginava que ele conseguiria executar o que aconteceu. Sem nem mirar a direção, ele bateu de chapa na bola. Acertou um chute com efeito. Realizou uma parábola perfeita, em que o arremate caiu exatamente no ângulo do goleiro Giuliano Sarti, que só pôde lamentar. Minutos depois, o Torino ampliaria a conta com Giorgio Puia. Já o gol Mauro Bicicli no segundo tempo seria insuficiente para qualquer reação dos interistas. A história estava feita.

Com o moral altíssimo, Gigi Meroni era cobiçado para saltos ainda maiores em sua carreira. Campeã italiana naquela temporada, a Juventus partiu com tudo para contratar o camisa 7. Mandatário da Velha Senhora, Gianni Agnelli costumava assistir aos jogos do Toro apenas para desfrutar do ponta habilidoso. O cartola ofereceu um montante suntuoso, que fez Orfeo Pianelli sinalizar o acordo. O que ele não esperava era a revolta que se desencadearia a partir de então. Os torcedores do Torino protestaram em frente à sua casa. Pior do que isso, aqueles que trabalhavam na Fiat, de propriedade dos donos da Juve, ameaçaram uma greve. Pianelli até tentou justificar que o craque permaneceria na cidade, mas não colou. A pressão foi tamanha que as duas partes desistiram da transferência.

Uma pena que a torcida do Torino teria somente mais algumas partidas para desfrutar do talento de Gigi Meroni. Ele disputou apenas quatro jogos na Serie A 1967-68. Em 15 de outubro, o Toro bateu a Sampdoria por 4 a 2 no Estádio Comunale, em jogo válido pela quarta rodada. Embora tenha sido expulso, Meroni saiu para comemorar com o companheiro Fabrizio Poletti. Os dois se encontrariam com as namoradas, também para festejar a consumação do divórcio de Cristiana Uderstadt, enfim autorizado pela igreja.

Porém, quando os dois jogadores atravessavam a rua para ir a um bar, aconteceu a tragédia. Passaram pela primeira pista e, diante do tráfego intenso, esperavam na faixa central para chegar ao outro lado. Deram um passo para trás para desviar de um veículo em alta velocidade, quando outro, no sentido oposto, os pegou. Poletti foi atingido de raspão e saiu com ferimentos leves. Gigi, por sua vez, foi jogado na pista contrária e arrastado por outro automóvel, por cerca de 50 metros. Apesar das múltiplas fraturas, seguia com vida, mas precisou ser levado ao hospital por um transeunte, já que a ambulância ficara presa no trânsito ao redor do Estádio Comunale. Já no hospital, o craque não resistiu. Aos 24 anos, perdia a sua vida.

“Nunca me esquecerei daquele terrível acidente, daquela dramática noite. No dia seguinte, muita gente ainda gritava e chorava. Quando vou levar flores ao local, eu também choro. Muitas senhoras vêm trazer cravos vermelhos na frente de nosso bar”, relembra Resy Zambon, dona do bar onde tudo aconteceu.

A morte de Meroni causou grande comoção em Turim. O funeral do astro atraiu mais de 20 mil pessoas. Capelão do Torino, Francesco Ferraudo lembrou-se não apenas do jogador talentoso, mas também do homem abnegado, que fazia costumeiras doações à caridade. O religioso, porém, seria submetido a medidas disciplinares da igreja, por abençoar um ‘homem que seguia em pecado’. Mesmo morto, Gigi continuava causando impacto.

Em 22 de outubro, o Torino voltou a campo, em jogo cheio de homenagens. Os grenás enfrentariam justamente a rival Juventus no Estádio Comunale. Mais de 56 mil torcedores lotaram as arquibancadas, alternando os gritos de “Gigi” com instantes de silêncio. Antes do pontapé inicial, flores foram lançadas na ponta direita. E quando a bola rolou, o Toro registrou sua maior goleada no Derby della Mole pós-Superga, batendo os bianconeri por 4 a 0. Apesar da febre alta que o atingiu às vésperas da partida, Combin se esforçou para entrar em campo e marcou três gols, homenageando o parceiro de ataque. Já o último tento ficou por conta de Alberto Carelli, justamente o herdeiro da camisa 7 naquela ocasião.

Ironia do destino, em 2000, Attilio Romero se tornaria o presidente do Torino. Justamente o homem que dirigia o primeiro carro que atingiu Gigi Meroni. Vindo de uma família abastada, tinha 19 anos na época do acidente e, torcedor grená, era fã do camisa 7 – a ponto de copiar o seu corte de cabelo, bem como de ter pôsteres espalhados pelo quarto. Na época, o jovem apresentou-se espontaneamente à polícia e pagou a indenização exigida pelo clube. Entretanto, sua chegada ao cargo máximo do Toro não foi bem aceita pela maioria da torcida. Sua gestão acabou sendo desastrosa, marcada pela falência do Torino em 2005. Por conta dos problemas decorrentes do processo, Romero acabou condenado pela justiça italiana a dois anos e meio de prisão, por uma série de crimes financeiros.

A memória de Gigi Meroni continua sendo celebrada pelo Torino. Até hoje, o atacante é considerado um dos maiores ídolos da história grená, apesar da curta trajetória. A borboleta que continuará voando eternamente pela ponta direita. As homenagens dos torcedores são costumeiras, com um monumento dedicado ao camisa 7. Sua representatividade, no fim das contas, foi traduzida de maneira precisa pelo grande jornalista Gianni Brera: “Ele foi o símbolo de habilidades excêntricas e liberdade social, em um país no qual quase todos eram conformistas maliciosos”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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