Itália

Fabio Capello usa velho clichê para criticar o futebol italiano: “Na Espanha eles trabalham técnica, não tática”

Ex-treinador diz que um dos problemas italianos é treinar tática nas categorias de base, e não técnica, além de falar sobre falta de intensidade

A Itália ter ficado fora da Copa do Mundo despertou muitas críticas justas ao futebol italiano e à Azzurra pelo desempenho. Só que nem sempre as críticas parecem de fato fazer sentido. O técnico Fabio Capello deu entrevista ao Corriere dello Sport e usou velhos clichês para falar sobre o atraso do futebol italiano. Ele também fez críticas válidas, como a questão dos estádios e infraestrutura, mas bateu em teclas que não fazem muito sentido, ainda mais quando olhamos de fora.

“O futebol italiano está muito atrás de outros. A bola não se mexe rapidamente, os árbitros apitam muito frequentemente. Eles param o jogo demais. Toda dividida é falta, então nunca há muita intensidade”, afirmou o ex-treinador, que nunca deve ter visto um jogo de Campeonato Brasileiro, por exemplo.

“O maior problema continua que os melhores jogadores não vêm mais para a Itália. Você não irá aprender nada se você não encontra com os melhores. Precisamos de estádios e infraestruturas”, analisou ainda o técnico.

De fato, a Itália não é a liga mais desejada do futebol italiano, mas nem mesmo a Espanha é. A Premier League se tornou a coqueluche europeia desde o começo dos anos 2000, mas esse não é o principal problema. A Bundesliga nunca foi a liga mais desejada, mas continua revelando talentos e a sua seleção foi campeã do mundo. A própria Itália já não era a melhor liga do mundo em 2006, quando a Azzurra foi campeã mundial.

A crítica em relação aos estádios, porém, é bastante pertinente e válida. Só a Juventus se preocupou com isso lá atrás e hoje vários clubes italianos estão bastante atrasados em relação a estádios, especialmente mais tornar mais rentáveis. Os estádios clássicos são importantes, mas Milan e Inter, por exemplo, já perceberam que precisam modernizar San Siro — e os estudos mostraram que seria impossível fazer com que o estádio se adequasse completamente. Assim, decidiram pela construção de um novo, que já tem um projeto pronto.

Em termos de clubes, a Itália ainda conquistaria o título europeu em 2009/10 com a Inter, em um último suspiro que aproveitou a chance. A Juventus bateu na trave duas vezes, enquanto Milan e Inter passaram anos sem frequentar a Champions League. Nenhum clube italiano conquista um título continental desde o título da Inter. Nesta temporada, o Milan caiu na fase de grupos da Champions League, a Inter caiu nas oitavas de final para o Liverpool e a Juventus para o Villarreal.

Para Capello, o futebol italiano não irá voltar ao topo rapidamente, nem em cinco ou seis anos. “Nem mesmo em oito. Na Itália, todo mundo intervém. Políticos, associações vizinhas e assim vai. Assim como categorias de base, aqueles que estão no comando deveriam viajar para a Espanha, onde eles trabalham técnica, não tática”, afirmou o treinador.

O futebol espanhol tem muitos méritos na formação de jogadores e pode – e diria que deve – ser olhado por outros países para entender o que pode ser aproveitado. O futebol italiano mesmo melhorou na formação de talentos e, ainda que tenha problemas em algumas posições, tem mostrado bons jogadores jovens, que conquistaram seus espaços nas equipes do país. Mas calma lá.

Dizer que o problema é a falta de técnica soa como os saudosistas brasileiros que dizem de forma tosca e sem nenhum embasamento científico que bom mesmo era a molecada jogar em campos esburacados, porque era isso que formava jogadores tecnicamente melhores. Categorias de base existem para formar os jogadores em todos os aspectos, de técnica a tática.

É importante que o jogador tenha o máximo de ferramentas possíveis. E é normal que alguns sejam mais táticos que técnicos ou vice-versa. Parece um problema que só vem à tona em momentos de crise, justamente porque não há nada que sustente esse argumento.

Um deles é Nicolà Zaniolo, da Roma, que vem sofrendo com lesões. Capello acredita que o atacante é um dos melhores da Serie A neste momento, assim como Paulo Dybala e Dusan Vlahovic, da Juventus. “Gosto de Vlahovic, ele tem velocidade, força física e desejo de melhorar. Ele sabe como trabalhar pelo time e continua dentro da área. Mas Max [Allegri, técnico da Juventus] está certo quando ele diz que deve aprender como jogar em um clube de topo, gerindo a pressão e as diferentes fases do jogo”, analisou o antigo treinador.

“Você não pode questionar Dybala tecnicamente, mas ele teve alguns problemas físicos. Um conselho? Se ele está feliz em Turim, ele deveria ter desafiado a Juventus. Pedido para eles um ano de contrato e mostrar o que ele pode fazer. O mesmo vale para Zaniolo. Ele sofreu duas lesões sérias e ficou fora por 18 meses. Ele deve redescobrir a sua autoconfiança porque ele tem as habilidades técnicas”, disse Capello.

Dybala só tem contrato com a Juventus até junho e clube e jogador não conseguiram entrar em acordo para uma renovação. Diante do impasse, o clube anunciou que não renovaria o contrato do argentino, que ficará livre no mercado. Zaniolo pode ser justamente a reposição que a Juventus quer para a saída de Dybala, mas ele tem contrato até 2024 com a Roma, que não está disposta a vender.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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