Itália

Do inferno ao céu em oito passos

Menos de dois meses se passaram desde o dia 14 de setembro, mas para o Milan já parece um longo tempo atrás. Naquela ocasião, a derrota por 2 a 0 para o Genoa deixava os ‘rossoneri’ em último lugar na Série A, com zero ponto nas duas primeiras rodadas. Com a vitória por 1 a 0 sobre o Napoli no último domingo, o time de Carlo Ancelotti assumiu a liderança isolada – posição que o Milan não ocupava desde o final da temporada 2003/04, quando se sagrou campeão.

Sair do fundo para a ponta da tabela em um espaço de oito rodadas, somando 22 pontos de 24 possíveis, obviamente é um feito impressionante. Vale lembrar que, no ano passado, o Milan tinha nove pontos a menos no mesmo estágio da temporada. Então, o que mudou? Os erros apontados após o mau começo – mercado pouco equilibrado, preparação problemática – não deixaram de existir. O que fez a diferença, antes de mais nada, foi a gestão da crise.

Experiente, Ancelotti conhece uma coisa ou duas sobre administrar momentos complicados. A demissão do treinador (que completa sete anos no cargo esta semana) nunca foi seriamente discutida dentro do clube, e nem havia motivos para tal. Assim, ele fez o que era necessário para uma reação imediata: passou a escalar a cada jogo quem estava em melhores condições. De nada adiantava ter uma formação com três Bolas de Ouro se dois deles, Ronaldinho e Shevchenko, estavam visivelmente fora de forma. É bom lembrar, também, que Kaká estava voltando de cirurgia no começo da temporada.

Shevchenko já está resignado à função de coadjuvante, sobretudo com a recuperação de Borriello – mais eficiente e mais dedicado taticamente que Pato. Ronaldinho, ao contrário, lutou até obter um lugar por méritos e não pelo nome. Ninguém seria louco de dizer que ele é o mesmo jogador eleito por duas vezes o melhor do mundo com a camisa do Barcelona, mas a deficiência na forma tem sido compensada com uma grande disposição – e os eventuais lampejos que seu talento permite.

Ronaldinho foi decisivo no dérbi contra a Inter e no choque pela liderança contra o Napoli. A cobrança de falta do gaúcho, pouco depois do pênalti perdido por Kaká, foi desviada para as redes por Denis, mas o gol foi atribuído ao milanista, que chegou a quatro na Série A.

Em relação à última temporada, também faz diferença ter um goleiro mais confiável. Se Abbiati não é o nome dos sonhos, pelo menos transmite bem mais segurança que Kalac ou Dida. Nas últimas seis partidas dos ‘rossoneri’, ele só levou gol em uma, ajudando o Milan a ter a melhor defesa do campeonato ao lado de Inter e Juventus, com sete gols sofridos.

Na zaga, que poderia ser problemática com o drama de Nesta (ele segue com dores nas costas e pode ser operado nos EUA em breve) e a impossibilidade de contar sempre com Maldini, Bonera tem jogado como nunca. Favalli também não tem decepcionado. Por incrível que pareça, dois jogadores dos mais criticados do elenco rossonero se transformaram em peças fundamentais. Senderos parece nem fazer parte do grupo: em dois meses, três lesões e nenhum minuto em campo por competições oficiais.

A abundância de opções no meio-campo tem permitido a Ancelotti superar a ausência de Pirlo sem grandes sustos. Gattuso, Ambrosini, Flamini, Seedorf e Emerson dão boas garantias. Vale destacar sobretudo a participação de Gattuso, que não apenas tem sido o habitual marcador incansável, como ainda colabora com o jogo ofensivo. Um bom exemplo foi o passe dado para Inzaghi marcar contra o Siena, no meio da última semana. E pensar que Beckham chegará em janeiro…

Créditos ao Napoli

Apesar de ter entrado em campo podendo ser líder e ter saído dele em quarto lugar, o Napoli tem razões para se orgulhar da atuação em San Siro. Afinal de contas, o time de Edy Reja passou todo o segundo tempo com um jogador a menos (Maggio expulso com o segundo cartão amarelo) e por poucos minutos não levou um ponto precioso para casa.

Os méritos da vitória do Milan não podem ser questionados – ajuda, para isso, o fato de o gol decisivo não ter saído no absurdo pênalti assinalado em um toque de mão involuntário de Pazienza. Sobretudo no período de superioridade numérica, os donos da casa quase não permitiram que o Napoli saísse de seu próprio campo.

Reja soube adaptar o time muito bem à situação de pressão. Depois de perder Maggio, expulso, e Santacroce, lesionado, ele trocou o 3-5-2 habitual por um 4-3-2. Aronica, que entrou no lugar de Hamsik, foi para a lateral-esquerda, e Mannini, escalado inicialmente como externo no meio-campo, passou a ocupar a lateral-direita.

Com a entrada de Pato no lugar de Ambrosini, aos 15 minutos do segundo tempo, o Milan passou a atacar com quatro homens, na prática. Ainda assim, o Napoli resistiu e só sucumbiu por um desvio infeliz de Denis em uma jogada de bola parada. Justo pelo esforço milanista, cruel pela resistência dos ‘partenopei’, que mantêm intacta a certeza de poder disputar pelo menos um lugar na próxima Liga dos Campeões.

Atenção para o Genoa

Os quatro primeiros colocados da Série A (Milan, Udinese, Inter e Napoli) já enfrentaram o Genoa nesta temporada. Nenhum deles conseguiu vencer. Milan e Napoli perderam no estádio Luigi Ferraris, enquanto Inter e Udinese não passaram de empates em casa.

O sétimo lugar que o time de Gian Piero Gasperini ocupa neste momento, cinco pontos atrás do líder, pode não ser seu limite. As atuações do Genoa até este momento o credenciam como possível classificado para uma competição européia.

Os ‘grifoni’ foram impecáveis em casa, vencendo cinco vezes. Fora, perderam as três primeiras, até que perceberam que o melhor a fazer seria repetir como visitantes a mentalidade adotada diante da torcida. Assim, jogando de igual para igual, foram conquistados os pontos contra Inter e Udinese – este último no empate por 2 a 2, domingo passado.

A direção do Genoa merece elogios por um mercado de apostas acertadas. Falar em Diego Milito é o mais óbvio – o atacante argentino é um ídolo da torcida e consegue ser quase sempre decisivo.

Porém, o time ainda achou em Ferrari, descartado pela Roma, uma peça segura para a defesa. Thiago Motta, volante que ninguém queria se arriscar a contratar por não confiar em seu físico, chegou com a temporada em andamento e já joga como se estivesse no time há tempos, desarmando e armando. Sem falar em Rubinho, Gasbarroni, Sculli e Juric, outros jogadores de muita regularidade.

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Equipe Trivela

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