Copa da Itália

Como foi a inédita conquista da Atalanta na Copa da Itália em 1962/63, uma taça que permanece como orgulho em Bérgamo

Estrelada pelo novato Angelo Domenghini, a Atalanta derrotou o Torino na final para levantar a taça no San Siro

Pela quinta vez em sua história, a Atalanta disputará a final da Copa da Itália. As últimas três tentativas dos Orobici não foram felizes, com o vice-campeonato em 1987, 1996 e 2019 – a mais recente já sob as ordens de Gian Piero Gasperini. E se o possível título contra a Juventus nesta quarta (às 16h, com transmissão de DAZN e RAI para o Brasil) será uma chancela ao excelente ciclo vivido em Bérgamo, ele também pode servir de elo com a história dos nerazzurri. Afinal, o maior troféu da Dea veio exatamente na Coppa, na longínqua temporada de 1962/63, em tempos nos quais o clube já confiava em talentos locais e faturou a taça recém-estabelecida.

A Copa da Itália não possui uma história contínua. O torneio foi realizado pela primeira vez nos anos 1920, mas foi apenas no final da década de 1930 que começou a ter edições consecutivas. Durante a Segunda Guerra Mundial, o certame seria novamente interrompido. A retomada só aconteceu em 1958. Assim, diferentemente de outras copas nacionais de países europeus (como a FA Cup ou a Copa do Rei), a Coppa não estava tão arraigada no Calcio durante aqueles primórdios. Apesar disso, não tirava o interesse de potências como a Juventus, que levou as duas primeiras taças neste reinício.

A criação da Recopa Europeia no início dos anos 1960 era uma motivação a mais nesse momento de retomada da Copa da Itália, com o vencedor classificado ao segundo torneio mais importante do cenário continental. Fiorentina e Napoli (então na Serie B) foram os primeiros a aproveitar a oportunidade. Já na edição de 1962/63, a Atalanta surgiu como grande surpresa. A Dea tinha tradição na Serie A e, desde a década de 1940, só não havia disputado uma edição da primeira divisão – quando caiu e voltou de imediato. Mesmo assim, era um clube acostumado a figurar no meio da tabela e nunca tinha passado da quinta colocação.

A Atalanta campeã (Foto: Wikimedia Commons)

Depois do rebaixamento e do acesso registrado em 1958/59, a Atalanta retornou à Serie A para figurar na parte de cima da tabela. Conseguiu a nona colocação em 1960/61 e ficou no sexto lugar em 1961/62. Se tal nível de desempenho ainda não era suficiente para almejar o Scudetto, já dava para tentar uma surpresa na Copa da Itália. O torneio concedia mais aberturas para que outros clubes pleiteassem o troféu, ainda mais em tempos nos quais o futebol italiano exibia sua força continental. Vale lembrar que, naquele momento, se iniciaria um triênio com títulos de Milan e Internazionale na Copa dos Campeões. Craques internacionais ainda povoavam os elencos e elevavam o Calcio.

Curiosamente, a Atalanta tinha mudado de treinador naquela temporada de 1962/63. O time subiu nas mãos de Karl Adamek, austríaco que havia sido tricampeão sueco até desembarcar na Itália. Depois, as três temporadas consecutivas de volta à Serie A estavam sob as ordens do iniciante Ferruccio Valcareggi, que se credenciaria com as boas campanhas e sairia para dirigir a Fiorentina em 1962 – anos antes de ser o técnico da seleção italiana na conquista da Euro 1968, bem como de alcançar a final da Copa de 1970. Com seu adeus, chegou Paolo Tabanelli, um velho conhecido da casa. O antigo meio-campista tinha sua ligação com a Dea desde os tempos de jogador, defendendo o clube ao longo da década de 1940. Após se tornar treinador, dirigiu clubes como a Sampdoria e o Bari. Já em 1962/63, voltou para Bérgamo e assumiu os Orobici.

O elenco da Atalanta vinha com sua base formada desde os anos anteriores. A Dea contava com seu grupo de estrangeiros, obviamente. Dino da Costa estava em seu segundo ano no clube e possuía uma carreira experimentada no Calcio, entre as grandes figuras da Roma no fim dos anos 1950. Outro sul-americano no setor ofensivo era o argentino Salvatore Calvanese, que tinha passado por Genoa e Catania até ser contratado pelos Orobici. Além disso, havia uma ponte aérea entre Bérgamo e a Dinamarca, com dois meio-campistas do país. Flemming Nielsen tinha chegado após a prata olímpica em 1960, enquanto Kurt Christensen era uma aposta por seu destaque no futebol local.

Domenghini marca o terceiro gol (Foto: Wikimedia Commons)

De resto, a Atalanta confiava em uma base italiana lapidada na Lombardia. Sobretudo, em talentos forjados na própria cidade de Bérgamo. O time que entrou em campo na final da Coppa contava com nove jogadores lombardos e cinco especificamente bergamascos, enquanto outros dois estrangeiros completavam a escalação. Trazido da Juventus após levar três Scudetti em Turim, Umberto Colombo era uma das peças mais tarimbadas no meio-campo. Mario Mereghetti e Luciano Magistrelli eram outros com experiência nos grandes clubes, ambos trazidos da dupla de Milão. Mas, em suma, os Orobici aproveitavam crias da casa.

O goleiro Pier Luigi Pizzaballa chegaria à seleção, enquanto Alfredo Presenti, Franco Nodari, Giorgio Veneri e o capitão Piero Gardoni seriam importantes ao sistema defensivo na reconstrução do clube a partir da Serie B – todos passando longos períodos com os nerazzurri. Eles estavam sob a liderança de Livio Roncoli, o mais velho do elenco, que tinha saído da base e permanecia como referência na equipe principal desde 1949. O grande talento, de qualquer forma, jogava como ponta e estava prestes a estourar como um dos jogadores mais importantes do Calcio naquela década: Angelo Domenghini, então com 21 anos. O garoto depois se tornaria multicampeão com a Internazionale e participou ainda do Scudetto do Cagliari, além de fazer história nas seleções da Euro 1968 e da Copa de 1970. Antes disso, ainda era um prodígio recém-pinçado na base da Atalanta, que faria sua primeira temporada como titular em 1962/63. Pois foi exatamente aquele título que marcou sua explosão em Bérgamo.

A Atalanta faria uma boa temporada na Serie A de 1962/63, mantendo o padrão dos anos anteriores com um honroso oitavo lugar. O time chegou a conquistar alguns resultados valorosos no primeiro turno, batendo a Juventus em Turim e a Internazionale no San Siro, além de segurar o empate com o Milan fora de casa. Entretanto, mesmo ocupando a quinta colocação em dezembro, a equipe caiu de nível no returno. Ao menos, ficou o gosto de derrotar de novo a poderosa Inter de Helenio Herrera, se tornando responsável por duas das quatro derrotas sofridas pelos novos campeões.

Já na Copa da Itália, o caminho ajudou a campanha firme da Atalanta. A equipe até sofreu na primeira fase, ao superar o Como (que seria rebaixado na Serie B) apenas na prorrogação. A vitória por 4 a 2 já teria papel importante de Domenghini, autor de dois gols. Depois, a Dea pegou um adversário de Serie A e derrotou o Catania por 2 a 1 nas oitavas, com dois tentos de Christensen. Dino da Costa foi figura importante nas quartas de final e na semifinal, contra dois oponentes da segundona, anotando tentos decisivos nos 2 a 0 sobre o Padova e no 1 a 0 em cima do Bari. Então, a final guardou o maior desafio.

A Atalanta celebra com a taça

O Torino terminou a Serie A com a mesma pontuação da Atalanta e não atravessava seu momento mais prolífico, ainda no longo processo de reconstrução após a Tragédia de Superga. Mesmo assim, em termos de tradição, os grenás eram favoritos para a final da Coppa. Giacinto Ellena era o treinador, contratado no meio da temporada. O espanhol Joaquin Peiró e o inglês Gerry Hichens tinham chegado pouco antes como estrelas da companhia. Além do mais, o Toro contava com jogadores de seleção italiana, a exemplo do goleiro Lido Vieri, do meio-campista Giorgio Ferrini e do zagueiro Roberto Rossatto. A braçadeira de capitão ficava com o veterano Enzo Bearzot, já na reta final de sua carreira, antes de iniciar a trajetória como treinador que o levou ao comando da seleção para o tricampeonato na Copa do Mundo de 1982.

A Atalanta precisou lidar com desfalques importantes para aquela final. O goleiro Zaccaria Cometti passou meses no estaleiro por uma fratura. Livio Roncoli e Dino da Costa foram outras duas ausências significativas, considerando a experiência de ambos. Mas, no fim das contas, a Dea dominou o Torino física e tecnicamente na decisão disputada no San Siro. A vitória por 3 a 1 indicava bem o tamanho da superioridade, contra o Toro desgastado pela sequência de compromissos. Além disso, a final também deixou expressa a estrela de Domenghini, autor dos três tentos nerazzurri.

Domenghini precisou de quatro minutos para abrir o placar à Atalanta. Nielsen cobrou uma falta pela direita e o garoto entrou como um raio no segundo poste, para completar de cabeça. Na sequência do primeiro tempo, Pizzaballa também seria importante na meta nerazzurra, impedindo o empate do Torino, diante da insistência dos grenás. A Dea também deu sorte, diante de uma excelente oportunidade desperdiçada por Peiró.

Já na volta do segundo tempo, aos três minutos, Domenghini ampliou para a Atalanta. Magistrelli deu um toquinho para encobrir a marcação na área e o garoto chegou com tudo para fuzilar na saída de Lido Vieri. O Torino continuava lutando, mas aquela seria mesmo a tarde de Domenghini. A tripleta do camisa 7 estava completa aos 36. Depois de seu chute ser bloqueado no primeiro momento, o ponta permaneceu com a bola e deixou Lido Vieri no vácuo, driblando o goleiro antes de definir com enorme frieza. Só depois disso é que o Toro marcou seu gol de honra, num tiro rasante de Ferrini que morreu no canto da meta. A taça, de qualquer forma, iria para Bérgamo.

“A Atalanta é uma equipe séria, positiva e saudável. Basta considerar o fato de que o clube atrai grande parte de seus jogadores na cidade, tornando-se um centro de formação como tantos outros poderiam ou deveriam ser. Bergamo é uma cidade de gente forte, seja moral ou fisicamente. Este é um reconhecimento que deve ser feito em tom explícito, também em consequência da política esportiva que a cidade quis seguir”, escreveu Vittorio Pozzo, técnico bicampeão do mundo à frente da seleção, em seu comentário depois da conquista da Dea.

Se mais de 30 mil torcedores compareceram às arquibancadas do San Siro, a festa da Atalanta em sua cidade seria marcante. O clube, tão identificado com a comunidade local, vivia seu grande momento. Entretanto, as celebrações acabaram freadas por uma fatalidade: no dia seguinte, o Papa João XXIII faleceu. Angelo Giuseppe Roncalli era nascido em Bérgamo e tinha iniciado sua vida sacerdotal na cidade, o que o tornava uma figura muito querida entre os bergamascos. Tal notícia acabou por conter um pouco a alegria ao redor da Coppa.

A Atalanta ainda conseguiria o vice-campeonato da Copa dos Alpes ao final daquela temporada. O torneio era disputado por equipes da Itália e da Suíça, com a Dea eliminando a Inter na fase de classificação, antes de perder o troféu na final contra a Juventus, num apertado 3 a 2. Na temporada seguinte, a equipe perdeu destaques como Domenghini (vendido à Inter) e Dino da Costa (pinçado pela Juve), enquanto Paolo Tabanelli assumiu o recém-promovido Bari. A equipe não teria a mesma força, ainda que tenha repetido a oitava posição na Serie A. A campanha na Recopa Europeia terminou logo cedo, com os nerazzurri superados pelo Sporting na primeira fase. Depois da vitória por 2 a 0 em Bérgamo e da derrota por 3 a 1 no Alvalade, a Dea perdeu a classificação com um revés por 3 a 1 no jogo extra realizado no Camp Nou.

A Atalanta caiu de nível na metade final dos anos 1960 e terminaria a década rebaixada, antes de retornar à Serie A. Permaneceu como coadjuvante no futebol italiano até recuperar um pouco o brilho no fim dos anos 1980. A Dea foi finalista da Copa da Itália em 1986/87, perdendo a decisão para o Napoli, numa temporada em que acabou rebaixada. Mesmo na Serie B, foi semifinalista da Recopa em 1987/88, e voltaria à Serie A para fazer suas melhores campanhas desde aquele momento de ouro na década de 1960, terminando na sexta posição em 1988/89 e batendo cartão na Copa da Uefa. Aquele seria outro período relevante em Bérgamo, até o trabalho magnífico de Gian Piero Gasperini guardar grandes histórias nos últimos anos e traçar um novo ápice. Quem sabe, com um troféu na Coppa que signifique ainda mais que o feito inédito de 1963.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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