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Com um mercado astuto, Napoli transformou uma temporada de reconstrução em um título histórico

Após perder algumas das suas principais bandeiras, a expectativa era que o Napoli passasse por uma transição, não por sua maior catarse coletiva em mais de 30 anos

Desde que entrou em falência e foi resgatado por Aurelio de Laurentiis, o Napoli se estabeleceu na elite do futebol italiano. De 2009/10, o terceiro ano após a promoção, para cá, nunca ficou abaixo da sétima posição e nessas 13 temporadas nove vezes terminou entre os três primeiros. Encaixou uma campanha fantástica de 91 pontos e ainda perdeu o scudetto porque a Juventus estava no auge dos seus poderes. Tem a capacidade de fazer grandes investimentos pontuais, é relativamente estável para treinadores e sabe desenvolver talentos. Esperava-se que em um futuro próximo quebraria o jejum de títulos italianos, mas não que ele pararia em 33 anos porque deveria estar passando por uma profunda reconstrução, e esse processo geralmente traz mais dificuldades do que feitos históricos.

Em uma única tacada, o Napoli perdeu três das suas principais bandeiras recentes, jogadores essenciais para se manter tanto tempo no topo da tabela da Serie A. Lorenzo Insigne era o capitão e ídolo máximo das arquibancadas na última década. Dries Mertens, de ponta a um centroavante letal, tornou-se o maior artilheiro da história do clube. Há muito tempo entre os principais zagueiros do mundo, foi necessário um esforço gigantesco para manter Kalidou Koulibaly no sul da Itália por tanto tempo. Outros jogadores talentosos ou experientes que tiveram o seu papel, como David Ospina, Faouzi Ghoulam e Fabián Ruíz, também foram embora. Era necessário ir ao mercado para preencher tantos vácuos.

Existem alguns caminhos para dar o salto que o Napoli deu. O mais popular é gastar o PIB de um pequeno país em grandes estrelas. O Napoli não fez isso. Outro é mudar de técnico, talvez encontrar um jovem Pep Guardiola ou um jovem Jürgen Klopp. O Napoli não fez isso. A terceira via é cravar tanto um reforço meio desconhecido, meio fora do radar, que um candidato à Bola de Ouro emerge da Georgia. Isso o Napoli fez, e a surpresa é principalmente porque era impossível saber que havia feito.

O Napoli raramente contrata o produto pronto. Está naquele patamar em que recruta jovens, faz apostas e de vez em quando pega algum medalhão em baixa nos clubes mais ricos. Essa estratégia exige tempo para os novos jogadores se adaptarem a uma nova cidade, a um novo técnico, um novo estilo de jogo e, para alguns, expectativas maiores. E também para evoluírem de modo geral. O mercado que transformou o Napoli em campeão italiano foi notável porque quebrou todas essas regras. Se não em volume, mas na precisão de dois reforços que imediatamente elevaram o seu patamar.

Quando estava apresentando o novo elenco no começo da pré-temporada, Luciano Spalletti dizia que jogadores como Ospina, Ghoulam, Koulibaly, Mertens e Insigne, quando vão embora, “levam muita coisa”, e um torcedor gritou “acorda” bem alto. Levou um “fica quieto” de Spalletti, mas estava clara a mensagem de que (pelo menos) parte das arquibancadas não estava satisfeita com as reposições. E parece um momento tão bom quanto qualquer outro para lembrar que alguns torcedores roubaram o Fiat Panda de Spalletti e estenderam uma faixa dizendo que o devolveriam apenas se ele fosse embora, o que dá uma medida do clima em que a temporada começou.

Khvicha Kvaratskhelia não apareceu do nada. Chegou novinho ao Lokomotiv Moscou e emendou boas temporadas pelo Rubin Kazan. Era uma promessa do Campeonato Russo, estava em várias listas de jovens para ficar de olho e havia feito bons jogos pela seleção da Georgia nas Eliminatórias da Copa do Mundo. Era apenas circunstancial que estava no Dínamo Batumi: a Fifa havia permitido que jogadores estrangeiros em clubes russos rescindissem contrato após a invasão à Ucrânia. Chegou em março, e em abril estava contratado pelo Napoli. A velocidade foi essencial para rechaçar clubes mais ricos. Essa parte é de boa: os olheiros tem quase todos os talentos do mundo mapeados, não é estranho que Kvaratskhelia tenha aparecido bem nos relatórios, e a contratação por € 10 milhões pelo que havia apresentado era uma ótima aposta. O estranho é o que aconteceu depois.

O nível que ele atingiu desde a primeira rodada do Campeonato Italiano não é comum, e pode ser colocado na conta tanto da sua qualidade quanto da sua personalidade. Logo de cara, comandou uma goleada sobre o Verona, com gol e assistência. Marcou duas vezes no Monza na segunda rodada. Foi decisivo em um jogo duro contra a Lazio e não se intimidou com a Champions League, liderando duas sapatadas contra o Ajax. E mais incomum ainda é que o começo explosivo não foi fogo de palha. Ele o manteve por toda a temporada, com cinco gols em sete rodadas entre fevereiro e março, que incluíram uma pintura contra a Atalanta. Questionado sobre a pronúncia da sopra de letrinhas quando anunciou Kvaratskhelia, De Laurentiis disse algo na linha de “sei lá, pode ser Zizi”. Para os íntimos, ficou Kvara. Para os apaixonados, Kvaradona.

Talvez não haja paralelo para uma ascensão tão meteórica. Um ano depois, € 150 milhões por Kvaratskhelia parece pouco. Qual outro jogador deu um salto tão grande? O de Mohamed Salah, em sua primeira temporada pelo Liverpool, foi enorme, mas ele pulou de um patamar mais alto: estava bem na Roma, havia passado pelo Chelsea e era mais experiente. Uma comparação mais próxima, e ainda imprecisa porque ele estava no Leicester há dois anos, seria Riyad Mahrez. Em um estalar de dedos, virou o craque da Premier League. Como aquele time de Claudio Ranieri foi o mais mágico da nossa geração, há um outro candidato. Ninguém deu muita bola quando as Raposas contrataram N’Golo Kanté, com apenas uma temporada de primeira divisão pelo Caen.

Então o Napoli encontrou um diamante para substituir Lorenzo Insigne. Ainda faltava uma outra posição fundamental que havia ficado vaga. Kim Min-jae poderia ter mostrado seu futebol na Copa do Mundo da Rússia. Ficou fora por lesão. Era jogador do Jeonbuk Hyundai Motors e no ano seguinte ganhou uma transferência para a Superliga Chinesa. Deixou o Beijing Guoan em 2021, depois da torneira de investimentos fechar e entre as restrições da pandemia. Fez uma boa temporada pelo Fenerbahçe e exigiu um valor mais alto, de € 18 milhões, para substituir Koulibaly. A maneira como dominou a defesa do Napoli logo de cara também é impressionante, embora um pouco mais comum: um bom zagueiro de um centro secundário ser inserido a um sistema defensivo organizado e mostrar liderança e que na verdade é ótimo já aconteceu outras vezes. Ainda assim, foi um grande achado.

O curioso é que as reposições mais badaladas acabaram sendo coadjuvantes da campanha. Por exemplo, Giacomo Raspadori, teoricamente substituto de Dries Mertens no elenco, era talvez o principal reforço. Teve problemas físicos e jogou pouco, com Hirving Lozano frequentemente o ponta direita, às vezes Matteo Politano, dois caras que estavam no elenco. Tanguy Ndombélé, contratado para o lugar de Fabián Ruíz, era outro nome forte e chegava da poderosa Premier League. Também foi reserva. Spalletti compensou a saída do espanhol com mais minutos para Stanislav Lobotka e Frank Anguissa. Contratar o camaronês em definitivo foi uma ótima decisão das duas partes, porque o Napoli parece mais adequado às suas qualidades do que o sobe e desce do Fulham. Giovanni Simeone era conhecido pelos seus serviços na Serie A e mal passou dos 300 minutos, mas esse havia chegado para ser reserva mesmo. Ainda assim, foram peças importantes para encorpar o elenco de Spalletti.

O Napoli não começou a temporada com terra arrasada. Foi terceiro colocado da Serie A e em fevereiro chegou a assumir brevemente a liderança. Mas houve duas ou três sequências de resultados ruins ao longo do campeonato e, no fim, o título ficou distante mais uma vez. As campanhas na Copa Itália e na Liga Europa foram curtas. Havia insatisfação com o técnico, rusgas de longa data entre arquibancada e o presidente De Laurentiis e um claro fim de ciclo com as saídas de jogadores tão importantes.

Não era um cenário que gritava fim de jejum, e o Napoli soube trabalhar muito bem no mercado para acelerar a reconstrução. Deu um pouco de sorte também, claro, sempre um fator em qualquer reforço. Não foi a única coisa que aconteceu. Também houve uma evolução coletiva, tanto que mais de 80% dos titulares já estavam no clube, e alguns jogadores deram um passo à frente, como Victor Osimhen, Lobotka, Anguissa e Eljif Elmas. É inegável, no entanto, que principalmente Khvicha Kvaratskhelia e Kim Min-jae foram as faíscas da combustão de um time histórico.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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