Itália

Campeã do mundo, e daí?

A conquista do título mundial de clubes em Abu Dhabi completou o melhor ano da história da Internazionale, com cinco troféus de seis possíveis. É possível dizer que, com o Internacional de Porto Alegre fora do caminho, os nerazzurri não fizeram nada além da obrigação ao vencer com facilidade seus dois adversários, Seongnam e Mazembe.

A taça fica para a história e para o currículo. Só não serve para abafar a crise que se ensaiou por semanas antes da competição da Fifa e acabou explodindo após o apito final, com o desabafo de Rafa Benítez contra a direção interista e em especial o presidente Massimo Moratti.

Benítez acusou Moratti de não cumprir promessas de contratações feitas durante a pré-temporada (Mascherano e Kuyt, por exemplo) e deu um ultimato ao clube, pedindo ao menos quatro reforços em janeiro e dando a entender que deixaria o cargo em caso contrário. Além disso, lamentou a falta de apoio público do presidente, que chegou a declarar que em outros tempos já teria demitido o treinador por causa dos maus resultados no início da temporada.

As duas partes têm suas responsabilidades na má temporada da Inter. O treinador espanhol mudou demais a forma de atuar da equipe, quando poderia beber na fonte de José Mourinho, seu antecessor, e manter a estrutura vitoriosa da última temporada. Também é verdade que as lesões se acumularam, mas em parte a razão pode ser atribuída à mudança nos métodos de preparação física.

Por outro lado, é fato que o elenco nerazzurro é razoavelmente envelhecido e precisaria de melhores alternativas – no mínimo mais uma por setor. Não chegaram reforços de peso – apenas jovens como Coutinho e Biabiany – e ainda saiu Balotelli, que seria uma alternativa e tanto no ataque.

Estrategicamente, Benítez escolheu o pós-jogo da final do Mundial para fazer seu desabafo. Foi uma vitória pessoal, já que boa parte da torcida se posicionou a seu favor, inclusive com gritos de incentivo no retorno da equipe à Itália. O público compartilha da opinião de que o treinador não tem da cúpula o mesmo apoio que tinha José Mourinho. E a insatisfação não é só de Moratti, é também de parte do elenco.

Stankovic não escondeu a chateação com a reserva na final contra o Mazembe, após jogar bem contra o Seongnam. Outros jogadores não perdem a oportunidade de alfinetar o atual técnico através de elogios ao desafeto Mourinho.

O fato é que não há mais clima para a permanência de Benítez na Inter, e agora Moratti estuda a melhor maneira de trocar de técnico. No site oficial do clube, o espanhol não aparece nas fotos da comemoração do título. O processo de separação, no entanto, é complicado. Benítez não aceita pedir demissão, e dispensá-lo agora obrigaria a Inter a desembolsar € 8 milhões, a totalidade de seu contrato de duas temporadas, além dos prêmios. Caso a separação se desse apenas no fim da temporada, o valor cairia pela metade.

A filha de Benítez já foi matriculada em uma escola de Liverpool para janeiro, o que pode ser um indício de sua saída imediata. Caso a rescisão se concretize, a Inter trabalha com duas hipóteses: buscar desde já um nome definitivo, ou apostar em um “traghettatore”, o técnico que levaria a equipe até o fim da temporada, guardando lugar para outro.

Na primeira opção, o favorito é Luciano Spalletti, que fez ótimo trabalho na Roma e vem de conquistar o título russo com o Zenit. O principal empecilho seria liberá-lo do contrato em andamento com o time de São Petersburgo. Além disso, há uma possível crise diplomática em vista, já que a Gazprom, que controla o Zenit, rivaliza em seu ramo de negócios com a empresa de Moratti. Segundo a imprensa italiana, havia promessa de liberação em caso de oferta de um grande clube italiano, mas nada estipulado em contrato.

Se a opção for temporária, ganha força o nome de Leonardo, fortemente identificado com o Milan, mas magoado com Silvio Berlusconi após sua turbulenta saída na última temporada. Assumir o rival seria uma alfinetada no antigo patrão. Há também a possibilidade de recorrer a um antigo ídolo, o ex-goleiro Walter Zenga, atualmente no comando do Al Nassr, da Arábia Saudita, ou a uma solução caseira, como Giuseppe Baresi ou Luís Figo. Qualquer um destes nomes daria a Moratti tempo para pensar no comandante para a próxima temporada, sem esconder que seu maior sonho é Pep Guardiola, cujo contrato com o Barcelona termina em junho.

Independentemente de quem for o treinador, a Inter tem de pensar que a temporada é longa e ainda dá hipóteses de recuperação. Mas é necessário fazer os ajustes no elenco para janeiro. Um zagueiro para suprir a ausência de Samuel é indispensável, razão pela qual seguem as conversas com o Genoa para a compra integral de Ranocchia, jogador que já é de co-propriedade dos nerazzurri. Os treze pontos de distância para o Milan não são assustadores, considerando os dois jogos a menos na tabela. Basta trabalhar direito.

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Equipe Trivela

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