Itália

Itália valoriza o ídolo e Buffon irá trabalhar na seleção italiana

Após anunciar aposentadoria, Buffon, recordista de jogos pela Azzurra, assumirá cargo junto à comissão técnica de Roberto Mancini

Valorizar a história é sempre importante e quando é possível combinar a preparação com a experiência em campo, esse é o melhor dos mundos. A FIGC, Federação Italiana de Futebol, convidou o recém-aposentado Gianluigi Buffon, de 45 anos, para assumir o cargo de chefe de delegação na seleção italiana. É muito significativo, porque Buffon é o recordista de jogos com a camisa Azzurra e, além disso, ele substituirá no cargo Gianluca Vialli, que morreu em janeiro neste ano.

Buffon teve uma carreira muito laureada. Do seu início no Parma até se tornar uma lenda da Juventus, com uma rápida passagem pelo PSG já no fim da carreira antes de retornos à própria Juventus e ao Parma, onde ficou até a temporada passada. O goleiro anunciou a aposentaria nesta semana, mas a mudança de função já estava alinhada há algum tempo.

O que Buffon fará na seleção italiana?

Gianluigi Buffon com a taça da Copa do Mundo, em 2006 (Icon Sport)

Como Chefe de Delegação, Buffon é o ponto de referência para os jogadores, especialmente os mais jovens no elenco. A pessoa nessa função é a guardiã da identidade, dos valores e da história da seleção. Eles ajudam o técnico em gerenciar o grupo fora de campo e é um exemplo para todo mundo. Ele é um representante do time e da federação, na ausência do presidente da entidade, em diversas ocasiões. É a autoridade máxima abaixo do presidente, o que significa que é ele quem chefia a delegação em grande parte dos jogos.

O cargo é como um diretor de futebol de clubes, que precisa estar entre o elenco, comissão técnica e direção, fazendo essa ligação e mantendo a harmonia. É preciso ter uma boa relação com o técnico, saber as demandas, tudo para antecipar quaisquer eventuais problemas em prol do grupo e, claro, de tentar dar as melhores condições possíveis aos jogadores e à comissão técnica.

Buffon tem um bom exemplo para seguir, já que era muito próximo de Gigi Riva, que exerceu essa função em grande parte da carreira de Buffon na seleção italiana. Como Buffon foi, durante grande parte do tempo, um líder e capitão da equipe, ele tinha contato próximo tanto com os técnicos quanto com o chefe de delegação.

Buffon na seleção italiana: um retorno para casa

“É um grande dia para a seleção italiana porque Gigi está vindo para casa. Buffon é um ícone do nosso futebol e uma pessoa especial. Sua paixão, seu carisma e seu profissionalismo serão decisivos em escrever uma empolgante página desta história extraordinária de amor que é a camisa da Azzurra”, afirmou o presidente da FIGC, Gabriele Gravina.

“Estou pessoalmente muito satisfeito porque trazer de volta para o Club Italia (Federação Italiana), envolvê-lo no nosso projeto, tem sido um objetivo para mim há algum tempo. Eu vejo nele as qualidades de um gestor de alto perfil e na FIGC ele pode começar a segunda metade da sua vida no mundo do futebol. Eu desejo que ele experimente isso com as mesmas satisfações que marcaram a sua carreira dentro de campo”, continuou o dirigente.

“Voltarei para a seleção porque aquele garoto que entrou em Coverciano (Centro de Treinamento da Azzurra) pela primeira vez 30 anos atrás ainda quer sonhar e viver esse sonho junto com os torcedores italianos”, afirmou Buffon.

“Desde o primeiro contato nos anos recentes com o presidente Gravina e com Mauro Vladovich (secretário da seleção italiana), já havia dito que sim, mas tínhamos que checar alguns aspectos técnicos; a seleção vem primeiro e nada iria me impedir de voltar para casa. A camisa da Azzurra sempre foi uma parte da minha vida. Eu vesti com muito orgulho e honrei com comprometimento, me deu emoções únicas, chorei quando ganhamos a Copa do Mundo e quando não nos classificamos para a Copa”, continuou Buffon.

Buffon veste uniforme azul em 2017, pelas Eliminatórias da Copa (Icon Sport)

“Eu tive o privilégio de ser o único goleiro em 113 anos a poder vestir Azzurro, além dos outros uniformes de goleiro, e foi um gesto que eu apreciei muito. Desde o meu começo até o fim, cada convocação, cada treinamento, cada partida, tudo foi especial. É porque nesses momentos você sente que está lá para representar o seu país e suas pessoas e aquela imensa responsabilidade sempre me deu força para nunca desistir e me recuperar depois de cada queda”, disse ainda Buffon.

“Me coloco imediatamente à disposição de Roberto Mancini e do grupo. Quando se trata de seleção, sempre pensei que não se trata das medalhas no seu peito que contam, mas sim seu comprometimento, sacrifício e a forma como você fica disponível para seus companheiros e funcionários. Sempre tive essas características e elas irão permanecer comigo fora de campo também”.

“Estar nessa função que já foi ocupada por Gigi Riva, um exemplo para se olhar como homem e como jogador, é uma honra, e ele será a primeira pessoa que eu falarei hoje para ouvir algumas sugestões. Então, é claro, falarei com o técnico, com quem irei me encontrar o mais rápido possível. Talvez ele tenha marcado os melhores gols da sua carreira contra mim (pela Lazio contra o Parma, em 17 de janeiro de 1999), mas eu já o perdoei”, brincou Buffon sobre o técnico da seleção italiana, Roberto Mancini, um atacante do mais alto nível.

“Hoje eu quero mencionar Davidetrês pessoas que acredito que estariam felizes com esta decisão: Gianluca (Vialli), meu predecessor nesta função; Davide (Astori, ex-zagueiro), que passou muitos anos comigo e com Daniele na seleção; e Spazzolino, uma grande pessoa que foi uma das primeiras boas-vindas a mim a Coverciano”, concluiu Gigi Buffon.

Buffon na seleção italiana:

  • 214 convocações
  • 176 jogos disputados (recorde)
  • 172 jogos como titular
  • 4 jogos vindo do banco
  • 85 vitórias
  • 56 empates
  • 35 derrotas
  • 80 jogos como capitão

Buffon e Azzurra: Uma história longa

A primeira vez que Gianluigi Buffon esteve na seleção italiana foi na temporada 1992/93. Ele ainda era um jovem e fez parte da seleção sub-21 na época. O ex-zagueiro Cesare Maldini (pai do também lendário Paolo Maldini) foi quem promoveu a estreia de Buffon na seleção sub-21, ainda aos 17 anos. Seria só o primeiro passo de uma carreira de enorme sucesso.

Buffon jogou em diversas categorias de base na Itália antes de estrear na seleção principal em 29 de outubro de 1997. Dali em diante, construiu uma história magnífica com 176 jogos, recordista de partida pela Azzurra, cinco Copas do Mundo disputadas e o título da Copa do Mundo de 2006 sendo titular.

Depois da desclassificação nas Eliminatórias da Copa em 2017, que deixou a Itália fora de uma Copa do Mundo, Buffon decidiu que iria se aposentar. O jogo de despedida aconteceu já em 2018. Continuou jogando por clubes até este ano, 2023, quando decidiu que era hora de parar — mesmo com propostas para continuar, inclusive uma bem lucrativa da Arábia Saudita, nova bolha financeira do futebol mundial. Gigi, educadamente, declinou. Achou que era mesmo hora de parar.

Na nova função, Buffon tentará ajudar Mancini a levar a Itália novamente à Eurocopa e defender o título conquistado em 2021. O objetivo de voltar à Copa, em 2026, também é crucial para uma seleção que ficou fora das duas últimas Copas.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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