Futebol italiano

‘Verdade que ninguém quer dizer’: Balotelli aponta dificuldades do futebol italiano e impacto na seleção

Atacante foi um dos principais nomes da sua geração no futebol italiano, mas destacou dificuldades que levaram o país a crise histórica no futebol

Aos 36 anos, Mario Balotelli se encaminha para a reta final da sua carreira no futebol. Um dos principais nomes da sua geração, o atacante — que hoje defende o Al Ittifaq, dos Emirados Árabes Unidos — passou a refletir sobre a sua trajetória, além das dificuldades atuais do futebol italiano e do desaparecimento da cultura do futebol de rua.

— Os problemas, na minha opinião, são muito simples. Quando éramos crianças, jogávamos futebol por horas. Lembro-me de minha mãe ficar brava comigo porque eu ficava na rua até escurecer demais para enxergar a bola. Agora, quando ando por cidades como Brescia, embora veja isso em outras cidades italianas também, os parques estão vazios. Não há ninguém por perto — afirmou em entrevista ao “The Guardian”.

Para Balotelli, um dos grandes impactos está relacionado ao acesso à tecnologia, que acabou afastando as crianças de locais onde pudessem desenvolver habilidades e incentivar as práticas esportivas.

— Computadores, celulares e PlayStations arruinaram muita coisa. Acima de tudo, a mentalidade dos pais mudou. Uma criança de sete anos hoje em dia pode jogar futebol por duas horas a cada três dias. Nós tínhamos os mesmos treinos estruturados, mais três horas de brincadeiras no parque todos os dias, o que parecia divertido, mas na verdade era treino extra — declarou.

Mario Balotelli pela seleção italiana durante Eurocopa de 2012 (Foto: IMAGO / ANP)
Mario Balotelli pela seleção italiana durante Eurocopa de 2012 (Foto: IMAGO / ANP)

O jogador explicou os problemas que acredita que fizeram com que a Azzura enfrentasse uma crise histórica ao ficar de fora da sua terceira Copa do Mundo consecutiva, destacando as dificuldades mais profundas que afetaram o esporte no país, especialmente quando se trata da nova geração.

— Eu realmente acredito que os talentos nascem nas ruas e nos parques. Você jogava muito, aprendia muito e se testava contra crianças mais velhas. Se você fosse bom, eles não deixavam você jogar com crianças da sua idade; faziam você jogar com as mais velhas. Esses testes me serviram muito bem a longo prazo — ressaltou.

— Hoje em dia, as crianças estão sempre nos seus celulares. Elas se sentem como o Ronaldinho porque assistem aos vídeos dele. Eu me sentia como o Ronaldo porque eu conseguia fazer os mesmos dribles no parque. É muito diferente — comparou.

Balotelli acredita que recuperação da Azzurra ainda não deve ser imediata

Apesar das décadas difíceis do futebol italiano, o atacante afirmou que acredita na recuperação da seleção, mas reforçou que não acredita que os bons resultados serão colhidos de forma imediata, mas sim nas próximas gerações.

— Sim, acredito que sim para as próximas gerações. Talvez não imediatamente, mas nas próximas duas ou três gerações. É normal um país passar por períodos de baixa, mas depois se recuperar. Espanha, França e Alemanha já passaram por isso — pontuou.

Balotelli também destacou a chegada de Roberto Mancini como novo técnico da Azzurra. Reconduzido ao cargo de treinador da equipe nacional, o italiano serviu de mentor para o atacante ao lançá-lo na Internazionale quando o jogador tinha apenas 17 anos, mas também durante as passagens pelo Manchester City e pela seleção, construindo uma parceria importante nos anos de maior sucesso do atacante.

Mario Balotelli e Roberto Mancini no Manchester City (Foto: IMAGO / Gribaudi/ImagePhoto)
Mario Balotelli e Roberto Mancini no Manchester City (Foto: IMAGO / Gribaudi/ImagePhoto)

A última vez que Balotelli jogou pela Itália foi em 7 de setembro de 2018, contra a Polônia, em Bolonha. Essa partida também coincidiu com o primeiro jogo oficial de Mancini em sua primeira passagem pelo comando da seleção.

— Estou muito feliz por ele estar de volta à seleção; gosto muito dele e desejo-lhe tudo de bom. Na Itália, as pessoas tendem a culpar muito os treinadores, mas, honestamente, o sistema deveria assumir mais culpa. É a verdade que ninguém quer dizer — declarou.

Passagem pela Inglaterra, idolatria no City e despedida da carreira

A passagem de Balotelli pela Inglaterra continua sendo um capítulo marcante em uma carreira repleta de altos e baixos, especialmente durante os três anos em que defendeu o Manchester City, quando conquistou a Premier League e a FA Cup sob o comando de Mancini.

— É uma das melhores lembranças da minha carreira. Naquela época, o City não era tão renomado quanto é hoje. Nós nos juntamos ao time que deu os primeiros passos para o City se tornar o que é hoje. Isso te dá uma sensação especial. Significa muito mais, na verdade — relembrou.

Ainda durante a entrevista ao “The Guardian” Balotelli falou sobre a reta final da carreira e os planos para a aposentadoria, mas também destacou um conselho que, se pudesse, teria dado a si mesmo aos 16 anos: “Eu diria para ele não tomar certas decisões e para ouvir certas pessoas em momentos específicos”.

— Dentro de campo, quero jogar enquanto me sentir bem. Jogar é o que eu amo fazer, então, enquanto meu corpo não disser ‘chega', continuarei jogando. Fora de campo, quando terminar minha carreira, definitivamente quero administrar meus negócios e me dedicar aos meus filhos. Mas prefiro tranquilidade. Tive uma carreira muito agitada, então um estilo de vida mais sedentário não seria uma má ideia — finalizou.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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