Itália

A cura Prandelli

Francesco Totti, 34 anos, e Alessandro Del Piero, 36, foram os destaques da última rodada da Serie A. Totti, revigorado após a chegada do amigo Vincenzo Montella, a quem trata pelo primeiro nome apesar da hierarquia, marcou os dois gols da Roma no empate com a Fiorentina. Alcançou uma marca histórica, chegando a 201 tentos pela Serie A. É o sexto maior artilheiro da competição (o maior em atividade), e está a quatro gols de igualar Roberto Baggio, o quinto na lista liderada por Piola (274), Nordahl (225), Meazza e Altafini (216).

Del Piero, com sua classe eterna, tirou a Juventus do sufoco para garantir a suada vitória por 2 a 1 sobre o Brescia. Carregou a bola com o pé direito em direção à área adversária, livrou-se da marcação e rapidamente ajeitou o corpo para finalizar de esquerda, no canto, sem chances para o goleiro. Um gol “à Del Piero”, o 281º pela Juventus, o 182º na Serie A. Única nota positiva de um time que apenas se arrasta rumo ao fim da temporada.

É saboroso para quem aprecia o bom futebol ver duas bandeiras como Totti e Del Piero em atividade. Ao mesmo tempo, é duro saber que são espécies de jogadores que o futebol italiano não consegue mais produzir. Pior ainda: não se sabe se os futuros Tottis e Del Pieros simplesmente não existem, ou se estão em circulação e não há coragem para apostar neles.

Olhar para o futuro, sem a tentação imediatista de espremer o que resta dos últimos craques, tem sido a principal filosofia de trabalho de Cesare Prandelli à frente da seleção italiana. Ao iniciar os trabalhos para o jogo de sexta-feira contra a Eslovênia, pelas Eliminatórias da Euro 2012, o treinador admitiu que pensaria diferente caso o jogo em questão fosse o último da caminhada, decisivo para a classificação.

“Teria chamado não apenas Totti e Del Piero, mas também Di Natale e Di Vaio”, declarou, referindo-se a outros veteranos que ainda brilham nos campos da Serie A. Um campeonato emocionante, com quatro times disputando o título, mas símbolo de um futebol decadente, que dá vexame na Copa do Mundo de 2010 e vê quase todos os clubes naufragarem prematuramente nas competições europeias, causando a perda de uma vaga para a Liga dos Campeões.

O comentário veio acompanhado de um sinal de alerta. Apenas cinco dos 25 convocados jogam nos três primeiros colocados da liga: Maggio, Thiago Motta, Pazzini, Ranocchia e Cassano. Estes três últimos só chegaram aos clubes atuais em janeiro. A seleção sub-21 dirigida por Ciro Ferrara é um amontoado de jogadores da Serie B. Aqueles que pertencem a times da Serie A, salvo raras exceções, ainda não se aproximaram minimamente de uma chance de atuar.

Apenas olhar para a situação e lamentar não adianta: são necessárias medidas firmes e imediatas. Na última semana, surgiu a ideia de se criar uma seleção sub-21 permanente, que disputaria um dos campeonatos profissionais (segunda ou terceira divisão) para manter estes jogadores em atividade constante. Há uma série de empecilhos para que o plano se concretize – quem aceitaria ceder seus jogadores para o “Clube Itália”? -, mas é importante mostrar que as soluções estão sendo avaliadas e ponderadas.

As mudanças de postura raramente dão resultado quando não são acompanhadas por uma mudança de mentalidade. Prandelli, personagem reconhecido no futebol italiano por suas qualidades humanas, vem tentando transmitir esta mensagem ao impor um código de ética rígido, que desta vez causou a ausência de Daniele De Rossi e Mario Balotelli da lista de convocados. Ambos se envolveram em casos de conduta violenta atuando pelos seus clubes nas últimas semanas, em jogos de competições europeias. A punição vale por apenas um jogo, e eles podem voltar na próxima semana, quando a Azzurra faz amistoso com a Ucrânia em Kiev.

Balotelli segue caminhando na tênue linha que divide o grande jogador em potencial e a eterna promessa que se perdeu pela falta de cabeça. Mimado por seu entorno de falsos amigos, entre eles o empresário Mino Raiola, que tem olhos apenas para os cifrões da próxima transferência (Milan?), Mario teria pedido ajuda a Prandelli em uma conversa telefônica na segunda-feira, de acordo com o técnico. Ele tinha tudo para ser uma referência deste projeto baseado em jovens e em uma Itália multiétnica, que neste ano celebra um século e meio de unificação, mas corre o risco de colocar tudo a perder com seu temperamento.

A postura firme de Prandelli, que corre o risco de sacrificar o resultado (De Rossi deve ser uma ausência sentida em campo), tem dividido opiniões. Capitão da equipe, Buffon não criticou diretamente a decisão do técnico, mas afirma que não estava presente quando o código de ética foi criado (recuperava-se de cirurgia) e que não sabe se faria o mesmo. Atitude corporativista, de defesa dos companheiros. Como se a culpa fosse de quem puniu e não de quem sofreu a punição.

Dentro de campo, a Itália de Prandelli busca um futebol mais propositivo, com posse de bola e criatividade – o que nem sempre é possível, pela falta de nomes interessantes em posições cruciais, como meias de ligação. De qualquer maneira, ficou boa impressão do empate por 1 a 1 com a Alemanha, em fevereiro.

No fim das contas, é difícil dissociar o julgamento de um trabalho de seu resultado final. Prandelli conduz a Azzurra do seu jeito, com ideias novas, coragem e valores. Mas não adianta se ele for o único.

Confira a lista dos convocados para o jogo de sexta contra a Eslovênia e o amistoso da próxima semana contra a Ucrânia:

Goleiros: Gianluigi Buffon (Juventus), Salvatore Sirigu (Palermo) e Emiliano Viviano (Bologna);

Defensores: Davide Astori (Cagliari), Federico Balzaretti (Palermo), Leonardo Bonucci (Juventus), Giorgio Chiellini (Juventus), Domenico Criscito (Genoa), Daniele Gastaldello (Sampdoria), Christian Maggio (Napoli), Andrea Ranocchia (Internazionale) e Davide Santon (Cesena);

Meio-campistas: Alberto Aquilani (Juventus), Claudio Marchisio (Juventus), Stefano Mauri (Lazio), Riccardo Montolivo (Fiorentina), Thiago Motta (Internazionale), Antonio Nocerino (Palermo) e Marco Parolo (Cesena);

Atacantes: Antonio Cassano (Milan), Alberto Gilardino (Fiorentina), Sebastian Giovinco (Parma), Alessandro Matri (Juventus), Giampaolo Pazzini (Internazionale) e Giuseppe Rossi (Villarreal/ESP).

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Equipe Trivela

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