A carreira de Yaya Touré desde que saiu do Manchester City tem sido tumultuada. Teve uma passagem breve, de apenas cinco jogos e 200 minutos, pelo Olympiacos, após a qual se aposentou. Exceto que não havia se aposentado de verdade, como havia dito seu empresário, e acertou com o Qingdao Huanghai, da segunda divisão chinesa. Deixou o país no começo do ano passado, quando a pandemia de coronavírus começava a tomar forma, e agora parece finalmente pronto para o próximo passo da sua carreira: ser treinador.

Em um texto para o site Coache’s Voice – o Player’s Tribune dos treinadores -, o marfinense de 37 anos deixou uma pequena fresta para voltar aos gramados se aparecer uma chance de ser membro da comissão técnica em paralelo, como seu irmão Kolo Touré fez ao lado de Brendan Rodgers no Celtics. Por enquanto, está concentrado no novo ofício, estudando para tirar as credenciais de professor e ganhando experiência na equipe de Chris Ramsey, no Queens Park Rangers, da segunda divisão inglesa.

Touré não pensava em ser treinador quando ainda estava na ativa. Mas, quando quando começou a dar séria atenção à ideia, percebeu que sempre pensou como um. Como não tem experiência prática ainda, o seu texto se concentrou em um interessante histórico tático dos seus tempos de jogador. Desde que era treinado, ainda adolescente, por Jean-Marc Guillou, ex-jogador que colaborou na formação de alguns dos principais jogadores marfinenses e tinha contato próximo com Arsène Wenger.

Foi na Academia Mimosa com Guillou que Touré aprendeu a diferença entre ser um jogador amador e profissional. Foi orientado a jogar em diversas posições. Isso lhe deu um bom conhecimento tático e acabou sendo bastante útil porque foi descobrir seu melhor posicionamento em campo apenas no Manchester City, como um meia “área-a-área” ou camisa 10, como coloca no relato.

“Eu sabia que era incrível estar jogando na Europa. Sair das ruas de Abidjan para o futebol europeu era inacreditável. Não são muitos que conseguem isso, mas, quando cheguei, não sabia em que posição jogar, e o tamanho dos jogadores adversários me assustava. Havia quatro de nós que havíamos chegado da Costa do Marfim e não sabíamos se conseguiríamos competir contra aqueles homens”, contou.

“Mas, quando subimos ao gramado, relaxamos. Éramos mais acostumados com a bola do que eles. Sabíamos sair jogando do campo de defesa, conseguíamos receber a bola sob pressão – e porque entendíamos o que era pedido de nós e havíamos jogado em diversas posições, nós nos tornamos líderes em campo. Usávamos nossos cérebros mais do que os jogadores que já estavam lá e isso nos ajudou bastante”.

“Foi a mesma coisa quando cheguei à Inglaterra. Todos me diziam o quão fortes, quão altos, quão físicos eram os jogadores, mas minha experiência na Bélgica me ajudou. Era difícil no começo, mas me acostumei rapidamente com o futebol inglês. Foi apenas no City que eu descobri minha melhor posição”.

“Eu havia jogado em todo lugar, até de zagueiro pelo Barcelona quando ganhamos a final da Champions League em 2009. Mas, no City, jogando de área a área ou como camisa 10, eu encontrei a posição em que fui melhor. Foi com Manuel Pellegrini que eu recebi mais responsabilidade. Quando ele chegou, me disse imediatamente que me via como um líder. Vincent Kompany seria o capitão, mas, quando ele não estivesse, eu seria o capitão”.

“Ele via seus meias centrais como os jogadores mais importantes em campo e disse que eu podia me movimentar livremente para participar do jogo porque Fernandinho me cobriria. Ele me motivou, me deu mais responsabilidade. Ele disse que não queria ver muitos passes. Ele queria que nós carregássemos a bola e atacássemos o gol”, completou.

Touré conversava sobre tática com seus treinadores, mas achava que estava apenas pensando sobre o seu jogo de uma maneira mais profunda.

“Eu não percebia que estava pensando como treinador. Sempre pensei daquela maneira. Era natural para mim. Nos times do Manchester City em que joguei e fui campeão, em campo, estávamos sempre buscando maneiras de melhorar. David Silva e eu conversávamos constantemente. Samir Nasri também. Se não estávamos achando um caminho até Sergio Agüero, tomávamos decisões para mudar as coisas. ‘Não está funcionando. Vamos mudar de posição e ver se funciona’. Claro que eu tive grandes técnicos no City. Roberto Mancini, Manuel Pellegrini e Pep Guardiola. Eles davam ao time uma plataforma e estrutura, mas a comunicação entre jogadores é muito importante. Você precisa de comunicação em campo. Descobrimos que tornávamos uns aos outros melhores porque entendíamos muito bem o que estávamos fazendo”, afirmou.

“Foi a mesma coisa com meus parceiros de meio-campo. Fosse Javi García, Gareth Barry e Fernandinho. Nós sabíamos que tínhamos que ajudar a tornar o trabalho do outro mais fácil com equilíbrio no meio-campo. Eu sempre fui o mais ofensivo, e eu sabia que poderia melhorar meu parceiro de meio-campo se não perdesse a bola facilmente, assim como ele sabia que poderia me ajudar se recuperasse a bola o mais rápido possível. Eu ajudava o volante atrasando a jogada do oponente quando conseguia, e parando passes no meio-campo, e ele me ajudava antecipando os passes que passavam por mim”.

“Depois, quando Kevin de Bruyne chegou ao City, nós simplesmente tentávamos agradá-lo. ‘Como você quer a bola? Quer receber passes no meio ou prefere pelos lados?’. Ele me dava informações e eu usava as informações para torná-lo melhor”, explicou.

“A pandemia de coronavírus dificultou as coisas de muitas maneiras – foi por isso que eu sai do Qingdao Huanghai na China no começo de 2020 -, mas me deu a oportunidade de aprender. Eu aproveitei a chance para começar a tirar minhas credenciais e pensar no próximo capítulo. Tenho que ser honesto. É difícil abandonar completamente o futebol. Talvez minhas pernas aguentem mais um ano. Mas eu comecei a perceber o quão bom é ser treinador. Ajudar os jogadores a se desenvolverem é o que me inspira a ser treinador. Levar os jogadores ao topo dos seus potenciais. Os melhores treinadores são os que conseguem fazer isso”, encerrou.

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