Futebol inglês

Por que o Chelsea de Xabi Alonso é um festival de gols pró e contra?

Time londrino encontrou enorme poder ofensivo, mas convive com falhas que deixam adversários sempre vivos

O Chelsea de Xabi Alonso começou a temporada em ritmo acelerado, mas não somente pela quantidade de vitórias ou pela velocidade com que assimilou as ideias do novo treinador. Depois de seis partidas, há um número que chama atenção e ajuda a explicar a sensação deixada pela equipe: são 18 gols marcados e 12 sofridos.

A média de três gols feitos por jogo convive com dois gols tomados a cada partida. É um retrato de um time que produz muito, mas também concede demais.

O cenário levanta uma questão importante: esse desequilíbrio faz parte do futebol de Alonso ou é consequência dos problemas específicos que ele ainda tenta resolver no Chelsea? A resposta passa pelo que o espanhol construiu no Bayer Leverkusen, onde a solidez defensiva foi um dos pilares da histórica temporada 2023/24, mas também pelo período mais turbulento no Real Madrid, em que a tentativa de pressionar mais alto deixou espaços para os adversários explorarem.

Nos Blues, as duas faces aparecem simultaneamente. O time encontrou rapidamente caminhos para machucar os rivais, especialmente pela qualidade individual e pelo encaixe entre Cole Palmer, Morgan Rogers e João Pedro. Do outro lado, ainda existe uma equipe que não consegue controlar as partidas com a mesma eficiência e que oferece ao adversário oportunidades em transições, pelos lados e até em situações aparentemente controladas.

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Ataque de Xabi Alonso no Chelsea encontrou respostas rapidamente

Palmer, Rogers e João Pedro celebram gol do Chelsea
Palmer, Rogers e João Pedro celebram gol do Chelsea (Foto: Mark Pain / IMAGO)

A principal explicação para os 18 gols marcados está na maneira como o Chelsea conseguiu assimilar os conceitos ofensivos de Xabi Alonso. O treinador não precisou de uma longa adaptação para fazer o setor mais talentoso da equipe funcionar. Palmer, Rogers e João Pedro passaram a formar uma engrenagem capaz de combinar mobilidade, aceleração e capacidade de decidir as jogadas, criando um volume ofensivo que transforma praticamente qualquer sequência de ataques em ameaça.

A ideia também recupera conceitos já vistos no Bayer Leverkusen. Alonso gosta de abrir o campo com seus alas, deixando jogadores como Pedro Neto e Jorrel Hato em posições abertas e agressivas. A intenção não é apenas criar uma opção de passe pela lateral: ao esticar a estrutura adversária, o time londrino abre corredores por dentro para que os meias ataquem as entrelinhas e apareçam em zonas próximas da área.

A fluidez da construção ofensiva ganha ainda mais sustentação pela dinamicidade das trocas de posição no terço final. Com uma circulação de bola rápida e vertical, os homens de frente alternam momentos de aproximação para gerar linhas de passe curtas com infiltrações agressivas na última linha defensiva. Essa imprevisibilidade desestabiliza a marcação adversária, dificultando qualquer tentativa de encaixe individual.

O problema é que a agressividade ofensiva ainda não vem acompanhada de um controle equivalente quando a posse muda de lado.

O Chelsea ataca com muitos jogadores, acelera as jogadas e mantém o campo aberto, mas nem sempre consegue reagir à perda da bola com a mesma organização. É aí que os 12 gols sofridos deixam de parecer só uma estatística inflada pelo começo de trabalho e passam a apontar para uma questão estrutural.

Por que a defesa não acompanha o ataque?

Levi Colwill leva camisa ao rosto durante jogo do Chelsea
Levi Colwill leva camisa ao rosto durante jogo do Chelsea (Foto: Sportimage / IMAGO)

Nos quatro primeiros jogos de Premier League, o Chelsea não encontrou uma formação ou uma combinação que transmitisse segurança. A pressão ao portador da bola — já no campo dos Blues — acontece de maneira inconsistente, a proteção à frente da defesa não é suficiente e os adversários têm encontrado caminhos para atacar principalmente em transições e pelos lados.

O resultado é uma equipe que pode estar controlando uma partida e, poucos segundos depois, conceder uma situação perigosa.

A ausência de Moisés Caicedo pesa nesse contexto. O equatoriano é um dos pilares do time justamente por oferecer capacidade para proteger a defesa e sustentar a estrutura quando os demais jogadores avançam. Sem ele, Xabi Alonso ainda não encontrou uma solução que entregue as mesmas garantias.

Reece James tem sido utilizado por dentro, embora seja lateral-direito de origem, enquanto Malo Gusto também aparece como alternativa para uma função que não foi aquela para a qual sua carreira no clube foi inicialmente construída.

Há outras possibilidades, mas todas carregam algum tipo de interrogação. Valentín Barco oferece talento, embora ainda exista uma diferença entre enxergar seu potencial e entregar a ele uma responsabilidade maior em partidas de Premier League. Roméo Lavia tem características para exercer a função, mas os problemas físicos limitaram sua sequência desde a chegada ao Chelsea.

Jordan Henderson seria uma opção mais experiente, porém ainda se recupera de lesão e nem sequer estreou, além de ter 36 anos e não poder ser encarado como resposta permanente para todos os problemas do setor.

O próprio Alonso reconheceu que existe trabalho a fazer. Depois do empate por 2 a 2 com o Hull City, ele destacou a necessidade de o time permanecer mais compacto mesmo quando estiver em vantagem e ser mais intenso nas situações defensivas. O treinador também alertou que qualquer time da elite inglesa pode punir uma displicência. No lance do primeiro gol, segundo sua avaliação, um lançamento longo, com dois quiques, foi suficiente para expor e castigar sua equipe.

A insegurança também chega à meta. Dibu Martínez ainda não apresentou um início convincente como substituto de Robert Sánchez, aumentando o peso sobre uma defesa que já sofre com problemas de posicionamento.

Quando a estrutura à frente não protege adequadamente e o goleiro também não transmite plena segurança, cada transição adversária passa a carregar um risco maior. Assim, o Chelsea acaba transformando partidas que poderiam ser controladas em jogos de troca constante de golpes.

Xabi Alonso: entre a solidez de Leverkusen e os problemas vistos em Madrid

Xabi Alonso na área técnica durante jogo do Chelsea em Stamford Bridge
Xabi Alonso na área técnica durante jogo do Chelsea em Stamford Bridge (Foto: Paul Terry / Sportimage / IMAGO)

A comparação com o Bayer Leverkusen é particularmente importante porque desmonta a ideia de que Xabi Alonso necessariamente constrói equipes destinadas a marcar muitos gols e sofrer na mesma proporção. Na temporada 2023/24, a defesa foi uma das bases do trabalho do espanhol. O time sofreu apenas 24 gols em 34 partidas da Bundesliga, em uma campanha invicta que terminou com o título alemão.

A estrutura ajudava a explicar essa solidez. Alonso utilizava uma base com três zagueiros, normalmente em um 3-4-2-1 ou em uma variação que se transformava em 5-2-3 sem a bola. A formação proporcionava superioridade numérica na proteção da área e, ao mesmo tempo, permitia que os alas fossem agressivos quando o Leverkusen tinha a posse.

Na segunda temporada, o Leverkusen sofreu mais gols na Bundesliga, chegando a 43 em 34 rodadas, mas o número ainda não aponta para um problema defensivo fora de controle. De modo geral, a passagem de Alonso pela Alemanha foi marcada muito mais pela capacidade de estruturar o time sem a bola do que por uma vulnerabilidade permanente. O Chelsea atual, portanto, está distante desse equilíbrio.

O Real Madrid oferece o contraponto. Em uma passagem curta de 34 partidas, a equipe sofreu 38 gols, e a defesa apareceu como um problema recorrente. A tentativa de implementar uma pressão alta mais intensa e recuperar a bola rapidamente no campo ofensivo, conceito que também faz parte da visão de Alonso, em alguns momentos deixou a retaguarda exposta às transições.

Lesões que atingiram nomes importantes, como Militão, Rüdiger, Alaba, Mendy, Carvajal e Trent Alexander-Arnold, também afetaram a estabilidade do setor.

É nesse intervalo entre Leverkusen e Real Madrid que o Chelsea parece estar neste momento. A agressividade ofensiva se aproxima daquilo que Alonso pretende construir, mas a equipe ainda não conseguiu reproduzir a estrutura defensiva que sustentava seu melhor trabalho na Alemanha. Ao mesmo tempo, algumas das vulnerabilidades observadas em Madrid voltam a aparecer quando os Blues perdem a bola e não conseguem recompor.

Por enquanto, o futebol agrada a quem passou boa parte da era Enzo Maresca esperando por um time mais divertido de assistir. Afinal, já são 18 gols anotados com Alonso. Porém, entretenimento não resolve o problema competitivo. Se o Chelsea continuar sofrendo dois gols por partida, será difícil manter a regularidade na Premier League.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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