Inglaterra

Wimbledon: Um time abandonado pela torcida

Quando a diretoria decidiu mudar o clube de lugar com um estádio a mais de 100 km de onde jogava, a torcida abandonou. Conheça a história do Wimbledon, que foi abandonado pela torcida quando se mudou para Milton Keynes e gerou a criação de um novo clube, o AFC Wimbledon

No dia 26 de outubro, o Wimbledon recebeu o Rotherham, em partida válida pela segunda divisão, frente a apenas 849 pagantes, o menor público em toda história da Division One inglesa. Duas semanas depois, novo encontro com o Rotherham, desta vez pela League Cup, e novo recorde: apenas 664 torcedores, o menor número na história do Wimbledon. Mas para onde é que foi a torcida?

Dizem que durante a vida um homem pode abandonar sua terra natal, seus bens, seus amigos e até sua família, mas nunca ele abandona seu time. Essa regra, porém, não valeu para os torcedores do Wimbledon. Furiosos com a decisão da diretoria de construir o novo estádio do clube a mais de 100 quilômetros do atual, os fãs organizaram um boicote, que fez a média de público da equipe cair dramaticamente. Mas não foi só: criaram um novo time, que, mesmo jogando na décima divisão (!!!) tem atraído mais público do que o clube antigo.

Mas para ver como a situação chegou a esse ponto, vamos dar um breve passeio pela história dos ‘Dons’.

O lar do ‘Bando Maluco’

Embora seja um clube pequeno, o Wimbledon tem mais de um século de história. A equipe foi fundada no ano de 1889, no sul de Londres, então com o nome de Wimbledon Old Centrals. Foi só em 1905 que adotou-se o nome atual – Wimbledon Football Club. Em 1912, a equipe inaugurou o pequeno estádio de Plough Lane, que, mesmo com capacidade para apenas 9 mil pessoas, foi a casa do time até o fim dos anos 80.

Os fatos acima resumem tudo o que aconteceu de relevante nos primeiros 75 anos de vida do Wimbledon. Só em 1964 que o clube saiu da obscuridade total e profissionalizou-se, entrando para a Southern League, uma liga regional equivalente na época à quinta divisão. Não demorou muito, e a equipe começou a dominar a liga. Em 1977, após três títulos consecutivos, o Wimbledon finalmente foi admitido na quarta divisão da Football League, a liga nacional inglesa.

Em seus primeiros anos entre os profissionais, o Wimbledon não teve grande impacto, oscilando entre a quarta e a terceira divisão. Mas foi em 1983 que a sorte da equipe mudou. Com o excêntrico Sam Hamann na presidência (para saber mais sobre ele, leia o perfil do Cardiff City) e sob a direção do ex-jogador Dave Bassett, formou-se uma equipe que fez história na Inglaterra: era a ‘Crazy Gang’ (o bando maluco).

Foi a Crazy Gang que colocou o Wimbledon no mapa. Os destaques do time eram Vinnie Jones, John Fashanu e Dennis Wise, jogadores capazes de intimidar até Mike Tyson. Com truculência, incontáveis peripécias fora de campo (sangue de galinha espalhado por vestiários, uniformes pegando fogo, etc.) e também um bom futebol, o time conseguiu a incrível proeza de subir da quarta para a primeira divisão em apenas quatro anos.

Apesar de contar com uma torcida muito pequena, comparada com as dos outros times da elite, o Wimbledon manteve-se na primeira divisão por mais de uma década, chegando a terminar um campeonato em sexto lugar. Em 1988, a equipe conseguiu sua maior glória, vencendo o Liverpool na final da copa da Inglaterra, no que foi considerada uma das maiores zebras da história da competição.

Os Dons começaram a decair em 1997, quando Sam Hamann vendeu a equipe para os empresários noruegueses Bjoern Rune Gjelsten e Kjell Inge Roekke. Três anos mais tarde, a equipe cairia para a segunda divisão, e foi aí que os problemas apareceram.

O estádio da discórdia

Por não ter um estádio nas especificações mínimas da Premier League, o Wimbledon vem jogando a vários anos no estádio Selhurst Park, do Crystal Palace. Devido a isso e à pequena torcida, por mais de uma vez os dirigentes tentaram mudar a equipe de cidade. A tentativa mais famosa aconteceu nos anos 80, quando Sam Hamann pediu permissão para mudar a equipe para Dublin!

Com o rebaixamento em 2000, tornou-se insustentável continuar pagando aluguel para o Palace. A primeira tentativa da diretoria foi construir um estádio no sul de Londres, próximo do atual, mas o conselho regional não deu permissão para a obra. Era tudo o que a diretoria precisava: duas semanas depois, foi anunciado que o novo estádio do Wimbledon ficaria na cidade de Milton Keynes, a mais de 100 quilômetros do atual. Para comparar com o Brasil, é como se a Portuguesa decidisse se mudar para Sorocaba.

A torcida ficou furiosa, mas estava certa que a Football League proibiria a mudança. A justificativa era que a mudança abriria o precedente para um sistema de franquias na Inglaterra, onde os donos poderiam levar suas equipes para onde quisessem, como acontece nos Estados Unidos. Qual não foi a surpresa dos fãs quando, no final de maio, a liga autorizou a construção do novo estádio, permitindo que o Wimbledon fosse o primeiro clube na Inglaterra a mudar de cidade desde 1930.

Apesar dos protestos, a diretoria seguiu com seus planos, afinal, a torcida não poderia fazer nada, além de barulho. Ou será que poderia?

Wimbledon x Wimbledon

Embora derrotada, a associação de torcedores da equipe (Wisa – Wimbledon Independent Supporters Association), não jogou a toalha. Imediatamente criou um fundo de doações junto a seus mais de 3 mil associados, com um propósito: fundar um novo clube, controlado pelos fãs, que refletisse o verdadeiro espírito do Wimbledon.

Em apenas 11 dias, a Wisa conseguiu juntar mais de US$ 100 mil. Com o dinheiro, alugou um pequeno estádio, desenhou uniformes e um novo logotipo e contratou jogadores, comissão técnica e administradores. Estava formado o AFC Wimbledon.

A diretoria da nova equipe moveu-se rápido e em questão de dias conseguiu patrocínio (Sports Interactive) e registro junto à Combined Counties League, uma liga local que equivale à décima divisão. Um mês após sua criação, o AFC já jogava sua primeira partida oficial.

A iniciativa da torcida pegou a diretoria do Wimbledon ‘antigo’ de surpresa. A grande maioria dos fãs parece preferir ver o AFC enfrentar ‘gigantes’ como Walton Casuals ou Farnham Town do que assistir a seu ex-time, que está prestes a se mudar. Prova disso é que o AFC mantém média de público superior a 3 mil pagantes, contra menos de 2 mil do Wimbledon FC. A situação chegou a tal ponto que a diretoria está planejando mudar-se já em janeiro para Milton Keynes e jogar em um estádio improvisado (o novo ficará pronto só em 2004), para tentar aumentar um pouco sua média de público. Se as coisas continuarem como estão, a falência é uma possibilidade concreta.

Enquanto isso, o AFC vai dando sinais de um futuro promissor. Até o fim de novembro, a equipe ocupava a segunda colocação em sua liga, o que lhe daria passagem para a Ryman League Division Three, ou seja, a nona divisão. Ainda há um longo e improvável caminho a se percorrer, mas quem sabe um dia veremos uma vitória do AFC Wimbledon sobre o Wimbledon FC em um clássico do sul londrino. Seria um presente merecido para a paixão e a tenacidade dos torcedores da equipe.

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Equipe Trivela

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