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Virada insana dos Saints sobre Liverpool mostra o melhor e o pior da Premier League

Assistir à Premier League, especialmente nesta temporada, tem sido um grande programa. Os jogos, que têm muitos grandes jogadores nos ricos times ingleses, ainda trazem um caráter bastante particular em relação às outras grandes ligas: os jogos são insanamente corridos até o final, em um ritmo que poucos times no continente parecem aderir. A Premier League corre a 200 km/h, enquanto outras ligas variam entre o moderado 50 km/h à velocidade de 150 km/h. Só que isso tem seu lado bom e outro ruim. A virada absolutamente incrível do Southampton sobre o Liverpool, neste domingo, por 3 a 2, é uma demonstração de como isso tem lados muito bons, mas outros muito ruins para os times locais.

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A intensidade dos jogos e o jogo aberto e corrido dos dois times em cada jogo parece um pacto entre os 20 times da Premier League. Não importa se estamos falando de Southampton ou de Manchester United, de Leicester ou Watford, o que vemos é uma intensidade tão grande que faz com que a maioria dos jogos se torne um grande programa. Exceto para aqueles que torcem pelos times envolvidos. Foi o caso dos torcedores do Liverpool neste domingo, como já foi também a favor do time em outras oportunidades.

Isso tudo, porém, é um problema se pensarmos em termos de confrontos internacionais. A tese não é minha. Rafael Oliveira, comentarista dos canais ESPN, escreveu este ótimo texto no site da Editora Grande Área. O que faz um campeonato melhor? Os times espanhóis jogam de muito mais jeitos do que os ingleses, que atuam de maneira muito mais simples. Isso é bom ou ruim? Difícil medir, porque tem a ver com o gosto. Mas há aspectos para discussão aí.

Todo mundo gosta de um jogo maluco quando se assista apenas como expectador. Para quem torce para os times envolvidos, porém, é um convite à taquicardia e aos problemas no coração. Um empate por 4 a 4 é emocionante, claro, mas também é uma dor de cabeça enorme para os técnicos. Não há um placar assim sem falhas nas defesas. Ou melhor: é possível, mas é improvável, ao menos no futebol de alto nível.

O que se viu no estádio Saint Mary’s neste domingo foi uma vitória fantástica do Southampton sobre o Liverpool. Um 3 a 2 daqueles épicos, que provavelmente os torcedores dos Saints irão recordar por muito tempo. Saíram perdendo por 2 a 0 no primeiro tempo e poderia ter sido três, não fosse por um gol bem anulado pela arbitragem. Os gols de Philippe Coutinho e de Daniel Sturridge abriram vantagem, só que mais do que isso, o jogo parecia estar totalmente no controle do Liverpool.

Só que não estava. O jogo aberto, de correria para os dois lados, de ataques trocados a todo momento, continuava permitindo criação de muitas chances. O segundo tempo construiu uma outra história. A começar pelo pênalti que surgiu logo nos primeiros minutos, mas Mané perdeu. Estava tudo encaminhado para dar certo para os Reds. Só que o gol de Mané sairia, ainda que não fosse de pênalti, por uma falha do lateral direito Flanagan. Ainda assim, o jogo de muitos ataques parecia permitir uma vitória vermelha. Benteke, que entrou no segundo tempo, teve a chance de ampliar o placar para 3 a 1. E perdeu.

O jogo de troca de ataques continuava, em ritmo muito forte. O Liverpool de Jürgen Klopp é mais organizado que o de Brendan Rodgers, é mais agressivo, mas também é um time que troca muitos ataques com o adversário. E isso acabou cobrando o seu preço. Em um desses ataques em velocidade, que pegou a defesa do time visitante procurando a bola e desencaixada na marcação, Graziano Pellè teve espaço para finalizar da entrada da área e empatar. Um resultado que àquela altura já parecia enorme para os Saints.

O gol de Sadio Mané, no final do jogo, para definir a virada em 3 a 2 foi ainda mais inacreditável. Mostrou de novo um jogo muito bom em termos de entretenimento. Muito problemático em termos de times competitivos. Assim como os jogos que acabam 5 a 4 são emocionantes e divertidos para quem assiste, são insanamente perigosos para quem joga. Em termos de competitividade, ainda mais em uma liga, a constância desse tipo de jogo tende a ter resultados que irão variar a favor e contra o seu time.

O Southampton saiu de campo comemorando. Uma vitória de fato inesquecível para seus torcedores. O Liverpool sai lamentando de um jogo que ele permitiu. No MMA, se fala muito em “trocação” quando os dois adversários se permitem ataques mutuamente. Há times que jogam melhor assim. Em geral, não são os times campeões. Talvez sirva para levar a títulos em Copas, em torneios eliminatórios. Mesmo assim, nas competições europeias os ingleses não conseguem ir muito longe, mesmo com elencos caros, times cheios de estrelas e adversários muitas vezes piores – basta ver o caso do Manchester United na Champions League desta temporada e o Liverpool na temporada anterior.

A Premier League é um grande programa para entretenimento. Nesta temporada, então, mostra uma competitividade incrível, por diversas razões. Internacionalmente, os times continuam sofrendo. Talvez tenha a ver com esse tipo de jogo. O ponto é que parece que esse é um tipo de jogo muito característico da Inglaterra e grande parte dos times ingleses não sabe trabalhar de outro jeito, nem controlar o jogo de forma cadenciada. Nem mesmo o Arsenal, de Arsène Wenger, um dos times que mais passam a bola na liga.

Jogando assim, é difícil imaginar o Liverpool passando pelo Borussia Dortmund, ainda que os alemães sejam, eles também, bastante agressivos. O Manchester City terá um desafio também frente ao Paris Saint-Germain. Enquanto isso, o Leicester vai se segurando na ponta da tabela. Não há resposta definitivas para saber o que causa tudo isso, mas as perguntas nos ajudam a refletir sobre o futebol que vemos e pensar no futebol que queremos ver.

Veja os gols do jogo:

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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