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Vinte anos depois, será que Cantona se arrependeu daquela voadora?

Alguns nem lembram o resultado da partida. O Manchester United visitou o Crystal Palace, no estádio Selhurst Park, podendo superar o Blackburn e assumir a liderança do Campeonato Inglês, apesar de ter dois jogos a mais que o rival. Alex Ferguson buscava o terceiro título seguido do torneio. Acabou não conseguindo por um ponto. Aquele empate por 1 a 1, em 25 de janeiro de 1995, há exatos 20 anos, foi um dos tropeços decivisos. Mas alguns nem lembram o resultado da partida, pois ela ficou marcada na história pela voadora de Eric Cantona em um torcedor.

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Cantona passou o jogo inteiro nervoso. Uma das táticas do Palace era justamente irritá-lo, com puxões de camisas e pequenas pancadas. Em um desses entreveros com o zagueiro Richard Shaw, desferiu-lhe um chute e foi expulso pelo árbitro. Caminhava aos vestiários, sem nem conversar com Ferguson, quando de repente corrigiu o seu trajeto ao ouvir Matthew Simmons, 20 anos, gritar. Virou-se e o golpeou com uma voadora. Caiu no chão, levantou e emendou um soco.

Foi imediatamente suspenso pelo Manchester United até o final da temporada, e a Associação Inglesa estendeu a punição até setembro de 1995. Foi julgado por agressão e pegou duas semanas de prisão, posteriormente convertidas em 120 horas de serviço comunitário. Mais do que isso, virou uma mancha na sua carreira. Mas será que virou? Porque também serviu para construir a imagem de bad boy muito bem explorada pela Nike e para consolidar a sua personalidade singular. De qualquer forma, 20 anos depois, Cantona está longe de mostrar algum remorso.

“Eu não o soquei forte o suficiente, deveria tê-lo socado mais forte”, afirmou em entrevista à revista FourFourTwo. A “defesa” do francês, entre aspas porque ele acha que não fez nada de errado, baseia-se nos mais primitivo dos motivos. Ele teve vontade de chutar um torcedor, logo, o chutou. Por que deveria se segurar? “Não acho que tinha a responsabilidade de não fazer aquilo por causa de quem eu era. Eu era apenas um jogador de futebol e um homem. Não quero ser uma pessoa superior, não sou um exemplo, um professor dizendo às pessoas como elas devem se comportar. Eu só queria fazer o que eu quisesse fazer”, completou.

As palavras que Matthew Simmons usou para irritar Cantona ainda são imprecisas. Ele alega que a provocação não passou de um “você vai para o chuveiro mais cedo”. Algumas testemunhas, porém, garantem que houve ofensas à nacionalidade do atacante, algo como “volte para a França, seu francês de merda”. Outros juram que era impossível ouvir qualquer coisa. Simmons também foi processado, por “comportamento ameaçador” contra Cantona, e foi agressivo durante o julgamento. Precisou ser seguro por seis seguranças para não bater em ninguém.

A personalidade arredia do agredido e a possibilidade de ter reagido a uma ofensa grave contribuíram para a opinião pública virar um pouco a favor do francês. Sem contar a peculiaridade da “entrevista coletiva” que concedeu após a agressão. Entrou na sala e disse calmamente: “As gaivotas seguem o barco porque pensam que sardinhas serão atiradas ao mar”. Não falou mais nada. Levantou-se e foi embora deixando um ponto de interrogação nos rostos de todo mundo.

“Onde estou hoje em dia é resultado do caminho que eu trilhei. Se eu não tivesse passado por tudo que passei na minha vida, não estaria aqui. E estou muito feliz por estar aqui na sua frente”, disse, em outra entrevista, ao site Euronews. Realmente, a vida de Cantona poderia ter sido diferente. Massimo Moratti estava no estádio para observá-lo. Queria levá-lo à Internazionale, mas desistiu depois da voadora.

Mesmo assim, Cantona não foi embora da Inglaterra por um triz. Em julho, jogou praticamente uma pelada contra o Rochdale no centro de treinamentos do Manchester United. Durou 73 minutos e houve 16 substituições. A FA considerou uma violação da pena imposta e ameaçou estendê-la. Foi o bastante para ele enviar um pedido de transferência para Ferguson, que viajou para Marselha e conseguiu dissuadi-lo. Cantona ficou e foi mais duas vezes campeão inglês antes de encerrar a carreira. Como ele próprio admitiu, muita coisa poderia ter sido diferente caso tivesse segurado os nervos naquela hora. Dizer se para o bem ou para o mal seria um mero chute. Neste caso, um chute inofensivo.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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