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A lealdade que todo torcedor espera de seu ídolo: Vardy segue seu conto de fadas no Leicester

Quando a notícia tomou as manchetes da imprensa inglesa (e não só dos tabloides, mas também dos veículos sérios), tudo parecia apenas questão de tempo. Liverpool e Arsenal se colocavam como os principais candidatos pela contratação de Jamie Vardy. Embora os Reds oferecessem um salário maior, os Gunners teriam maior facilidade para acionar a cláusula de rescisão, avaliada em £20 milhões, graças à presença na Liga dos Campeões. O Guardian, respeitado jornal do país, chegou a afirmar que o atacante já tinha aceitado a proposta, aguardando os exames médicos. Mas do “só falta assinar” ao negócio concreto, há um longo caminho, ainda mais com a Eurocopa preenchendo o intervalo. Vardy seguiu concentrado com a seleção inglesa. E, depois de vários indícios de que a transferência melaria, inclusive com declarações de Arsène Wenger, o Leicester tornou oficial a permanência de seu artilheiro nesta quinta. Vardy renovou seu contrato com as Raposas por mais quatro anos.

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Obviamente, a decisão de Vardy tem um preço. Futebol é negócio e, diante dos interesses em torno de seu nome, o atacante pediu uma valorização ao Leicester, mesmo após já ter assinado novo vínculo em fevereiro. Segundo o Guardian, o acerto desta semana amplia o salário do atacante em £30 mil por semana, indo de £70 mil para £100 mil. Além disso, a cláusula de rescisão também foi revista, assim como o término do compromisso agora vai até 2020, uma temporada a mais do que o previsto anteriormente. Ainda assim, o jogador de 29 anos abre mão de dinheiro. Seu salário no Arsenal giraria em torno de £120 mil semanais.

A barganha, todavia, não diminui o caráter da decisão de Vardy. É a lealdade que muito se pede no futebol, mas pouco se vê. Enquanto o Arsenal possui uma grandeza duradoura, apesar do jejum na Premier League, o Leicester tateia no escuro. Conquistou o maior feito do futebol inglês em mais de um século, mas ainda não sabe por quanto tempo durará o seu sucesso. A permanência do artilheiro aumenta as esperanças. Afinal, muito graças aos gols do atacante que as Raposas chegaram ao topo da Premier League. Claudio Ranieri continua com o homem de confiança em uma temporada que promete ser histórica, mas também pesada, com as atenções divididas na participação inédita na Liga dos Campeões. Neste sentido, os torcedores agora também aguardam o “fico” de N’Golo Kanté e Riyad Mahrez, também bastante assediados.

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Aos 29 anos, Vardy vive o momento ideal (e, pela idade, talvez um dos últimos) para se transferir a um clube de maior peso. Mais importante para o goleador, porém, é escrever a sua própria história no Leicester. Quem sabe, também se confirmar como o maior ídolo de um clube com o seu passado rico, absorvido por uma cidade de torcida completamente apaixonada. Para quem trabalhava como operário há nove anos e disputava a quinta divisão há cinco, o Arsenal poderia configurar um degrau a mais na sua escalada inimaginável. Mas o atacante prefere ascender juntamente com as Raposas. Construir apenas não só a sua trajetória sensacional, mas também a de uma equipe cujo limite ainda é desconhecido, e que será lembrada por muito tempo.

Ao Arsenal, resta lamentar. Considerando os valores, Vardy não seria uma aposta cara ao time de Arsène Wenger. Além disso, poderia preencher uma lacuna importante nos Gunners, diante das desconfianças que Olivier Giroud costuma provocar. Agora, resta seguir à procura de outras opções no mercado. A decisão do inglês, de qualquer forma, não deve ser vista como um fracasso dos londrinos na mesa de negociações. O que mais pesa é o seu compromisso com o seu clube atual, o que fica mais claro com os valores postos à mesa.

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O Leicester pode deixar de lucrar com um jogador que talvez não renda de novo tanto quanto em 2015/16. Independente disso, a continuidade de Vardy é muito mais importante ao time. Claudio Ranieri segue com um de seus líderes na personalidade, aquele cara que chama a responsabilidade, que dá suor e sangue em campo pelo grupo. Também tem um homem para que a equipe se molde ao redor, até pela maneira como o atacante potencializa o estilo de jogo aplicado pelo italiano. E, por aquilo que tem jogado também na Eurocopa, a ótima fase deve durar algum tempo. Agora, é ver qual será a recepção da torcida, depois de se mostrar um bocado desapontada com a possível venda ao Arsenal. Hora de passar a borracha por cima. Tudo que a gente quer ver no nosso time é o craque declarando a sua fidelidade à camisa. Os fanáticos ao Leicester tiveram este gosto. Vardy continua como um deles.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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