Vardy no Arsenal é uma aposta arriscada para todos envolvidos, mas que faz sentido
Jamie Vardy ganhou as manchetes nesta temporada. Ele foi o artilheiro de um Leicester surpreendente e fantástico que foi campeão da Premier League. Era natural que surgisse o interesse de vários clubes no artilheiro. Nesta sexta, surgiu a informação que o Arsenal ativou a cláusula de rescisão do jogador, £ 20 milhões. As informações do jornal inglês Guardian são que o jogador da seleção inglesa aceitou a proposta, fará exames médicos neste domingo e o negócio deve ser fechado na segunda. Mas será mesmo uma boa a ida de Vardy para o Arsenal?
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Vardy precisará se provar e ele parece gostar de desafios
Um dos pontos que Vardy deve considerar é que ir para o Arsenal significa sair de um time onde ele é a estrela e onde o esquema de jogo é pensado em função dele. Em Leicester, o time se adapta para tirar o melhor do seu centroavante. Em Londres, ele seria mais um jogador e viria com uma etiqueta de preço colada na testa que rapidamente se transformaria em pressão.
Isso não é necessariamente ruim. Os grandes jogadores gostam de desafios. Vardy teria um enorme à sua frente, mas ele tem personalidade para encarar isso. Por outro lado, atuações ruins não demorariam a ser criticadas e a paciência da torcida no Arsenal certamente seria muito menor do que no Leicester.
O seu jeito de jogar pode encaixar no Arsenal, mas precisará de muito mais trabalho dele, e do técnico, do que acontecia no seu atual clube. O time de Wenger já teve alguns bons momentos jogando no contra-ataque e ganharia uma opção de centroavante goleador e que tem velocidade, uma característica que não há no elenco atual.
Estilo de jogo diferente do Arsenal será mais um desafio
O Leicester tem um estilo de jogo direto, com passes rápidos, muitas vezes longos, para jogar em velocidade. Os contra-ataques são constantes e Vardy recebe muitas bolas nos últimos 30 metros do campo para definir rapidamente.
No Arsenal, o estilo de jogo é completamente diferente e ele teria que entrar em uma equipe mais acostumada a passar a bola com frequência, habitar o campo de ataque e raras vezes atuar em contra-ataques. Ter mais posse de bola é algo constante, ao contrário do que aconteceu nos Foxes na temporada vencedora do time.
Vardy provavelmente seria a referência dentro da área, mas teria que participar mais da construção do jogo. Olivier Giroud sentiu dificuldade exatamente nisso: não é um jogador que participa muito da partida a não ser para finalizar as jogadas. O jogador do Leicester parece ter mais capacidade de fazer isso.
Giroud é um jogador mais limitado que Vardy e foi muito criticado pelo seu desempenho nesta temporada. É um centroavante, fazedor de gols, trombador, que briga com os marcadores adversários. Por tudo isso, ficou metade dos jogos que atuou no banco de reservas. Vardy é mais veloz, mais dinâmico, mas teria que se acostumar a fazer o pivô – algo que Giroud faz bem – e ter paciência, porque não seria o ponto focal do time, como no Leicester.
Por outro lado, ele pode mostrar que é um jogador capaz. Em parte, ele já faz isso na seleção inglesa, onde precisou mostrar estar à altura de jogar o futebol internacional. E o seu cartão de visitas, com o primeiro gol com a camisa inglesa contra a Alemanha na casa da atual campeã do mundo mostra que ele não tem medo de grandes desafios. E Wenger é um técnico experiente e sabe quem está contratando. Seria pouco inteligente contratar um jogador como esse sem saber como irá usá-lo.
O momento para se firmar na seleção inglesa
Um risco para Vardy é a seleção inglesa. Em Leicester, ele seria certamente titular absoluto do time por toda a temporada e se manteria entre os convocados. Pensando na Copa do Mundo, daqui a dois anos, bastaria ele manter-se em bom nível pelo clube que muito provavelmente seria mantido no grupo dos convocados ingleses.
No Arsenal, ele corre o risco de ser engolido pela pressão, pela diferença de estilo, por estar em um time de um outro porte. O lado positivo é que se ele vai bem no Arsenal, tira as desconfianças que ainda pairam sobre ele se ele é um jogador realmente de alto nível ou só teve uma excelente temporada e nada mais.
Mais do que isso: há uma enorme concorrência no ataque da Inglaterra. Surgiram nomes como Marcus Rashford, que irá à Eurocopa, além de Harry Kane, o provável titular. Há ainda Daniel Sturridge, outra boa opção do time. A disputa por um lugar é feroz e uma temporada ruim, acabando há um ano da Copa, pode comprometer seriamente as chances de Vardy.
Por isso, ele precisa acreditar no próprio potencial. No Arsenal, ele poderá também se firmar entre todas essas ótimas opções de ataque inglesas mostrando que está à altura do time – e consequentemente, da seleção também. Indo bem no Arsenal, ele pode mostrar grandes argumentos para estar na Rússia em 2018.
Vardy tem uma personalidade que é boa para o Arsenal
Não é de hoje que a torcida do Arsenal pede um centroavante. O técnico Arsène Wenger já fez elogios públicos a Vardy e o avaliou como um jogador de £ 30 milhões. Pagar, portanto, £ 20 milhões até parece um bom negócio.
Vardy tem 29 anos, então o negócio não seria feito pensando em revender, e sim aproveitar o que o jogador pode oferecer nas próximas temporadas. A camisa 9 Arsenal está vaga desde a saída de Lukas Podolski e seria perfeita para Vardy. É um artilheiro versátil, que luta muito pela bola e não tem medo de cara feia e nem de marcação pesada.
Uma das características que por vezes parece prejudicar o Arsenal é ser um time muito bonzinho. Leia-se: é preciso que o time seja mais competitivo em alguns momentos. Vardy passa longe de ser um jogador bonzinho. Ele divide todas as bolas, se joga nelas, corre muito, briga com os zagueiros que o marcam, não desiste. Aos 29 anos, Vardy é um jogador bad boy. Talvez seja uma das coisas que o Arsenal precise, além de, principalmente, um centroavante de alto nível.
Uma aposta para todos, mas que faz sentido
Com todos esses elementos, a contratação de Vardy parece uma boa para o Arsenal, para Vardy e para o Leicester. Os três fazem apostas ambiciosas e precisam ter consciência disso se o negócio for de fato concretizado, como parece que será.
O Arsenal porque traz um centroavante que teve só uma grande temporada na carreira, apostando que continuará jogando assim e por um contrato alto. O salário de Vardy já é bastante alto e o Arsenal terá que gastar uma boa grana para tê-lo, o que o faria um dos mais bem pagos do elenco gunner, se não o mais. Se não der certo, é um jogador com contrato longo e salário alto. Por isso, é preciso ter convicção e um trabalho importante para fazer de tudo para dar certo.
Vardy muda de um patamar de clube pequeno para grande, sabendo que a cobrança será pesada e ele precisará estar à altura. Ele arrisca a sua idolatria no Leicester, onde seria rei até quando quisesse, para buscar ser um jogador importante de um clube de camisa pesada. Sabe que terá que disputar partidas na Champions League e na Premier League brigando sempre por títulos.
Para o Leicester, a transferência também é ambiciosa. Primeiro porque vende um dos seus principais jogadores por um valor que não é nem tão alto assim. Mas se o Arsenal corre o risco de contratar um jogador que não conseguirá manter o nível, o Leicester também correria o risco de ver o nível do seu atacante cair sem aproveitar a janela de transferências para lucrar com isso e tentar trazer uma reposição que pode ser até melhor e mais jovem, aproveitando a exposição que o time ganhou.
Com a transferência confirmada, veremos uma nova realidade para todos os envolvidos. O conto de fadas vivido por Vardy e pelo Leicester pode continuar, mas em caminhos diferentes.



