Inglaterra

A forte declaração de Varane mostra que concussões merecem mais atenção

Definição de concussão, protocolo, ação médica no campo e efeitos da lesão a longo prazo: a Trivela entrevistou um médico especialista no assunto e extraiu respostas importantes

Um forte relato de Raphael Varane, do Manchester United, ao jornal francês L’Equipe, reacendeu o debate sobre um tema de extrema importância no meio futebolístico: as concussões cerebrais. O zagueiro revelou que teve a carreira afetada por isso e costuma sofrer com problemas relacionados a tal lesão antes e até durante jogos, o que acaba impactando negativamente seu rendimento dentro de campo.

— Danifiquei meu corpo. Tive várias concussões cerebrais. Se olharmos três das piores partidas da minha carreira, em pelo menos duas eu sofri uma concussão dias antes: contra a Alemanha nas quartas de final do Mundial de 2014 e com o Real Madrid contra o Manchester City nas oitavas da Champions em 2020 — disse Varane.

O zagueiro francês afirmou que repetidos impactos na cabeça provocam pequenas concussões cerebrais. Engajado no tema, Varane quer ser uma voz ativa nesta luta. O objetivo é mostrar as consequências nocivas da lesão e aumentar a prevenção por parte dos jogadores.

— No Manchester United nos recomendaram a não fazer mais de 10 cabeceios por treino. Meu filho de sete anos joga futebol e eu o aconselho a não cabecear a bola. Depois de uma série de cabeceios, é mais complicado dizer no dia seguinte que está cansado quando tudo correu bem. Muitas vezes, como jogadores, não entendemos nem pensamos em fazer um teste. Reconhecer uma concussão cerebral e tratá-la bem é um desafio. É um problema de saúde real, pode ser vital.

Motivada pelas declarações de Varane, a Trivela foi atrás de um especialista em concussão cerebral. Conversamos com o Dr. Luiz Mourão, Médico do Esporte pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), que respondeu a questionamentos importantes sobre um assunto ainda nebuloso para muitos.

Afinal de contas, o que é concussão cerebral?

Antes de mais nada, é importante entendermos o que é uma concussão cerebral. O Dr. Luiz Mourão, que foi médico das categorias de base do Santos entre 2019 e 2024 e coordenador médico do futebol de base do Peixe de 2022 a 2024, explicou a lesão em termos mais populares, traçou comparativos didáticos e citou os possíveis sintomas dessa problemática.

– Uma concussão cerebral é como uma sacudida interna do cérebro dentro do crânio, geralmente resultante de um golpe na cabeça, pescoço ou outra parte do corpo que transfere força à cabeça. Imagine o cérebro como um pudim dentro de uma caixa. Se você chacoalhar a caixa, o pudim balança. Esse balanço pode afetar como o cérebro funciona temporariamente. Os sintomas podem variar desde dor de cabeça, confusão, até problemas de memória ou equilíbrio. Mesmo que pareça leve, é uma condição séria porque estamos falando do cérebro, um órgão vital para tudo o que fazemos – disse o médico.

Como funciona o protocolo Fifa de concussão? O que a entidade determina?

Perguntado sobre a atuação da Fifa em casos de concussão, o Dr. Luiz Mourão pontuou que o protocolo da entidade se baseia no “Sport Concussion Assessment Tool 6” (SCAT6). Em síntese, a “SCAT” é uma ferramenta padronizada de avaliação das concussões cerebrais, designada para aplicação de profissionais de saúde e utilizada na avaliação de atletas com idade igual ou superior a 13 anos.

— O protocolo de concussão da Fifa é baseado no “Sport Concussion Assessment Tool 6” (SCAT6) e visa proteger os jogadores, garantindo que qualquer suspeita de concussão seja adequadamente avaliada e tratada. Ele determina que, ao primeiro sinal de concussão, o jogo deve ser parado para permitir a avaliação médica do jogador. Se uma concussão é suspeita ou confirmada, o jogador deve ser imediatamente retirado da partida e não deve retornar ao jogo. O protocolo enfatiza a importância do descanso e da avaliação médica antes que o jogador possa retornar às atividades, seguindo uma abordagem passo a passo que assegura o retorno seguro ao esporte.

Além do cuidado com o jogador vítima de concussão cerebral, a Fifa seguiu as orientações da IFAB (International Football Association Board) e passou a usar a regra de substituição extra para casos como esse. O Dr Mourão, que hoje coordena a pós-graduação em Medicina do Exercício e do Esporte da Sanar, cita que a alteração extra entrará oficialmente nas regras do futebol a partir do dia 1º de julho de 2024.

— Em dezembro de 2020, a IFAB, órgão que regulamenta as regras do futebol, aprovou a regra provisória para substituição extra para casos de atletas com concussão. A Fifa já usou a regra no Mundial de Clubes de 2020 e Copa do Mundo do Catar, em 2022. A alteração extra entra oficialmente nas regras do futebol a partir do dia 1º de julho de 2024, podendo ser adotada a critério das federações e ligas.

Em jogo contra a Inglaterra, na Copa do Mundo de 2022, Neco Williams, lateral-direito do País de Gales, precisou ser substituído por suspeita de concussão (Foto: Icon Sport)

Como é feita a avaliação médica em caso de concussão cerebral no campo de jogo?

Segundo o Dr. Mourão, é preciso suspeitar de concussão em qualquer choque de cabeça durante uma partida. A recomendação dada aos juízes é parar o jogo imediatamente e solicitar o atendimento médico dentro de campo. Na abordagem, os profissionais de saúde se atentam ao nível de consciência do jogador e às chamadas “red flags” – “bandeiras vermelhas” em português.

– Em qualquer choque de cabeça durante a partida, a orientação é suspeitar de concussão. Por isso, os juízes interrompem o jogo imediatamente para atendimento médico. A avaliação médica em campo segue o “Sport Concussion Assessment Tool 6” (SCAT6), um protocolo detalhado para identificar concussões. Na abordagem inicial à beira do campo, a avaliação médica deve ser pautada primariamente pelo nível de consciência do atleta, além da avaliação dos sinais de alarme ou red flags.

Exemplos de “red flags”

  • Dor no pescoço
  • Visão dupla
  • Fraqueza
  • Formigamento nos membros superiores ou inferiores
  • Cefaleia intensa ou crescente
  • Convulsão
  • Perda do nível de consciência
  • Rebaixamento do nível de consciência
  • Vômitos
  • Inquietação, agitação ou agressividade

*Cefaleia é o termo médico utilizado para denominar aquilo que conhecemos como “dor de cabeça”.

E quando o atleta se mostra inconsciente?

— Então, ele deve ser imobilizado com colar cervical, imobilizador lateral de cabeça e prancha rígida e ser conduzido para serviço de urgência. É necessário avaliar, também, a memória com perguntas sobre o jogo ou eventos recentes.

Perguntas feitas na avaliação médica para avaliar a memória do jogador

  • Em que estádio estamos?
  • Estamos em qual “tempo do jogo”?
  • Que time marcou o último gol?
  • Contra que time foi a última partida?
  • O seu time ganhou o último jogo?

O médico reitera que esse protocolo ajuda a decidir rapidamente se o jogador precisa ser retirado do jogo para evitar riscos maiores à sua saúde.

Douglas Martínez, centroavante hondurenho, passando por teste de concussão em 2020, durante o jogo entre Colorado Rapids x Real Salt Lake (Foto: Icon Sport)

Uma vez detectada a concussão no campo de jogo e o jogador deixando a partida, o que fazer posteriormente?

Após a abordagem no gramado e o diagnóstico da concussão, o jogador é encaminhado ao hospital. O Dr. detalha a ação médica nesses casos e o rígido monitoramento do quadro do atleta, que só será liberado às atividades de maneira gradativa.

— Após a detecção de uma concussão e a retirada do jogador do campo, é crucial um período de descanso e recuperação, seguido por uma avaliação médica detalhada. Depois da avaliação imediata em serviço hospitalar, com a realização de exame de imagem para avaliação do trauma na cabeça (tomografia computadorizada), o jogador deve ser monitorado para qualquer agravamento dos sintomas e passar por um protocolo de retorno gradativo às atividades físicas, garantindo que cada etapa seja completada sem sintomas antes de avançar para a próxima. O retorno ao jogo só é considerado quando o jogador estiver completamente assintomático e tiver a aprovação de profissionais de saúde especializados.

E o tempo de recuperação?

— O tempo de recuperação depende de cada atleta. E reavaliações diárias com a supervisão da equipe médica devem ser realizadas. O atleta deve permanecer por 24-48 horas em repouso absoluto após o episódio da concussão, inclusive de atividades que exijam a função cerebral e raciocínio, como, por exemplo, leitura, fato que minimiza a demanda de energia para o cérebro. Posteriormente, o atleta é estimulado a retornar gradualmente para as atividades, sem que haja exacerbação dos sintomas cognitivos e físicos.

A recomendação/roteiro para o retorno ao futebol segue a seguinte sequência:

1) Repouso total até não apresentar sintomas;
2) Iniciar exercícios;
3) Aeróbicos leves;
4) Introduzir exercícios de força;
5) Treino sem bola;
6) Treino com bola sem contato;
7) Treino com contato;
8) Liberação total para competição

O Dr. cita que é empregada a orientação de evoluir cada etapa sequencialmente após 24h, sem que o atleta apresente piora de sintomas físicos e cognitivos.

Quais são os efeitos/riscos a longo prazo para jogadores de futebol que já sofreram com isso?

Pegando como gancho a fala de Varane relacionada aos efeitos que a concussão cerebral causou na sequência de sua carreira, a Trivela questionou o Dr. Mourão justamente sobre tal ponto: quais são os riscos da lesão a longo prazo? O médico enumerou-os e reforçou a importância de tratar cada caso com extrema seriedade e responsabilidade.

— Os efeitos e riscos a longo prazo de concussões incluem uma variedade de problemas neurológicos e cognitivos, como dificuldades de memória, alterações de humor, sensibilidade à luz e som, entre outros. Há também um risco aumentado de condições mais graves, como a encefalopatia traumática crônica (ETC), especialmente para aqueles que sofrem concussões repetidas. A ETC pode levar a problemas comportamentais, emocionais e cognitivos duradouros. Por isso, é essencial tratar cada concussão com a devida seriedade e seguir rigorosamente os protocolos de avaliação e recuperação.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme Calvano

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.
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