Inglaterra

Um time dos torcedores: como surgiu o AFC Wimbledon a partir de uma decisão controversa da diretoria do Wimbledon FC

Precisando de um estádio, a diretoria do Wimbledon FC decidiu mudar o clube para Milton Keynes, mais de 100 km longe do local original. Revoltados, os torcedores decidiram fundar um novo clube e o antigo mudou de cidade e de nome para MK Dons

A primeira coisa que vem à cabeça quando se fala em Wimbledon é o tradicional torneio Grand Slam de tênis. Disputado no bairro com o mesmo nome, localizado no sudoeste de Londres, esta não é a competição, porém, que mais chama a atenção dos moradores ao longo do ano. Essa honra cabe ao esporte criado pelos próprios ingleses, e a prova disso é a história dos clubes locais: o ex-Wimbledon FC e o novo AFC Wimbledon.

Criado em junho 2002, o AFC conseguiu subir cinco vezes de divisão em menos de uma década, e passará a disputar a League Two (quarta divisão da Inglaterra) na próxima temporada, graças ao vice-campeonato conquistado na Conference neste ano.

A existência da equipe, porém, deve-se exclusivamente ao Wimbledon FC, fundado em 1889, que em 2002 tomou a decisão que mexeu com as bases futebolísticas da região: deixaria o bairro londrino e seguiria para Milton Keynes, aproximadamente a 100 km da capital inglesa.

Os torcedores protestaram contra a decisão da diretoria. Em vão. Tomaram, então, a iniciativa de fundar um novo clube para manter as tradições e a cultura futebolística de Wimbledon. Afinal, apesar de ter passado boa parte de sua história nas ligas inferiores do futebol inglês, o Wimbledon FC chegou a disputar a primeira divisão entre 1992/93 e 2000/01. Em mais de 100 anos de existência, a maior conquista foi a FA Cup de 1987/88, derrotando o Liverpool na final por 1 a 0.

Início do imbróglio

Toda confusão começou quando o clube foi vendido para os noruegueses Kjell Inge Rokke e Bjorn Rune Gjelsten, em 1997. Antes de reivindicar pela mudança para Milton Keynes, os proprietários cogitaram que a sede do clube se transferisse para Dublin. Uefa e FAI (federação irlandesa) negaram o pedido.

O alvo virou, então, Milton Keynes. Junto com Charles Koppel, que havia sido nomeado presidente do clube em 2001, Kjell Inge Rokke e Bjorn Rune Gjelsten anunciaram essa ambição. A Football League se opôs e não permitiu a relocação. O clube não desistiu e apelou contra a decisão. Depois de muita insistência, conseguiram a autorização da FA em maio de 2002.

Como Milton Keynes era uma cidade que não tinha um clube de futebol profissional, isso garantiria ao Wimbledon uma adesão dos moradores da região. Era o cenário ideal para quem tinha interesse em construir um estádio, já que o clube dividia o Selhurst Park com o Crystal Palace desde 1991. A diretoria alegava que essa parceria ajudava a aumentar as dívidas do clube.

Os torcedores protestaram e, liderados por Kris Stewart e Ivor Heller (até hoje diretor comercial do novo clube), resolveram criar em junho de 2002 a equipe dissidente.

O começo e o próximo desafio

Stewart foi o primeiro presidente da equipe, sendo substituído em 2004 por Dickie Guy, ex-goleiro do Wimbledon FC. Visando montar uma nova equipe, o clube fez uma peneira durante alguns dias e escolheu diversos jogadores para montar o elenco. No seu primeiro jogo, realizado em 10 de julho, no estádio Gander Green Lane, a equipe perdeu o amistoso com Sutton United por 4 a 0. Desde a sua fundação, o clube divide o estádio Kingsmeadow com o Kingstonian.

A trajetória oficial do AFC Wimbledon começou na temporada 2002/03 disputando o que seria equivalente à nona divisão inglesa. A partir daí foram nove temporadas e cinco promoções.

Tamanho sucesso gerou alguns recordes também, como o maior número de partidas invicto na Inglaterra: 78, sendo 69 vitórias e 9 empates, entre 26 de fevereiro de 2003 e 27 de novembro do ano seguinte.

No entanto, com a relocação do Wimbledon FC para Milton Keynes e a fundação do AFC Wimbledon uma questão precisava ser resolvida: com quem ficariam os títulos conquistados desde 1889 pelo original Wimbledon? Em 2006 todas as partes chegaram a um acordo: todos os troféus ficariam com o clube da torcida.

“Os torcedores do AFC Wimbledon acreditam que o nosso clube é uma continuação do espírito formado pelo Wimbledon Old Centrals em 1889 e que continuou vivo com o Wimbledon Football Club até maio de 2002. Acreditamos que um clube de futebol não é apenas uma instituição legal que controla isso, mas é uma comunidade formada pelos torcedores e jogadores que trabalharam por um objetivo comum. Nós reproduzimos a honra conquistada pelo que foi acreditada e sempre será o nosso clube e a nossa comunidade”, garante o AFC Wimbledon em seu site oficial.

Com esse sucesso estrondoso, uma situação inusitada pode acontecer em breve. Na quarta divisão, o AFC Wimbledon pretende seguir sua trajetória vitoriosa e subir já na próxima temporada. Caso isso aconteça, o encontro com o causador de tanta discórdia, Milton Keynes Dons, terá data marcada. Isso se a equipe conseguir permanecer na League One.

“Será horrível quando jogarmos contra o MK Dons. O resultado será irrelevante. Eles nos roubaram”, simplificou o chefe-executivo do AFC, Erik Samuelson.

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Equipe Trivela

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