Inglaterra

Trippier explica saída do Tottenham, ida ao Atlético de Madrid e escolha pelo Newcastle

Em conversa com Alan Shearer, ídolo do seu novo clube, Trippier mostrou ressentimento com o presidente do Tottenham e muito respeito a Diego Simeone

Kierran Trippier tomou uma decisão incomum a jogadores ingleses: deixar a Premier League. Havia feito uma boa Copa do Mundo e era vice-campeão europeu pelo Tottenham quando escolheu jogar no Atlético de Madrid. Em entrevista ao The Athletic, conduzida por Alan Shearer, ídolo do seu novo clube, o lateral direito entrou em detalhes sobre o que o levou a se aventurar na Espanha e também pela opção de defender o Newcastle ao retornar à Inglaterra.

É fácil dizer que foi por dinheiro. Mas Trippier teria mercado na Inglaterra. Evidência disso é que o Manchester United tentou sua contratação no começo da temporada, mas, sem acordo financeiro com o Atlético, acabou desistindo. Não havia mais ao opção de defender o clube para o qual torceu na infância quando Trippier contou à cúpula de futebol do Atlético de Madrid que queria voltar para casa.

O jogador de 31 anos não queria retornar apenas à Inglaterra, mas também ao norte, onde nasceu (Bury, região de Manchester) e começou a ter destaque, como jogador do Burnley, brevemente treinado por Eddie Howe antes da chegada de Sean Dyche. Caso tudo dê certo, ele pode se gabar no futuro de ter sido o primeiro jogador de renome a acreditar no novo projeto do Newcastle, recentemente comprado por um fundo bilionário da Arábia Saudita. Será sempre o primeiro reforço da nova gestão.

Mas por que, depois de ajudar a conduzir a Inglaterra a uma primeira semifinal de Copa do Mundo em 28 anos e o Tottenham à primeira decisão de Champions League da sua história, Trippier acabou sendo negociado com tanta facilidade pelos Spurs? “Nos meus últimos meses no Tottenham, eu admito que não estava no nível que estive na Copa do Mundo e não há desculpa para isso”, afirma, a Shearer.

“Como jogador, você tenta fazer o seu melhor e às vezes as coisas não dão certo. Não estavam dando, mas eu ainda era escolhido por Mauricio Pochettino. Depois da final da Champions League, senti que era a hora de seguir em frente. A imprensa não estava realmente ao meu lado na época e talvez eu precisasse sair um pouco da Inglaterra para espairecer”, acrescentou.

O impulso final foi ter descoberto que o presidente do Tottenham, Daniel Levy, estava oferecendo seus serviços a outros clubes meses antes da derrota para o Liverpool em Madri pela final da Champions.

“O que me incomodou… como você sabe, as pessoas falam no futebol e sempre há rumores, mas eu sei com 100% de certeza – e é o que me deixa mais bravo – que dois meses antes do fim da temporada Daniel estava me oferecendo para outros clubes. Eu sabia que aquilo estava acontecendo, então sabia que minha hora havia chegado. Eu jogava pelos meus companheiros e pelos torcedores, mas eu também sabia que não era mais querido”, disse.

A ida ao Atlético de Madrid

Mas daí a ir para o Atlético de Madrid? Em primeiro lugar, jogadores ingleses estabelecidos raras vezes se aventuram em outros países. Em segundo, o estilo do time de Diego Simeone em um primeiro momento não parecia combinar com o futebol de Trippier, um lateral bastante ofensivo. Tudo acabou dando certo. Simeone encontrou uma função para ele, que conquistou o Campeonato Espanhol, o primeiro título da sua carreira. E, se dependesse apenas do Atleti, ele teria ficado.

“Muitas pessoas diziam que o Atlético era a decisão errada para mim. ‘Ele não vai passar do meio campo em um time do Simeone’, mas eu não pensava assim. Alguns times europeus se interessaram e eu estava perto de acertar com o Napoli, mas, quando chegou o Atlético, pensei ‘eu quero um pouco disso’. Não sabia a língua, mas eu acho que posso me adaptar a qualquer situação”, afirmou.

Trippier não se tornou o Gabriel García Márquez, mas tentou aprender algumas palavras em espanhol para tentar se enturmar melhor com o vestiário e para entender os apaixonados discursos de Simeone.

“Ele é difícil de explicar, mas, quando você o vê na linha lateral, é exatamente como ele é em todas as sessões de treinamento. Cada exercício de passe. Ele não para. Ele trabalhava comigo por uma hora e meia depois do treino, me mostrando vídeos da minha época no Tottenham, dizendo que eu deveria fazer isso ou aquilo. Ele me ajudou tanto. Ele me colocou em posições que nunca pensei que estaria como jogador de futebol”, disse.

Uma polêmica surgiu durante os duelos contra o Liverpool. O técnico Jürgen Klopp reclamou da maneira como o Atlético de Madrid atua. Depois voltou atrás, tentou mostrar mais respeito, mas ficou claro que ele se incomodou com as estratégias aplicadas por Simeone.

“É um pouco injusto porque Simeone teve tanto sucesso ao longo dos últimos 11 anos. Ele conquistou oito títulos. Eu entendo o que Klopp quer dizer, mas, se você está jogando em Anfield, não pode ir cabeça a cabeça com eles ou será punido. Eu me lembro de Simeone dizendo aquela noite para mantermos nossa formação e tentar pegá-los no contra-ataque e, no fim do dia, é sob revender. Nem todo mundo pode jogar à Klopp ou à Guardiola. Simplesmente não é realista. Todos têm seus próprios sistemas e o de Simeone é diferente. Funcionou para ele”, afirmou.

Agora no Newcastle

Caso o projeto saudita prospere, e o Newcastle se transforme em uma potência europeia, será uma trajetória diferente a exemplos como Manchester City, Chelsea ou Paris Saint-Germain. Aquelas eram equipes mais ou menos estabelecidas entre o meio e a parte de cima da tabela, mas a injeção de grana chega ao St. James Park em um momento de luta contra o rebaixamento. Precisa contar que nomes como Trippier comprem o projeto para começar a montar times melhores – ou pagar salários exorbitantes.

Ou no caso de Trippier, ficar ao norte. “Eu queria voltar ao norte, e no norte havia apenas o Newcastle interessado. Mas eu conheço o treinador, trabalhei com ele antes, e tive boas conversas com ele sobre o projeto e o que pode acontecer. Eu pensei que talvez pudesse atrair outros jogadores pra cá, que se eu fosse ao Newcastle talvez mostrasse que podemos sair dessa situação. Será difícil, mas estou pronto. É o momento perfeito para mim e minha família”, afirmou.

Ele confirmou que houve um forte interesse do Manchester United depois da Eurocopa, mas o Atlético de Madrid exigiu o pagamento da cláusula de rescisão. Agora, após ter tido a oportunidade de jogar pelo clube para o qual torcia na infância, Trippier pode se ver na próxima temporada em uma situação muito diferente, jogando na segunda divisão inglesa.

Shearer perguntou se ele fica. Trippier meio que não respondeu. “Não quero olhar dessa forma. Estou apenas focado no próximo jogo. Minha mentalidade é positiva, digo aos meus companheiros constantemente que podemos ficar na Premier League. Eu estava disposto a vir, a lutar. Muitos jogadores teriam medo de encarar esses desafio. Eu não tenho”, encerrou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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