Tim Vickery: Por que o Coventry City não é o meu time, mas tem um lugar especial no meu coração
Nas últimas horas no Rio de Janeiro vi camisas do Aston Villa e do Everton, vestidas, tenho certeza, por cariocas. É impressionante o alcance da Premier League.
Mesmo assim, eu estou tendo dificuldades em me empolgar com a nova temporada, que inicia hoje. Não curti muito o ano passado, nem no campo e, com certeza absoluta, fora dele. É deprimente ver os clubes se tornarem cada vez mais brinquedinhos de bilionários, “criadores de conteúdo”, agentes da indústria global de entretenimento. Acabo curtindo mais ainda, com todos os problemas e defeitos, a Copa do Mundo.
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Mas tem uma novidade que vai me atrair neste ano — a volta para a Premier League, depois de uma ausência de 25 anos, do Coventry City, que abre a temporada hoje contra o Arsenal.
O Coventry não é o meu time. Mas tem um lugar especial no meu coração.
Coventry City de volta à Premier League
A cidade, que fica 140 norte de Londres, não é especialmente atraente. Sofreu um bombardeio feroz durante a Segunda Guerra Mundial, e a estética não foi uma prioridade na reconstrução. Fica um pouco na sombra do Birmingham, a segunda cidade do país, um pouco mais para o norte. E tem um time do futebol, Coventry City, os azuis celeste, que era capaz de se manter na primeira divisão entre 1967 e 2001, muitas vezes lutando contra todas as possibilidades para se salvar nas últimas rodadas.
Fez pouca coisa que chamou atenção além de sobreviver esse tempo todo. Virou parte de uma piada do filme Monty Python, o grupo de humoristas britânicos. Criou uma esquete onde líderes históricos do comunismo tiveram de responder perguntas sobre trivialidades. A pergunta para o Trotsky — quantas vezes o Coventry City ganhou a Copa da Inglaterra? O velho revolucionário não sabe, fica confuso. Mas a pergunta é um truque — Coventry City nunca ganhou a Copa.
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A piada foi aposentada em 1987 — e isso faz parte de nossa história.
Fiz faculdade lá, e exatamente quarenta anos atrás, o Coventry City ajudou a mudar a minha vida. Quando comecei na faculdade jogava bola, acompanhava o futebol — mas não com a mesma paixão de criança. A música era mais importante.
Nos anos depois da explosão do punk, o cenário musical estava fervendo — com uma contribuição do Coventry, lar do The Specials e a gravadora Two Tone, muito importante na luta contra o racismo. Mas, por volta de 1985 e 86, deu para perceber que o cenário musical estava perdendo fôlego — aí veio a Copa do Mundo do México.
Foi o momento quando me apaixonei pelo futebol de novo. Nunca tinha saído do país — quando fui para lá, o Coventry foi o lugar mais para o norte que visitei na vida. Então, assistir aos grandes jogos do torneio junto com pessoas não somente do país inteiro, mas de outros países também — foi uma experiência bem forte.
Na próxima temporada, 1986-87, estava doido para voltar a frequentar estádios — aí acabei indo para muitos jogos do Coventry City, no que acabou sendo uma temporada histórica. Fez uma bela campanha no campeonato mas, muito mais importante, ganhou a FA Cup (Copa da Inglaterra).
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Nem me importei muito com o fato que na final venceu o meu time, Tottenham, que jogou uma temporada sensacional, estava disputando todos os títulos e acabou com nada. Paciência. Estava feliz curtindo a alegria do povo do Coventry com o seu sucesso inesperado.
O meu ponto alto? A semifinal contra o Leeds, com, até aquele momento, a maior operação de segurança utilizada num jogo do futebol na Inglaterra. Aconteceu em Hillsborough, Sheffield, a cena da tragédia dois anos mais tarde. Fiz parte de uma galera que alugou um ônibus para ir para lá. O Coventry teve uma vitória dramática de 3 a 2, e eu lembro a volta para a cidade, com o povo inteiro saindo da casa para comemorar junto com a torcida e o time chegando de Sheffield.
Foi um momento mágico, a essência do futebol como festa coletiva.. Tem pouca chance de uma comemoração assim depois do primeiro jogo da temporada — o Arsenal é o grande favorito. Mas só ter o Coventry de volta na Premier League é motivo para comemorar.