Thomas Frank no Tottenham: Diferente, flexível e imenso potencial… se tiver ajuda
Treinador do Brentford levou a equipe da Championship a grandes temporadas na Premier League, e pode formar grande dupla com o clube londrino
Depois de vencer a Liga Europa e cumprir sua promessa de entregar um título na segunda temporada, Ange Postecoglou deixou o Tottenham. A vaga deve ser preenchida por Thomas Frank, ligado ao clube há tempos após ótimas temporadas no Brentford.
O dinamarquês levou os Bees ao título da Championship e a sólidas temporadas na Premier League em seus sete anos na equipe. Nos Spurs, deve encontrar um clube mais bagunçado politicamente, mas com dinheiro e talento como nunca viu antes em seus trabalhos anteriores.
Como Thomas Frank consolidou o Brentford na Premier League
Durante a temporada passada, o Brentford foi o time com a segunda menor folha salarial da Premier League, à frente apenas do Ipswich Town. Em uma liga em que o poder financeiro é tão preponderante, é de se espantar o sucesso que o clube tem tido.
Mais do que isso, os Bees têm constantemente perdido seus principais talentos: Christian Eriksen foi ao Manchester United; David Raya, ao Arsenal; Ivan Toney, primeiro suspenso por quase um ano, depois foi ao futebol saudita. E isso não pareceu impactar a equipe.

Talvez o impacto não tenha sido tão grande justamente pela forma como Frank arma sua equipe: com os estereótipos do “time pequeno”. Em estatísticas da última temporada, o Brentford foi:
- Apenas o 14º em posse de bola (47,7%);
- O 2º com mais passes longos, acima de 36 metros;
- O 4º com mais cruzamento à pequena área adversária.
Diferente de Postecoglou, que surpreendeu em sua primeira temporada com laterais como meias, posse de bola e domínio em regiões altas do campo, Frank montou um time mais voltado ao físico, que abusava de bolas longas e cruzamentos e não fazia questão de dominar o jogo.
Mas, curiosamente, ainda era um time que tinha as armas necessárias para construir desde trás. Era a equipe com mais toques na sua pequena área e o terceiro com mais toques no seu primeiro terço — isso implica que os zagueiros, goleiro e volantes tinham calma e não buscavam apenas lançamentos.
O elenco fisco também se traduz em outras características: foi o time que mais venceu duelos aéreos na Premier League, por exemplo. Mas não diz que é apenas uma equipe que defende baixo e espera ser atacada — pelo contrário.
O Brentford pressionava alto, ilustrada pela sua terceira posição na liga em duelos no terço ofensivo, e foi o quinto time com a melhor porcentagem de duelos contra dribladores adversários (venceu 53,2% das vezes).
Bryan Mbeumo equalling our best ever @PremierLeague scoring season 👏👏 pic.twitter.com/YyQhSUBJ6r
— Brentford FC (@BrentfordFC) May 25, 2025
Sua pressão alta também resultava em chances claras de gol com alguma frequência, e seus números ofensivos são surpreendentes:
- 39,4% de precisão nas finalizações (maior da Premier League);
- 0,14 gol por chute (maior da liga);
- Média de 13 metros de distância nas finalizações (o mais próximo ao gol da liga);
- 63 gols marcados (5º na liga).
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Formações flexíveis e modelo de jogo
Thomas Frank formou um Brentford sem um formação rígida, em uma mescla de 4-4-2 com 4-2-3-1, a depender do momento do jogo. Quando construía desde o goleiro, geralmente o fazia em um 4-2-4.

Vale ressaltar, no entanto, que os jogadores, principalmente do quarteto de ataque, trocavam de posição com alguma frequência. Era uma formação sem um centroavante de ofício, e com quatro jogadores habilidosos o suficiente para buscar a bola em posições mais baixas, jogar nos meio-espaços e nas laterais.
Diferente de equipes que tendem mais às características do Jogo de Posição, os Bees buscam avançar o mais rápido possível, mesmo em passes mais curtos. E se estiverem em um situação em que podem perder a bola, não têm receio de buscar lançamentos.
O principal jogador criativo da equipe é Mikkel Damsgaard. Antes uma jovem promessa, o meia, atualmente com 24 anos, se consolidou como um criador muito técnico e capaz de encontrar passes em profundidade aos seus atacantes — tanto que teve 10 assistências na última edição da Premier League.
Damsgaard geralmente recua da sua posição no ataque para receber perto dos volantes, o que gera algumas possibilidades:
- se não for acompanhado pelo seu marcador, avança com a bola e, quando algum marcador quebra a linha de defesa para combatê-lo, pode encontrar os atacantes em profundidade;
- se for acompanhado, é um driblador hábil e bom o suficiente no jogo de costas para se desvencilhar ou encontrar espaço com tabelas, antes de estar em posição para criar de frente para o gol adversário.
E mais do que um jogador criativo importante, Frank o combina com uma flexibilidade curiosa envolvendo suas escolhas de escalação: isso porque tem Lewis-Potter, um ponta destro, como lateral-esquerdo.
Isso faz com que o volante pela esquerda, geralmente Yarmolyuk, desça para se tornar lateral-esquerdo, e permite que Lewis-Potter avance pela lateral. Desse modo, durante a segunda fase de construção da equipe, Damsgaard ocupa a posição como volante e Schade, o ponta-esquerdo, tem mais liberdade pelo meio.

Chegar é diferente de estar, e o Brentford de Frank usou isso com grande sucesso nas trocas de posições. Tanto que alguém constantemente se encontrava desmarcado nesse processo, uma vez que criava-se confusão nos marcadores de Schade, Lewis-Potter, Damsgaard e Yarmolyuk.
Da defesa ao ataque: velocidade e intensidade
Em fase defensiva, o Brentford se mantém em 4-4-2 e tem diferentes formas agir quando não tem a bola. Geralmente, é um time que vai começar defendendo alto e pressionando o adversário com marcação individual.
Os meias e atacantes avançam para fechar opções de passe e limitar o oponente com a bola. Isso condiz com seu alto número de duelos no ataque e sua criação de chances perto do gol adversário.
Quando marcando alto, no entanto, os zagueiros tendem a não avançar tanto, para não deixarem espaços em suas costas. E quando não recuperam ou forçam o erro ao pressionar, o time rapidamente volta por completo para defender baixo, ainda em 4-4-2, para explorar os espaços atrás da defesa adversária em contra-ataques.
“We dominated, we were aggressive and played with intensity” 🗣️
Thomas Frank in the dressing room following Sunday's win over Manchester United pic.twitter.com/djvU517H2A
— Brentford FC (@BrentfordFC) May 5, 2025
Frank reuniu um time com grande capacidade de vencer duelos pelo alto — quem mais o fez na Premier League em 2024/25 — e que é muito intenso para perseguir adversários e duelar em diferentes áreas do campo.
O que Thomas Frank leva ao Tottenham
O treinador dinamarquês teve grande sucesso com o Brentford também porque contou com um clube organizado, com uma política de contratações e scouting que conversava com o planejamento do elenco.
No Tottenham, o técnico pode encontrar um elenco mais talentoso, mas com resquícios de diferentes trabalhos que não necessariamente conversam com a sua ideia. No entanto, Frank não deve ser o tipo de comandante que exigirá reforços de alto calibre para dar resultados.
Sabendo lidar com a pressão interna do clube e tendo o apoio do elenco — que viveu polêmicas nos últimos anos envolvendo descompromisso e muitas lesões –, é uma cominação de muito potencial.

Van de Ven e Romero são uma dupla física, rápida e dominante na zaga. Udogie e Porro dão diversas opções para a construção e um meio repleto de talento com a bola é promissor para a ideia do dinamarquês. Talvez falte a intensidade sem a bola, que não apareceu com Postecoglou.
No ataque, Maddison pode ser uma versão aprimorada de Damsgaard, enquanto Solanke, Son, Richarlison e Johnson dão a explosão que ele tinha com seus atacantes no Brentford.
Thomas Frank definitivamente terá de mudar seu modelo de jogo para se adaptar ao Tottenham, ou ao menos encontrar uma forma de mesclar o que deu certo no Brentford com o domínio que se espera dos Spurs. Mas, inicialmente, parece um casamento de sucesso.



