Surpresana FA Cup

Imagine o cenário: quartas-de-final da Copa da Inglaterra; Manchester United, Chelsea, Portsmouth e Middlesbrough são quatro dos semifinalistas e o único cruzamento entre times da Premier League é entre os ‘Red Devils’ e o Portsmouth. Todos os outros são da segunda divisão e numa das partidas, Bristol Rovers e West Brom já garantem um time da segundona inglesa na fase seguinte. Se na segunda-feira os semifinalistas da FA Cup fossem Portsmouth, Barnseley, Cardiff City e West Brom seria uma surpresa? Não. Seria um conjunto delas. Provavelmente o maior conjunto de surpresas na história recente da competição.
Em um final de semana irrepetível, Manchester United (jogando em Old Trafford), Chelsea e Middlesbrough perderam as suas vagas na semifinal da segunda competição mais importante do país para Portsmouth, Barnsley (19o colocado no Championship, a segunda divisão do país) e Cardiff City (14o lugar no mesmo torneio).
Estarrecedor? Sem dúvida. Não há nem mesmo margem para se usar a desculpa de um “torneio menor” no qual os clubes da Premier League tenham usado times mistos. A escalação do Chelsea (Cudicini; Belletti (Pizarro), Terry, Carvalho, Bridge; Essien, Ballack, Malouda (Kalou); Wright-Phillips, Anelka, Joe Cole) não deixa dúvidas sobre a força usada pelos ‘Blues’.
A derrota para o Barnsley (que já tinha eliminado o Liverpool na competição) foi épica e colocou o cargo d Avram Grant em risco. O voluntarioso patrão russo Abramovich está furioso com a derrota e o israelense só se garante no emprego se fizer miséria na Liga dos Campeões.
Em Manchester, o desafio era maior, mas perfeitamente factível. Bater o Portsmouth 9o lugar na Premier League) não era o fim do mundo. Perder para o time de Hampshire, em casa, sim, era inacreditável – não ocorria desde 1942 – Mas foi isso o que aconteceu. O United botou pressão e o Portsmouth se segurou. Mas a 12min do final, o goleiro polonês Kuszczak (que tinha substituído van der Sar no intervalo) fez falta em Atkinson e foi erradamente expulso (não era o último homem). Diante de quase 76 mil pessoas, o campeão inglês se ajoelhou.
Em Middlesbrough, a outra vergonha foi imposta pelo Cardiff. Ameaçado pelo rebaixamento, o Boro não precisava de muito para vencer um dos times galeses que disputam a liga inglesa. Só que tudo o que o Middlesbrough podia dar não ia além de Wheater, Sanli e Pogatetz. Vitória do Cardiff por 2 a 0, no Riverside Stadium.
Derrotas de times grandes na Copa da Inglaterra não são incomuns, porque jogando uma partida única, um time pequeno pode se fechar e apostar num contra-ataque de sorte. O impressionante do final de semana foi a combinação, que pareou Barnsley e Cardiff numa semifinal e Portsmouth e West Brom na outra. Um desses clubes estará na próxima Copa Uefa (exceto o Cardiff, por ser galês) e levantará um troféu quase tão importante quanto o campeonato. Manchester (os dois), Arsenal, Chelsea e outros gigantes devem estar pensando como puderam deixar escapar uma FA Cup assim.
Duelo em Liverpool
Aparentemente, a irregularidade de Portsmouth, Manchester City, Aston Villa e Blackburn não afetou o Everton. Componentes da classe-média atual do futebol inglês, qualquer desses clubes poderia almejar vaga para a Liga dos Campeões, já que o Liverpool, ao contrário de seus objetivos iniciais na temporada, não teve força suficiente para buscar o caneco que não vem desde 1990.
Não se precisa analisar muito para, ao se olhar a tabela classificatória, notar que Reds e Toffees são concorrentes mais que diretos pelo significativo quarto lugar – suficiente para disputar a próxima Liga dos Campeões. Ambos com 56 pontos e o mesmo número de jogos a realizar até o fim da temporada, a dupla de Liverpool travará um duelo particular.
É natural que o favoritismo, nesse caso, seja atribuído aos Reds. A equipe de Steven Gerrard está mais habituada com os jogos importantes e, passada a atribulada fase de janeiro e fevereiro, vem com resultados consistentes e certamente motivada pela recuperação na fase de grupos da Champions League e a recente eliminação sobre a badalada Internazionale. Nos último cinco jogos da Premier League, foram quatro vitórias e um empate.
Outro ponto favorável para o crescimento do Liverpool é que, na reta final de temporada, Rafa Benítez costuma rodar o elenco com menos freqüência. Em um momento em que as lesões têm sido quase nulas em Anfield, os melhores jogadores possivelmente estarão à disposição. No início da época, por exemplo, raras foram as vezes em que Fernando Torres e Kuyt atuaram juntos, devido à metodologia de trabalho de Benítez.
De Goodison Park vem o outro aspirante ao quarto lugar. Vivendo mais um ponto alto em seu sólido trabalho no Everton, o escocês David Moyes tem uma equipe competitiva, técnica e de muita alma. Mesmo com um elenco sem muitos valores individuais acima da média, os Toffees apresentam argumentos válidos para almejar a próxima Liga dos Campeões. O maior deles é que, ao contrário de outros médios como o Manchester City, os azuis de Liverpool resistiram às imprevisibilidades.
Para o Everton pesa também o entrosamento e seqüência de um trabalho. Jogadores como Carsley, Arteta, Cahill, Lescott e Phil Neville estão habituados com a atmosfera de Goodison Park. Nomes mais recentes como Andy Johnson, Yakubu e Jagielka, rapidamente se integraram ao espírito de trabalho de Moyes, oferecendo grande utilidade. Emprestado pelo Celtic, o dinamarquês Gravesen retornou apresentando o mesmo bom futebol que lhe levou ao Real Madrid. E nunca mais foi repetido, é verdade.
O nome de Gravesen, imediatamente, nos remete à temporada 2004/05, quando o dinamarquês foi muito bem nos primeiros meses, se transferiu para o Real Madrid e o Everton superou o Liverpool, ficando com a quarta posição caseira. Então campeões europeus, mas só quinto na Premier League, os Reds contaram com uma manobra de bastidores para se garantir na edição seguinte.
Nesta mesma edição da Liga dos Campeões, a 2005/06, os Toffees caíram ainda na terceira fase classificatória. O algoz, na ocasião, foi o Villarreal, que chegaria até a semifinal até cair frente ao Arsenal. Em dois jogos simples, todo o trabalho do time de David Moyes foi por terra.
Como se vê, os Merseysiders não encaram como novidade o duelo entre Reds e Toffees pela quarta colocação. Surge, assim, outro interessante ingrediente na Premier League, paralelamente à disputa pelo título. Se para o Everton a classificação seria gloriosa, para o Liverpool não seria mais que a obrigação. Nada, porém, que abafe a disputa pelas próximas nove rodadas.
Cedo demais para Michael Owen
É inerente à imprensa inglesa dar destaque demais ao que não é tão relevante. Fosse em um outro país, possivelmente, não se levariam em conta as declarações de Michael Owen na última segunda-feira. Mesmo meios aparentemente mais sóbrios, como a BBC, deram voz ao atacante de 28 anos, que um dia já foi tido como Wonder Kid.
Em entrevista, Owen disse que temia por seu futuro à frente do English Team, especialmente pela fase horrorosa do Newcastle, que não vence há 12 rodadas pela Premier League e a cada semana se aproxima da zona de rebaixamento. A julgar pelo fato de que a Inglaterra simplesmente não jogará a Eurocopa e que o trabalho de Fabio Capello se inicia, ambos os lados passaram do necessário.
Owen, porque eventualmente poderia gerar alguma instabilidade nos Magpies. Se levarmos em conta o dinheiro investido na contratação do camisa dez – ainda que torrar dinheiro não seja novidade no Newcastle, Michael Owen poderia se preocupar em, primeiro, recuperar sua melhor forma física e técnica. Em 29 jogos da Premier League, ele atuou em 20 e fez apenas quatro gols.
Outro erro foi o da imprensa, ao dar importância a um fato tão banal. A preparação do English Team apenas se inicia e mais lúcido seria dar importância para esse processo, cujo objetivo, a Copa do Mundo de 2010, está a anos-luz de distância. Não se imagina que, caso Michael Owen volte a jogar seu melhor futebol – o que não ocorre realmente desde 2002, Fabio Capello não estude seu aproveitamento.
Gretna: fim do sonho?
Os receios mais profundos da pequena torcida do Gretna, da cidade de mesmo nome, tornaram-se realidade. Depois de o mecenas do clube, Brooks Mileson, adoecer, as finanças do clube foram para o saco, os salários começaram a atrasar e o clube foi colocado em administração pela federação escocesa. O processo de administração significa que controladores externos assumem a direção e negociam as dívidas como for possível (normalmente, vendendo bens e jogadores do clube). Além disso, o clube perde pontos no campeonato.
Mileson, um milionário do ramo de seguros e imóveis, levou o Gretna do futebol amado à primeira divisão em cinco anos. Com o declínio de sua saúde seu afastamento dos negócios, o clube perdeu sua fonte de renda e começou a despencar. Há até mesmo o risco de que o Gretna não consiga terminar a temporada – evitar isso é o objetivo dos administradores.



