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Stam volta a Old Trafford pela primeira vez, anos depois de um dos maiores erros de Ferguson

O bom filho sempre volta para casa. Mas Jaap Stam não foi um filho impecável para o Manchester United. Passou três temporadas na Inglaterra e foi inegavelmente vitorioso, sendo parte importante da conquista de três títulos da Premier League e da Tríplice Coroa, em 1999. No entanto, publicou um livro com comentários que irritaram Ferguson e, depois de uma temporada prejudicada por lesões, foi vendido para a Lazio. E, assim, a passagem de Stam por Old Trafford foi abreviada, mas o holandês com cara de mau retorna ao estádio, quase 16 anos depois, como treinador do Reading, no próximo sábado, pela terceira rodada da Copa da Inglaterra.

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A saída de Stam do Manchester United é uma tradicional controvérsia do futebol inglês, onde polêmicas, rusgas e discussões de bastidores fazem parte do dia a dia da imprensa. Ela é creditada a uma autobiografia escrita pelo zagueiro, na qual ele afirma que Alex Ferguson tentou convencê-lo a se transferir para o United antes de conversar com o PSV, seu clube na época. Ferguson, em sua própria autobiografia, confirma que deu uma daquelas broncas em que parecia um secador de cabelo, mas que o livro não teve influência na sua decisão.

Acontece que Stam já tinha 29 anos e havia sofrido uma lesão no tendão de Aquiles na temporada 2000/01, sendo desfalque entre setembro e janeiro. Ao fim da temporada, a Lazio abordou Ferguson para comprar o jogador. Ofereceu inicialmente £ 12 milhões e foi subindo a proposta até chegar a £ 16,5 milhões. Ferguson, então, sentiu-se obrigado a aceitar uma quantidade de dinheiro bastante considerável para a época por um zagueiro quase trintão que começava a dar indícios de que o resto da sua carreira seria infectado por problemas físicos.

Errou e errou feio. “Foi um erro de avaliação tão grande da minha parte permitir que Stam fosse embora que ele acabou jogando contra nós, aos 36 anos, em uma semifinal de Champions League”, escreveu o técnico escocês, em seu livro. Para o seu lugar, Ferguson contratou Laurent Blanc, que jogaria apenas mais duas temporadas, enquanto Stam seria jogador profissional até 2008, com muito sucesso vestindo a camisa da Lazio e do Milan.

“Eu me incomodo com essa história, Fergie se incomoda com essa história. Até o Manchester United talvez se incomode com essa história”, afirmou Stam à rádio BBC Berkshire. “Eu converso com a imprensa e, de vez em quando, recebo uma pergunta sobre o que aconteceu. De novo. Eu tento dar uma resposta decente, mas eles sempre encontram uma maneira de torná-la interessante. Não vou me concentrar no que aconteceu quando eu era um jogador ou no que os jornais dizem. Não será um retorno emocionante no sentido de que eu vou chorar. Mas será legal voltar. Eu amo o clube, amo os torcedores, tive uma ótima passagem. Mas o jogo não é sobre mim, é sobre o Reading enfrentando o Manchester United em Old Trafford”.

Depois de se aposentar, Stam começou sua carreira de treinador, com trabalhos de assistente no futebol holandês. Treinou os reservas no Ajax como a última missão em sua terra natal antes de retornar à Inglaterra para assumir o Reading, da segunda divisão, em junho do ano passado. E até agora, tem tido bastante sucesso. Mesmo com o 13º elenco mais caro da Championship, segundo o site especializado Transfermarkt, está na terceira posição, atualmente classificado aos playoffs e a seis pontos do Newcastle, que ocupa a última vaga que dá acesso direto à Premier League. “Todos os times têm a ambição de subir e a maioria dos times investe muito para subir, em comparação conosco, que não investimos nada”, afirmou. O Reading está tentando contratar o zagueiro português Tiago Llori, do Liverpool, por quase £ 4 milhões.

Além dos resultados, Stam busca um futebol com identidade: a identidade do pai do futebol holandês, Johan Cruyff. O Reading tem média de 58,4% de posse de bola, constantemente batendo nos 70%, a maior da segunda divisão inglesa. Maior também, apenas como curiosidade, do que de 18 equipes da Premier League, com exceção do Manchester City e do Liverpool. “Eu entendo que alguns torcedores possam ficar nervosos. Eles querem que passemos à bola à frente, sem correr muitos riscos. Mas queremos começar a construir desde a defesa, queremos a posse de bola. Se você joga desde a defesa, para o meio-campo e para os atacantes, você chega ao posicionamento em que quer estar. Algumas vezes, erros vão ocorrer. Claro que não queremos fazer isso. Vamos tentar preparer todo mundo para não cometer tantos erros, tentar prepará-los para tomarem as decisões certas nos momentos certos”, disse, em setembro, assegurando todo mundo que havia um plano em curso para a equipe.

Mais ou menos nessa época, o time de Stam foi testado pela primeira vez contra um dos grandes do país, em jogo válido pelas oitavas de final da Copa da Liga Inglesa. O Reading viajou ao Emirates Stadium e fez um bom papel diante do Arsenal, que venceu por 2 a 0. Houve um certo mistério em relação ao resultado até os 33 minutos do segundo tempo, quando Chamberlain anotou seu segundo gol na partida. Em números, o visitante foi dominado: apenas 40% de posse de bola, 10 chutes a gol, quatro certos, contra 21 finalizações do Arsenal, sete corretas. “Queríamos pressioná-los e criar as chances. Conseguimos fazer isso algumas vezes, mas, em outras, simplesmente demos a bola para eles. São um grande time e sabíamos que não seria fácil. Queríamos vencer, mas acho que os jogadores podem aprender e melhorar as suas chances no futuro”, disse Stam, à época.

E eis que as bolinhas do sorteio das copas inglesas presentearam o Reading com outra oportunidade de se testar contra os grandes da Premier League. Os jogadores estão empolgados com a grande virada conquistada na última segunda-feira, quando estavam perdendo por 2 a 0 para o Bristol City, fora de casa, até os 27 minutos do segundo tempo, e acabaram vencendo por 3 a 2. Terceira vitória seguida da equipe na Championship, mas o Manchester United também está em ótima fase: ganhou seus últimos sete jogos e está invicto há 13. Se havia, contra o Arsenal, certa dúvida na cabeça de Stam sobre manter ou não o seu estilo de jogo de posse de bola, contra o United ele tem certeza do que fará.

“Não vamos mudar nada”, garantiu. “Vamos ter a posse de bola e jogar. Precisamos pensar diferente, em certos aspectos, mas a maioria das coisas será igual. Eles vão tentar acabar com o jogo o mais rápido possível porque é assim que as pessoas falam sobre os times pequenos. Precisamos estar preparados. Eles têm muita qualidade. Jogar diante de 80,000 torcedores, em Old Trafford, será uma grande aventura para os torcedores, para a muitos jogadores e para mim. Precisamos nos divertir, mas nos divertiremos mais se conseguirmos um resultado. Precisamos nos dar a melhor chance possível e trabalhar muito duro. Tenho certeza que poderemos jogar bem contra eles, mas não será fácil”.

Há muita admiração em relação a José Mourinho, técnico do United, no discurso de Stam, que defendeu o treinador português das críticas que recebeu antes do início da atual série de bons resultados. E na primeira vez que retorna a Old Trafford para um jogo competitivo – já disputou partidas beneficentes no estádio desde sua saída -, teve que responder: se vê treinando o Manchester United no futuro? “Essa é uma pergunta capciosa da imprensa, não é?”, começou. “Todos querem trabalhar no nível mais alto. Eu estive nele como jogador e sei o que é necessário para chegar até lá. Preciso começar de baixo. Eu fiz isso na Holanda. Precisa esperar sua chance, porque muitos grandes treinadores não têm a chance no mais alto nível do futebol. Não estou pensando nisso agora. Quero ficar aqui pelos próximos anos. E não vou valorizar muito (o retorno a Old Trafford), não vou ficar acenando porque, espero, eu vou voltar para cá no futuro”. Stam refere-se a disputar outras partidas como treinador do Reading, contra o Manchester United, mas vai saber o que o futuro reserva para sua nova carreira?

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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