Só os titulares
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Não é nenhuma novidade para quem acompanha o futebol inglês, mas vale a contextualização: Quando Fabio Capello assumiu o English Team, a equipe se encontrava provavelmente em um dos piores momentos psicológicos de sua história. Não foi só ter perdido a classificação para a Euro em casa diante de uma Croácia que deveria ter sido batida. Foi ver uma geração tida como uma das melhores de todos os tempos fracassar de novo, de forma retumbante.
Assim, a classificação tranqüila para a Copa de 2010 não deve ser tratada como algo trivial. É verdade que até aqui, Eriksson chegou mais de uma vez. Nunca, porém, com tanta superioridade sobre os adversários. E nunca com tanta autoridade sobre os jogadores.
A derrota diante do Brasil no último sábado deixa alguns sinais de alerta, mas também uma marca positiva: a Inglaterra pode até perder como sempre, mas o interesse de seus jogadores pelas partidas é incomparável com o de outros tempos. Os ingleses perceberam que não são suficientemente bons para ganhar e ainda fazer festa. E decidiram que preferem ganhar.
Se este é o lado positivo, é bom lembrar os negativos. A começar pelo fato de que, apesar de ter ido extremamente bem nas eliminatórias, a Inglaterra não mostrou a mesma força nos amistosos contra os “grandes”. Foram quatro: derrotas diante de França, Espanha e Brasil, e vitória contra a Alemanha. Em comum em todos os jogos, menos contra a França, apenas o segundo de Fabio Capello no comando: a quantidade de reservas em campo.
Há aí, dois claros problemas a serem levantados, analisados e tratados, se é que isso é possível. O primeiro é o óbvio: o “segundo time” da Inglaterra é muito inferior ao primeiro. Com a possível exceção do gol, onde o titular é tão ruim quanto o reserva, a Inglaterra tem titulares em quase todas as posições que se destacam, ou pelo menos se colocam, entre os melhores da posição no mundo. Os reservas, entretanto, vivem do fato de jogarem de vez em quando na seleção.
Contra o Brasil isso ficou escancarado. A Inglaterra foi presa fácil, parecia uma seleção pequena européia. Além de faltar talento, faltou força. O placar de 1 a 0 diz muito mais sobre a falta de interesse do Brasil em fazer mais gols do que sobre a capacidade da Inglaterra de evitá-los.
Johnson, Terry, Ferdinand e Ashley Cole é uma ótima defesa, ainda que o lateral-direito do Liverpool seja um lateral “brasileiro”, ataca melhor do que defende. Seus reservas, porém, quem são? Brown nem titular é. Bridge é porque não há outro no time. Lescott é quase um Renato Silva, e Upson ou qualquer outro que colocarem lá acertará duas boas e errará a definitiva.
E assim é nas outras áreas do gramado também. Jenas é bom, mas não joga em nenhuma seleção de primeiro nível. Assim como, aliás, Carrick. E todos os atacantes da Inglaterra menos Wayne Rooney.
É verdade que a Copa do Mundo é, como se diz por aqui, uma competição de “tiro curto”, ou seja, não ter bons reservas poderia não ser determinante. O problema é que aí surge o outro ponto a ser analisado na derrota diante do Brasil: a Inglaterra não jogou com os reservas por opção, mas porque os titulares não estavam disponíveis. E o problema é que seus titulares estão indisponíveis com uma freqüência assustadora.
Pois bem: há um time titular bom, com bons valores, um esquema que mostrou eficiência contra adversários razoáveis, um treinador experiente e com moral, e jogadores dispostos a se sacrificar para chegar ao título. Tudo isso cai por terra se esses caras não podem jogar. E eles não podem jogar porque, com freqüência, são sobreutilizados por suas equipes. Que não vão mudar isso da noite para o dia, até porque não podem fazê-lo.
Ao que parece, Fabio Capello tem um problema novo, e cuja solução está fora de suas mãos. Sua primeira alternativa seria ter reservas preparados para assumir a bucha, mas os jogos provaram que não é assim. Resta-lhe rezar para os titulares não se quebrarem. Ainda bem que ele é italiano!