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Slimani surge como um negócio perfeito ao Leicester, até por seu conto de fadas pessoal

O namoro se desenrolou por toda a pré-temporada. Vários clubes ingleses demonstraram interesse em Islam Slimani, mas só o Leicester parecia querer algo realmente sério. E foi somente nos últimos instantes da janela de transferências que as Raposas atenderam as exigências do Sporting: desembolsaram £30 milhões pelo artilheiro, selando o casamento – embora a tentativa de incluir Adrien Silva no pacote tenha se frustrado. A princípio, um negócio que tende a se encaixar perfeitamente na equipe de Claudio Ranieri, e garante profundidade para o elenco que precisará se desdobrar entre Premier League e Liga dos Campeões.

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Até mesmo a trajetória de Slimani parece se encaixar com o contexto do Leicester. Ao contrário de muitos de seus companheiros de seleção, o atacante formou-se no próprio futebol argelino, e não na França. Aos 21 anos, ainda atuava na quarta divisão local, quando acabou descoberto pelo Belouizdad, terceira força de Argel e costumeiramente coadjuvante no campeonato nacional. Lá, o jovem precisou se esforçar mais um pouco. Recebeu uma inesperada convocação à seleção em 2012, quando seus números no clube eram modestos e costumava ser criticado pela falta de habilidade. Mas começou a despontar na equipe nacional. E, no ano seguinte, aos 25 anos, ganhou a oportunidade da sua carreira. O Sporting resolveu pagar €300 mil naquela aposta, de nove gols em 14 partidas com a camisa da Argélia.

Por todo o seu passado, Slimani chegou ao Alvalade como um talento bruto. Um jogador que não teve a chance de aprimorar suas noções técnicas e táticas em categorias de base. Porém, se era ‘varzeano’ no futebol, o atacante também era varzeano no espírito: dono de enorme raça dentro de campo, aliada à capacidade física e ao oportunismo. Com o tempo, o atacante se aprimorou. Passou a ir além dos gols de cabeça, trabalhando bem a bola com os pés. Exibia nos estádios o que comumente se nota nos bate-bolas das ruas. E, sob a orientação de Jorge Jesus, descobriu o seu melhor nível. Na última temporada, Slimani marcou 33 gols em 41 partidas. Tentos de muita vontade, alguns até com certo refinamento, e várias vezes com a estrela de brilhar em grandes jogos. Contra Porto e Benfica, balançou as redes 10 vezes em 16 clássicos disputados.

Tudo isso atraiu o interesse do Leicester. Slimani possui as características para se encaixar no estilo de jogo das Raposas, de muita verticalidade e capacidade física. É um novo atacante incansável e aguerrido, como Vardy. O argelino poderá se reversar com o inglês na posição, mas não é de se duvidar que muitas vezes dividam o campo, com Slimani servindo de referência e Vardy movimentando-se mais. Uma combinação parecida com a que acontece ao lado de Leonardo Ulloa, sendo que o novato oferece até mais recursos que o argentino. Enquanto isso, Ranieri fica agora com uma vastidão de possibilidades para montar a sua linha de frente. Além dos três já mencionados, há Shinji Okazaki e Ahmed Musa – este, podendo entrar tanto como segundo atacante quanto como ponta.

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Slimani, aliás, não deve enfrentar tantos problemas para se adaptar ao futebol inglês. A explosão física é um fator primordial para o argelino. Dúvida maior se concentra sobre o entendimento tático de um atleta que ainda precisa de lições básicas, em um campeonato de exigências maiores. Seu aprendizado dependerá dos cuidados de Ranieri. Mas, considerando a postura do treinador, tratado como um padrinho por vários jogadores, dá para confiar nesta evolução. Até porque aquele que talvez seja o maior discípulo do italiano também servirá de apoio a Slimani: Riyad Mahrez, seu companheiro de seleção, e que possivelmente influenciou no negócio.

Slimani deixa uma lacuna no Sporting. E não apenas por ter sido protagonista do clube na última temporada. Um dos principais ídolos da torcida nos últimos anos, o argelino evidenciou sua gratidão ao clube que o transformou, em lágrimas após ser decisivo em mais um clássico contra o Porto. Agora, colocará a sua vitalidade e o seu coração à serviço do Leicester. Em meio ao conto de fadas que se desdobra no Estádio King Power, Slimani vem para acrescentar um novo capítulo.

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Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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