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Shakespeare, o auxiliar que os jogadores adoram, assume o Leicester até o fim da temporada

Enquanto nomes eram especulados para suceder Claudio Ranieri, alguns bem conhecidos, como Roy Hodgson e Roberto Mancini, Craig Shakespeare foi realizando o seu trabalho e alcançou bons resultados. Tem sido assim para o ex-meia inglês de 53 anos ao longo de sua carreira com a prancheta na mão: sempre debaixo dos holofotes. Mas isso está prestes a mudar. O Leicester anunciou que Shakespeare será o treinador efetivo da equipe até o final da temporada.

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Shakespeare teve algumas coisas a seu favor nessa decisão. Primeiro, obviamente, os resultados. Desde a demissão de Ranieri, o Leicester venceu os dois jogos que disputou pela Premier League, com boas atuações. Destaque para a excelente partida contra o Liverpool, vencida por 3 a 1. Ele tem um ótimo relacionamento com os jogadores e conhece o clube como a palma da mão. Entre idas e vindas, está envolvido com as Raposas desde 2008.

O homônimo do grande escritor inglês foi levado para o Leicester pelo treinador Nigel Pearson, quando o clube estava na terceira divisão. A dupla conseguiu o acesso à Championship e, na temporada seguinte, chegou aos playoffs que davam vaga na Premier League, mas perdeu para o Cardiff City, nas semifinais. Pearson saiu para o Hull City e levou Shakespeare consigo. Um ano depois, em 2011, os dois retornaram para o Leicester. Ele era uma espécie de “bom policial” para o “policial ruim” de Pearson: enquanto o técnico principal gritava e colocava medo nos jogadores, Shakespeare construía uma boa relação com eles na base da confiança e da honestidade.

“Ele sempre criou um bom elo entre o treinador e os jogadores e esse sempre foi o melhor dom que um número 2 pode ter”, afirma o ex-jogador suíço Bruno Berner, que jogou no Leicester entre 2008 e 2012, ao Leicester Mercury. “Ele fazia isso perfeitamente. Tinha uma boa relação com os jogadores porque era sempre honesto. Os jogadores confiaram muito rapidamente nele. Ele foi muito importante criando um ambiente onde os jogadores sentiam-se confortáveis. Joguei sob o comando de muitos treinadores e nem sempre um número 2 era tão bom quanto Shakey. Ele sempre encorajava os jogadores, independente da situação, e tratava todos do mesmo jeito, fossem titulares do time ou não. Ele faz todos se sentirem importantes. Ele é um cara muito engraçado, mas sempre foi focado e profissional”.

Pearson foi embora, de vez, depois da recuperação impressionante que manteve o Leicester na primeira divisão inglesa, em 2015, mas Shakespeare ficou para trabalhar com Ranieri e teve papel fundamental na conquista do título. Na época da demissão do italiano, os relatos da imprensa inglesa, corroborando as palavras de Berner, afirmavam que a relação dos jogadores era melhor com o auxiliar do que com o técnico principal. “Craig está aqui desde que comecei a jogar pelo Leicester”, afirmou Christian Fuchs, no podcast Men in Blazers. “Ele é o cara a quem você recorre. Sempre foi os olhos e os ouvidos dos jogadores. Quando você tinha um problema, podia sempre recorrer a ele. Obviamente, poderia recorrer a Claudio também. (Shakespeare) tem a confiança dos jogadores. Eu adoro trabalhar com ele”.

Houve, inclusive, boatos de que um dos motivos para o elenco estar insatisfeito era que Shakespeare havia sido colocado de lado nos últimos meses, à medida em que Ranieri centralizou as decisões, mas o novo técnico do Leicester negou qualquer problema com o seu ex-chefe. Segundo Kevin Phillips, a importância de Shakespeare para o título inédito das Raposas foi além de ser um cara legal com os jogadores. Phillips encerrou a carreira no Leicester, na campanha do acesso, em 2014, e foi integrado à equipe de treinadores. Era um dos assistentes de Ranieri, ao lado de Shakespeare, até sair para trabalhar no Derby County, em setembro de 2015, comecinho da caminhada que culminou com a conquista da Premier League.

“Eu trabalhei por um curto período sob o comando de Ranieri e, às vezes, a organização não era boa”, afirmou, à Sky Sports. “Se não fosse por Shakey, tudo poderia ter ruído muito antes. Claro que o treinador leva todo o crédito por vencer a liga, e ele merece grande parte dele, mas teria sido muito mais difícil sem Shakey”. Ele conta que Ranieri ausentou-se bastante em viagens para a Itália para visitar a mãe que estava doente e voltava no final da preparação para os jogos.

“Foi um aprendizado para mim e Shakey porque, naquela época, éramos nós que tocávamos tudo com Mike Stowell (preparador de goleiros), e Ranieri chegava. Tínhamos nossas sessões planejadas para os jogadores e, literalmente, quando estávamos indo para o campo, Ranieri dizia o que queria fazer e mudávamos”, explica. “Falávamos: ‘ok, vá em frente, pode assumir’. Mas ele dizia: ‘não, não, não, pode assumir’. E ele nos dizia para fazer uma sessão com o que ele queria e não sabíamos o que era. Tivemos que nos adaptar. Também temos que dar crédito aos jogadores. Eles meio que se policiaram ano passado. Eles se administraram muito bem”.

Para Phillips, isso mostra como Shakespeare consegue se adaptar a situações complicadas, o que é certamente o caso atualmente. Apesar das duas vitórias seguidas, o Leicester ainda está a apenas três pontos da zona de rebaixamento e enfrenta o Sevilla, na terça-feira, por uma vaga nas quartas de final da Champions League, depois de ter sido derrotado, na Espanha, por 2 a 1.

“Ele tem esse talento”, explicou. “Isso vem de estar no meio há muito tempo e trabalhar com pessoas experientes. Shakey é muito bom em se misturar com os jogadores, mas sem ficar muito próximo deles, e isso é realmente importante. Ele não tinha medo de dar bronca na frente do grupo se alguém fizesse algo errado.  Já vi várias vezes, quando um assistente é colocado no comando, alguns jogadores tentando assumir o comando um pouco, pensando que ele estará ali por um curto período. Mas certamente parece que ele (Shakespeare) ganhou o respeito dos jogadores”.

Não é incomum que o auxiliar, mais próximo dos jogadores, seja responsável por colocar panos quentes quando há rusgas com o técnico principal. E quando essas rusgas são incontornáveis, e a demissão, inevitável, assumir o comando e alcançar algum sucesso na base do bom relacionamento. Esse cenário Shakespeare parece ter dominado. O principal desafio é quando a temporada terminar e, caso ele permaneça no comando do Leicester, chegue a hora de tomar decisões difíceis, sobre quem vender, quem comprar, quem colocar na reserva, e de montar uma equipe que reflita as suas próprias características.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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