ColunasInglaterra

Sem título, treinador e Superliga, restaram ao Tottenham apenas perguntas sobre seu futuro

Quatro perguntas cujas respostas definirão o que os Spurs podem fazer nos próximos anos

Graças ao seu apoio, as colunas das cinco grandes ligas da Europa estão de volta, começando pela , com informações e análises sobre o futebol inglês. Faça parte do nosso financiamento coletivo no Apoia.se e nos ajude a bater mais metas.

Os meios foram condenáveis, os méritos são discutíveis, e o quanto funcionaria na prática era incerto, mas o Tottenham começou a semana passada achando que havia assegurado seu lugar entre a elite do futebol europeu, independentemente da posição que chegasse na Premier League nos próximos anos, ao aceitar fazer parte da Superliga. Isso desapareceu em 48 horas.

José Mourinho está entre os treinadores mais glamorosos e vitoriosos da Premier League durante a administração de Daniel Levy. Era natural o desejo de contar com ele, se uma hora pintasse a oportunidade. Também era óbvio que essa chance apareceria apenas em um momento de baixa do português. A decisão muito pessoal de Levy não foi tão absurda quanto parece agora porque, mesmo na decadência recente, Mourinho sempre foi capaz de arrancar um ou outro troféu por onde passou e precisava apenas guiar a base deixada por Mauricio Pochettino. O Tottenham pode ter calculado que se contentaria com apenas um para sacramentar sua evolução e depois pensaria no futuro. Não rolou. A passagem de Mourinho durou apenas 17 meses.

Ele foi demitido na última segunda-feira, dias antes da final da Copa da Liga Inglesa contra o Manchester City. A zebra não era completamente impossível. Em novembro, os Spurs venceram o City por 2 a 0 com autoridade. Sim, era outro Tottenham e outro City, mas bastava encontrar aquele espírito mais uma vez. Logo, será que o Tottenham demitiu Mourinho achando que lhe daria mais chances de vencer ou porque temia que o título o obrigaria a suportar por mais tempo um treinador que havia deixado o vestiário dividido e o time aos pedaços?

O interino Ryan Mason comandou a semana da decisão e, apesar de dominado pelo adversário, deixou o título indefinido durante 82 minutos. O gol de Aymeric Laporte, porém, fez justiça ao que aconteceu em campo e impediu que o Tottenham conquistasse seu primeiro troféu desde 2007/08. Ou o terceiro desde a Copa da Inglaterra de 1990/91, o último que saiu em uma competição de maior importância.

O Tottenham acordou nesta segunda-feira sem um lugar na Superliga, porque no momento ela não existe mais, sem treinador e sem título. O que sobrou? Apenas perguntas que definirão o futuro do clube.

Quem será o próximo treinador?

Maurizio Sarri, na época de Juventus (Foto: Getty Images)

Tudo começa por essa resposta. O favorito nas casas de aposta neste momento é Maurizio Sarri. Experiente, seu estilo de jogo seria um racha em relação a Mourinho, nem tanto com Pochettino, mas não é a escolha que mais empolgaria os torcedores pelos seus últimos dois trabalhos por Chelsea e Juventus, com bons momentos, mas também longe do que se esperava. O nome que surgiu mais forte imediatamente após a demissão de Mourinho foi o de Julian Nagelsmann. Começam a surgir notícias de bastidores de que o jovem comandante do RB Leipzig já tem um acordo com o Bayern de Munique. Se esse for mesmo o caso, está fora do alcance do Tottenham. Outro profissional de alto calibre seria Massimiliano Allegri, com duas finais de Champions Leagues e uma dúzia de títulos pela Juventus. Está mais próximo, porém, de retornar à Velha Senhora.

Esses são os nomes mais óbvios que estão no mercado e relacionados ao Tottenham. A melhor decisão de Daniel Levy, no entanto, foi quando teve um pouco mais de imaginação e buscou um jovem promissor treinador do Southampton. Ralph Hasenhüttl não é mais tão jovem, mas é promissor e também cumpre o requisito de ser treinador do Southampton. Tem experiência em um nível mais alto pela sua passagem no RB Leipzig. Austríaco, ele dialoga bem com a escola alemã, representada neste momento por Nagelsmann, e já foi muitas vezes comparado com Jürgen Klopp. Nessa mesma linha, uma aposta mais arriscada, mas acessível, seria Roger Schdmith, com trabalhos irregulares no Bayer Leverkusen e agora no PSV, mas com certo potencial.

Olhando para dentro da Premier League, o nome dos sonhos seria Brendan Rodgers, com experiência de Big 6 pelo Liverpool, currículo de campeão pelo Celtic e capacidade de fazer um time atuar acima dos seus recursos, como está demonstrando no Leicester. Mas, confortável no King Power Stadium, e próximo de levar as Raposas à Champions League, não parece provável que aceitaria uma proposta do Tottenham.

Mirando um pouco mais para baixo, existem dois nomes que podem interessar, mas com propostas distintas. Nuno Espírito Santo seria um pouco uma continuação do time de Mourinho, caso repetisse o que faz no Wolverhampton. De maneira mais eficiente e organizada, trata-se de um time que defende muito bem e machuca nos contra-ataques. Se preferir priorizar a troca de passes, poderia analisar Graham Potter. O seu trabalho à frente do Brighton é muito interessante e sempre passa a impressão de que esbarra na falta de material humano. Mais uma opção seria Eddie Howe, desempregado desde que deixou o Bournemouth. Também ofensivo, um pouco mais anárquico.

Um nome mais experiente ou mais promissor? Um estilo mais propositivo, mais reativo ou mais equilibrado? Não são as únicas opções, claro, são linhas gerais com diferentes tons de cinza entre si. O mais importante é o Tottenham saber o que quer. 

Kane e Son ficam?

São personalidades fortes que sempre respeitaram o Tottenham e demonstraram estar confortáveis no clube em suas declarações públicas, mas, a cada temporada que termina sem título, é impossível não questionar quanta paciência os dois craques do time ainda terão. Era claro que iriam até o fim com Mauricio Pochettino. Deram uma chance para José Mourinho, especialmente Kane, o maior defensor interno do português mesmo nos momentos finais em que metade do vestiário estava insatisfeito com ele. Terão disposição para embarcar em mais uma tentativa? Com 27 (Kane) e 28 anos (Son), haveria tempo de pagar para ver o que acontece com o próximo treinador e ainda sair com idade boa daqui a umas duas temporadas para um clube mais forte. Kane é bastante especulado no Manchester City neste momento, o que seria um golpe muito duro aos torcedores dos Spurs. Ao fim da Copa da Liga Inglesa, a imagem mais marcante foi o choro de Son. Por um lado, mostra o quanto ele se importa com o Tottenham. Por outro, também pode ser interpretado que ele não tem certeza se terá mais uma chance de ser campeão pelo clube do norte de Londres.

Como será o mercado do Tottenham?

Esta é cheia de condicionais. A primeira é a resposta à pergunta anterior. Caso Kane e Son saiam, ou pelo menos um deles, haverá mais fundos disponíveis e também necessidade de encontrar mais protagonistas para o time. Caso o Tottenham dispute a Champions League, a Liga Europa, a Conference League ou nenhuma competição europeia, haverá diferentes níveis de orçamento para transferências. Isso posto, a principal dúvida é em relação ao perfil dos reforços. Mourinho pediu jogadores mais experientes que pudessem imediatamente entrar no time titular, como Matt Doherty, Sergio Reguilón e Hojbjerg, e foi atendido. No entanto, para um clube como o Tottenham, com poder de investimento alto, mas não do nível dos seus concorrentes, há mais valor em reforços jovens e baratos que podem se valorizar em um clube importante da Premier League. O processo com eles é mais longo e pode entrar em conflito com os cronogramas de Kane, Son, do novo treinador ou mesmo de Daniel Levy, cada vez mais desesperado em ser campeão de alguma coisa. Outra pergunta importante é se o Tottenham manterá Gareth Bale. O empréstimo do galês tem sido de altos e baixos. Ele deu bons sinais em fevereiro e voltou a atuar pouco no último mês. Dependerá muito do salário que aceitaria receber e de quanto o Real Madrid pediria pelos seus direitos. 

Há como Daniel Levy reparar a relação com os torcedores?

Daniel Levy, presidente do Tottenham (Foto: Julian Finney/Getty Images)

Daniel Levy teve 20 anos relativamente bem tranquilos à frente do Tottenham. Tinha bastante espaço para trabalhar também porque o clube estava abaixo do seu potencial. Ganhou um título em 2007/08, o que hoje em dia não parece grande coisa, mas era o primeiro desde 1999, conquistou classificações consecutivas à Champions League, chegou a uma final da maior competição europeia e construiu um estádio moderno que será importante para solidificar as receitas no futuro. Acertou em cheio com Pochettino, que levou ao norte de Londres um futebol empolgante e desenvolveu ídolos como Kane e Son. No meio do caminho, o momento de maior atrito foi a tentativa de mudar os Spurs para o leste de Londres, quando o Estádio Olímpico ficou disponível.

Agora, porém, Levy tem que lidar com as repercussões do fiasco da Superliga. Os holofotes voltaram-se para protestos muito maiores de torcedores de Chelsea e Arsenal, mas alguns do Tottenham também se manifestaram na semana passada. Pediram a cabeça de Levy e a saída da ENIC International, empresa pela qual ele controla as ações do Tottenham ao lado do sócio Joe Lewis. É difícil medir o nível de insatisfação entre milhões de pessoas, mas a Superliga se junta a outras frustrações. Toda a evolução que ele supervisionou parece ter batido no teto. Dificilmente haverá Champions League pela segunda temporada seguida e aquela Copa da Liga segue sendo o único troféu que conquistou. A contratação de Mourinho, uma aposta pessoal de Levy, não deu certo e sempre parece que o Tottenham precisa se esforçar mais para acompanhar os outros grandes – embora, recentemente, tenha superado o Arsenal, em campo e nas receitas, o que não é pouco importante para os seus torcedores.

Levy é o presidente mais longevo da Premier League e conhecido por ser duro nas negociações. O protesto de alguns torcedores não o levará a vender o clube pelo qual tanto trabalhou. Mas também é fato que este é o momento em que a relação está mais desgastada em duas décadas, um pouco por causa do tempo, o que é natural, e um pouco por causa dos seus próprios erros.

.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo