Inglaterra

Se Chelsea queria poder de fogo, encontraria poucos jogadores mais produtivos que Sterling

O atacante inglês de 27 anos trocou o Manchester City pelo Chelsea por £ 50 milhões e foi anunciado nesta quarta-feira

Vamos começar admitindo que ele não é perfeito. A finalização melhorou muito desde que trocou o Liverpool pelo Manchester City, mas ainda perde gols em demasia. Mas são os gols que ele converte que levaram o Chelsea a perseguir Raheem Sterling. Desde 2015/16, apenas seis jogadores marcaram mais pela Premier League. Se Thomas Tuchel estava procurando mais poder de fogo, pouca gente disponível tem um currículo mais qualificado que o atacante de 27 anos da seleção inglesa.

Abre parênteses. Esses seis são Kane, Salah, Mané e Son, quatro indisponíveis, Sergio Agüero, aposentado, e Jamie Vardy, provavelmente disponível pelo preço certo, mas com uma idade muito avançada. Fecha parênteses.

Sterling assinou contrato por cinco temporadas com os Blues e foi anunciado nesta quarta-feira. Retorna a Londres, onde morou quando chegou com a família da Jamaica ainda criança, à sombra do estádio Wembley. Estava entrando nos 12 últimos meses do seu contrato com o Manchester City e pediu aos chefes para facilitar uma saída porque queria um novo desafio. Queria também voltar a ser uma peça central de um grande time, o que havia deixado de ser no Etihad Stadium.

O City não foi ingrato com um dos maiores jogadores da sua história. Entendeu suas ambições. Sterling chegou do Liverpool na era Manuel Pellegrini ainda como um produto bruto, em uma controversa e cara transferência, o jogador inglês mais caro da história naquela época que trocava o clube que o formou pelo caminho mais fácil para os títulos. Com Guardiola, passou por uma revolução. Tornou-se um jogador mais completo, com melhores tomadas de decisão e finalização.

Em sete temporadas, marcou 131 gols. É o décimo maior artilheiro da história do City, e com dois golzinhos a mais pularia duas posições, à frente de Billy Gillespie e Fred Tilson. Entrou 339 vezes em campo, entre os 30 jogadores que mais defenderam o clube. Campeão 11 vezes, incluindo quatro Premier Leagues. Nunca deixou de fazer pelo menos 10 gols em uma temporada e passou de 20 três anos seguidos, também com média de dez assistências por campanha.

Mas perdeu espaço. Começou em janeiro de 2021. O City caminhava à final da Champions League, e de repente ele parou de ser utilizado nos principais jogos – e foi titular na decisão contra o Chelsea, uma dessas anomalias de uma mente que pensa muito como a de Guardiola. O que poderia ter sido uma momentânea queda de forma confirmou-se na temporada seguinte, quando Sterling teve menos minutos em campo desde aquele primeiro ano com Manuel Pellegrini.

Não é que nunca jogou, mas ficou claro que nos momentos principais havia outros jogadores à sua frente. Apareceu durante menos de meia horas nas duas semifinais contra o Real Madrid. Saiu do banco no jogo decisivo contra o Atlético de Madrid na fase anterior. Fez apenas 23 jogos como titular. Ele entendeu a mensagem e se colocou no mercado. O City concordou em deixá-lo sair se aparecesse uma boa proposta. Houve a possibilidade de um empréstimo em janeiro que não se concretizou. Conseguir recuperar praticamente tudo que pagou (£ 50 milhões), a um ano do fim do contrato, é financeiramente um ótimo negócio para os campeões ingleses.

O Barcelona chegou a estar na jogada. É curioso como o Barcelona se interessa por todos os grandes jogadores do mundo, mesmo quebrado. Mas quando o Chelsea apareceu com um forte interesse liderado pelo técnico Thomas Tuchel, era difícil concorrer. Por três motivos: a ambição do clube de ser um dos principais da Europa; voltar a Londres seria bacana; e a questão financeira: Sterling receberá £ 300 mil por semana, o maior salário do elenco azul.

Há um quarto: esportivamente, ele pode voltar a ser um dos protagonistas no Chelsea. Tuchel conquistou a Champions League e a última temporada foi relativamente boa considerando que em certo momento houve sérias dúvidas se havia dinheiro disponível para pagar diárias de hotéis. Mas em todo esse processo, gols foram escassos. A contratação de Romelu Lukaku foi uma primeira tentativa de solucionar esse problema no mercado. Um artilheiro que estava na melhor fase da sua vida como a peça final do quebra-cabeça. Não deu certo em vários níveis e por vários motivos. Lukaku voltou à Internazionale.

Agora, Tuchel está buscando um caminho diferente. O interesse por Sterling e por Raphinha, que acabou preferindo o Barcelona, indica o desejo por atacantes mais leves, que podem atuar em várias posições, incluindo pelos lados se o alemão adotar linha de quatro, e que tenham capacidade de colocar a bola na rede. Ou pelo menos mais capacidade do que a quantidade assustadora de atacantes do Chelsea que não conseguem fazer isso regularmente.

Os números na última Premier League foram desanimadores. Mount foi o artilheiro com 11 gols e ele nem joga exatamente no ataque. Havertz o seguiu, com oito, junto com Lukaku. Depois disso, entre Pulisic, Ziyech, Timo Werner e Hudson-Odoi (muitas vezes ala-direito), ninguém demonstrou muita classe diante do goleiro. A observar qual será o próximo passo do Chelsea após não conseguir Raphinha, mas tudo indica que a ideia de Tuchel é contratar dois atacantes para se juntar a Havertz para montar um ataque que se movimente, tenha velocidade e técnica, consiga trocar constantemente de posição e fazer gols.

Sterling é perfeito para esse papel. Existe uma dúvida razoável se o crescimento dele se deve mais à criação industrial de chances que o estilo de Guardiola produz ou se houve realmente tanta melhora individual – alguma, com certeza. Vamos descobrir. O preço foi relativamente baixo. A mesma coisa de sete anos atrás por um jogador muito mais estabelecido e em um mercado muito inflacionado. Sterling tem experiência em dois clubes grandes, mais do que acostumado com a pressão, conhece a Premier League melhor do que quase todos os jogadores do Chelsea e sabe como vencê-la.

Um negócio raro entre dois concorrentes diretos. A facilidade com que o City permitiu que ele se transferisse a um outro integrante do Big Six é uma prova da estima que Sterling ainda mantém no Etihad Stadium. Uma estima muito merecida. O Chelsea nem precisou pensar muito. O preço era ok, o técnico estava afim e, mesmo que toda contratação tenha um certo nível de risco, a de Sterling é o mais próximo de um negócio certo possível, pela maneira como se provou um dos melhores e mais reguladores jogadores da Premier League nos últimos anos.

Nos termos do novo dono do Chelsea, Todd Boehly, que acabou de fechar sua primeira contratação de futebol, um home run.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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