Inglaterra

Reformular, mudar, ou…

 A competência de Arsène Wenger como técnico de futebol é incontestável. O francês chegou ao Arsenal em 96 e, na temporada seguinte conquistou seu primeiro “Double” de Premier League e FA Cup. O time já contava com um dos pilares do time de 2003/4, mas ainda era basicamente o time montado por George Graham, treinador que ganhara dois campeonatos em 89 e 91. Em 2001, Wenger promove uma reformulação significativa no elenco, trazendo os outros três pilares: Sol Campbell, Thierry Henry e Robert Pires.

Os títulos falam sozinhos: novo Double em 2002, título invicto em 2004. Em 2003, a FA Cup, repetida (pela quarta vez) em 2005. E os números de transferência só adicionam à fama: Nicolas Anelka, contratado por 500 mil e vendido por 22,3 milhões de libras; Marc Overmars, comprado por 5,5 e vendido por 25 mi; Sol Campbell, adquirido por 0 libras; Pires, comprado por 6 mi; e, finalmente, Henry, comprado por 10 mi e vendido “usado” por 20 mi.

Não há treinador no planeta, nem mesmo Alex Ferguson, que tenha conseguido gerar tanto dinheiro e ganhar tantos títulos ao mesmo tempo. O francês é uma lenda ao clube, e já inscreveu seu nome na história dos grandes de todos os tempos. Com um histórico desses, fica fácil imaginar Wenger envelhecendo em Ashburton Grove, certo? Bem, nem tanto.

A possibilidade de que o treinador do Arsenal deixe a equipe em breve não existe nem como rumor. Seu contrato vai até o final da próxima temporada, e é provável que, se depender do clube, seja renovado. As derrotas, com um time cheio de adolescentes, diante do Manchester United na semifinal da LC e diante do Chelsea, em casa, por 4 a 1, porém, obriga clube e técnico a instalarem um grande ponto de interrogação em suas mentes. A questão é simples: o modelo que deu certo no passado pode dar certo sempre? E, em caso negativo, qual é o modelo para o futuro?

O modelo até poderia dar certo, mas a sorte que ajudou Wenger a pinçar os franceses barato e eles chegarem “arrebentando”, pelo jeito acabou lá. Todas as contratações seguintes, pelo menos até Arshavin, não corresponderam ao que se esperava. Podemos começar com Reyes, passar por Hleb e esbarrar em Van Persie. E acabaremos chegando a Theo Walcott. Afinal de contas, aos 20 anos, o menino já não devia estar jogando um pouco mais?

A quantidade de jovens que podem vir a ser bons no elenco dos Gunners é assustadora. Faltam, porém, jogadores experientes, que possam trazer um ponto de equilíbrio ao time. Se o problema é dinheiro, não há porque pensar em craques consagrados. Há, entretanto, jogadores de qualidade e experiência no mercado a preços que o Arsenal pode pagar.

A incorporação de Arshavin manda um recado: o de que o clube tem consciência dos limites de seu modelo, e está disposto a investir. A começar pelo gol, o Arsenal precisa de jogadores testados e aprovados, mesmo que não sejam os melhores do mundo em suas posições. A distância entre os “top four” e o resto é hoje em dia tão gigantesca que Wenger pode ter razoável tranqüilidade para trabalhar sem perder sua vaga na LC. A torcida do Arsenal, porém, que o idolatra, não vê um caneco desde a FA Cup de 2005. Até o Tottenham já ganhou alguma coisa no período…

Para Wenger, a questão deve ser outra. Como já dissemos acima, o francês já inscreveu seu nome na história do clube e do futebol. Tem, e ninguém pode duvidar disso, totais condições de voltar a vencer com os Gunners. Terá, entretanto, motivação para isso? Em maio do ano que vem, quando se encerrar a próxima temporada, terá 60 anos. É pouco provável que não receba propostas milionárias de todos os clubes ricos do mundo. Não quereria o treinador respirar novos ares?

Pode ser que sim, mas é provável também que isso dependa de quais forem os ares. Aos 60 anos e no auge, é difícil imaginar Wenger querendo voltar para Strasbourg para plantar uvas. Assim como é difícil imaginá-lo em um clube do tipo “curto prazo”, como o Real Madrid.

O piti do melhor do mundo (título homenagem ao Divicionário)

Tanto Cristiano Ronaldo como Tevez resolveram dar seus “pitis” no dérbi deste domingo contra o City. CR deu um showzinho ao ser substituído, enquanto Tevez, que tem dito até para jornal de bairro que não vai ficar no clube porque o United não faz questão, comemorou seu gol provocando o “board” mancuniano. E ambos podem, mesmo, estar deixando Old Trafford.

Sobre Tevez a situação é relativamente mais clara: para ficar com o argentino, o United teria que pagar 22 milhões de libras. Para quem pagou 50% a mais por Berbatov, parece não fazer mesmo o menor sentido. Daí a irritação de Carlitos, que queria ver sua vida resolvida logo.

A relutância do United pode ter algumas explicações. A mais adequada, embora menos provável, seria a de que Sir Alex Ferguson não faz questão de ter o argentino no elenco. Está feliz com Berbatov e Rooney, e acha que Tevez não vale tanto. Qualquer um, porém, que compare o desempenho dele com o de Berbatov achará difícil acreditar nisso. Uma outra possibilidade é a de que o United não queira pagar mais do que outros clubes pagarão para ficar com o jogador. Como ficará sem contrato no final da temporada, Tevez poderá ir, por exemplo, para o Real Madrid ou para o Manchester City por um valor bem menor do que os 22 milhões que o United teria que pagar. Nesse caso, Ferguson pode simplesmente se recusar a pagar mais do que os outros pelo mesmo jogador, o que faz sentido.

Uma terceira possibilidade, entretanto, é que os Red Devils estejam enxergando alguma questão legal que está escapando à atenção da imprensa. A situação de Carlitos em Manchester é precária porque, em tese, e para garantir o dinheiro de Kia Joorabchian, o argentino é jogador do West Ham emprestado ao United. A questão é tão complicada que gerou uma disputa judicial entre West Ham e Sheffield United. Em princípio, a questão já foi resolvida pela FA, e a regra para situações como aquela foi seguida pelos mancunianos. A passividade, entretanto, com que assistem um jogador desta qualidade simplesmente escorregar por entre os dedos faz supor que eles sabem algo que ninguém mais sabe.

O United deveria fazer ainda mais questão de ter Tevez se é verdade o que publicou recentemente o Guardian: as negociações para a venda de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid já teriam sido concluídas com sucesso, e os vendedores inclusive já teriam feito proposta milionária para tirar Ribéry de Munique para preencher o lugar de CR no time.

CR tem dito que está se sentindo bem no clube, e que quer ficar. Sua palavra, porém, não tem muito valor em casos como este. O que se diz na Inglaterra é que, na temporada passada, Sir Alex Ferguson teria dito ao jogador que não o venderia naquele momento, obrigado a isso, mas que, se fosse mesmo esse o desejo do português e se este agisse de maneira decente, o venderia no final desta temporada.

Faz sentido porque: 1- é verossímil; 2- foi o Guardian, e não o Sun, que publicou; 3- CR tem o perfil de ser humano que não vai agüentar passar os melhores momentos de sua vida de baladeiro em Manchester quando poderia estar na célebre “movida” madrilena.
A leitura, porém, de que o “piti” teria sido uma maneira de forçar a barra para sair é equivocada. O jogador pode simplesmente estar e libertando da tirania fergusoniana aos poucos, já sabendo que vai sair – e que poderia jogar, no máximo, mais três partidas sob o comando do escocês. Mas não correria o risco de irritar seu comandante. Mais do que ninguém, Ronaldo sabe o quanto o treinador manda em Old Trafford, e o quanto seria capaz de melar uma transferência certa só para “dar uma lição” em um desafeto.

O atacante não vai correr o risco de estragar sua boa vida por causa de um destempero.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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