Recheada de bons talentos, Inglaterra fatura o Mundial Sub-20 e aponta para o futuro
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Como não acontecia desde 1966, a Inglaterra voltou a subir ao alto do pódio em uma competição internacional. Pode não ser a Copa do Mundo, mas o Mundial Sub-20 já tem um significado imenso aos Three Lions. Justamente as categorias de base, que costumam ser relegadas em tempos endinheirados da Premier League, levam o país ao topo. E não há muito a se discutir sobre os méritos dos ingleses no torneio da Coreia do Sul, com uma campanha praticamente irrepreensível. Depois de cinco vitórias e um empate nas fases anteriores, os ingleses se impuseram contra a fortíssima Venezuela na decisão em Suwon. Triunfo por 1 a 0, garantido no primeiro tempo graças a Dominic Calvert-Lewin, mas que poderia ter sofrido reviravoltas na excelente etapa complementar. Uma geração vitoriosa que, agora, busca o seu lugar ao sol também nos clubes.
Primeira colocada em um grupo duríssimo, vencendo a anfitriã Coreia do Sul e eliminando a Argentina, a Inglaterra pegou embalo ao longo da competição. Nos mata-matas, conseguiu superar os obstáculos fase a fase. Derrotou Costa Rica e México, até conquistar um triunfo emblemático sobre a Itália nas semifinais. E então o grande desafio viria contra a Venezuela, motivada por três classificações cardíacas na fase final, apesar do desgaste também por ter enfrentado três prorrogações. Então, pesou a capacidade coletiva do time treinado por Paul Simpson, bastante consistente na defesa e aproveitando a potência de seu ataque.
Durante o primeiro tempo, a Inglaterra começou melhor. Conseguia explorar melhor os espaços, com Dominic Solanke e Ademola Lookman chamando a responsabilidade. A Venezuela, entretanto, por muito pouco não abriu o placar. Em uma cobrança de falta próxima do círculo central, Ronaldo Lucena arriscou uma bomba em direção ao gol e carimbou o poste. Apenas um susto, já que os ingleses merecidamente construiriam a vantagem aos 34 minutos, com Calvert-Lewin. O atacante do Everton teve grande liberdade dentro da área, arrematando duas vezes até vencer o goleiro Wuilker Fariñez.
A Venezuela voltou com outra postura na segunda etapa. A entrada de Yeferson Soteldo empurrou a equipe ao ataque e o camisa 10 por pouco não ofereceu o passe ao empate, com o goleiro Freddie Woodman saindo muito bem para fazer a defesa. Do outro lado, os ingleses responderam e quase ampliaram com um chutaço de Josh Onomah que estalou o travessão. De qualquer maneira, o time de Rafael Dudamel era superior e poderia ter empatado aos 27 minutos, em pênalti anotado a seu favor – e confirmado graças ao auxílio do vídeo. Craque da equipe, Adalberto Peñaranda sublinhou sua péssima jornada em Suwon. Individualista demais, desperdiçou diversos lances com a bola rolando. E a cobrança a meia altura parou nas luvas salvadoras do goleiro Woodman. A partir de então, coube aos Three Lions gastarem o tempo, mesmo criando algumas chances a mais. Resultado merecido, selando o campeão.
Apesar do desgosto pela derrota, a Venezuela deixa o Mundial de cabeça erguida. O trabalho de Dudamel à frente da nova geração da Vinotinto foi excelente, com grande repertório e jogadores talentosos para aparecer no primeiro nível em breve. Com o trabalho de transição comandado pelo próprio ex-goleiro, a evolução de muitos destes garotos não deve demorar a acontecer. Algo necessário para a seleção venezuelana, que decepciona na atual campanha das Eliminatórias, especialmente pelo fraco início.
Já a Inglaterra vê novas perspectivas, em um final de temporada dourado para as suas categorias de base. No sábado, o sub-21 dos Three Lions conquistou o bicampeonato do tradicional Torneio de Toulon, enquanto dias atrás o sub-17 já tinha sido vice-campeão do Campeonato Europeu da categoria. Nada comparado ao que se alcançou neste domingo, na Coreia do Sul. Vários nomes mostraram ter qualidade e chão para se desenvolver, apontando-se como apostas úteis aos clubes da Premier League.
Bola de Ouro da competição, o camisa 10 Dominic Solanke deve atrair os holofotes para si, especialmente após acertar sua transferência do Chelsea ao Liverpool rumo à próxima temporada. O meia será companheiro em Anfield de Sheyi Ojo, útil em diversos jogos do Mundial a partir do segundo tempo. Já ganhando oportunidades com Ronald Koeman, Lookman e Calvert-Lewin se reafirmam como opções ao Everton, ao lado do ponta Kieran Dowell. Têm a sorte de figurar em um clube que vem dando espaço aos jovens, assim como o volante Josh Onomah e o lateral Kyle Walker-Peters, ambos do Tottenham. O Bournemouth recebe de volta o capitão Lewis Cook, enquanto o Newcastle contratou recentemente o goleiro Woodman, que disputou o último Campeonato Escocês. Maior dúvida fica para a dupla de zaga composta por Fikayo Tomori e Jake Clark-Salter, ambos do Chelsea, onde tendem a brigar mais pela ascensão. Pelo amadurecimento demonstrado na competição e pelo espaço que já têm entre os profissionais, Lookman e Onomah se colocam um passo à frente para serem acompanhados nos próximos meses.
Não dá para negar que as boas campanhas recentes da Inglaterra na base refletem o investimento feito nas academias dos clubes ao redor do país, dentro de uma política da Football Association voltada ao desenvolvimento de jogadores. Além disso, entra na conta o próprio aprimoramento da estrutura das seleções, com a inauguração do St. George’s Park National Football Centre auxiliando a integração de diferentes categorias. Algo que pode respingar de maneira bem mais positiva na Premier League, a partir da afirmação das promessas locais. A enorme pressão e a falta de paciência para que um jogador amadureça são problemas claros no primeiro nível. Entretanto, a campanha e a conquista no Mundial Sub-20 deixam claro que há material para se aproveitar. Empurrão pertinente para evidenciar o que acontece além das grandes estrelas. Dentro de alguns anos, será a seleção adulta que vai agradecer.