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Prodígio e ‘filho’ da Red Bull: Quem é Matthias Jaissle, possível novo técnico do Newcastle

Aos 38 anos, alemão chega perto de assumir os Magpies após conquistar a Ásia pelo Al Ahli e ser influenciado pela escola Red Bull

Durante anos, Matthias Jaissle foi visto como um dos treinadores mais promissores da nova geração alemã. Ainda muito jovem, levou o Red Bull Salzburg às oitavas de final da Champions League, conquistou títulos nacionais e parecia destinado a seguir o caminho de tantos treinadores formados na escola Red Bull rumo aos principais bancos da Bundesliga.

Em vez disso, tomou uma decisão que surpreendeu o futebol europeu. Em 2023, trocou o Salzburg pelo Al Ahli, da Arábia Saudita, quando tinha apenas 35 anos. Três temporadas depois, pode chegar a um Newcastle em ritmo de crise como campeão da Champions League Asiática.

Os Magpies podem receber mais do que um treinador jovem. Jaissle é técnico cuja identidade tática foi moldada por Ralf Rangnick, mas que aprendeu, ao longo da carreira, que sobreviver no futebol de elite exige muito mais do que seguir uma cartilha.

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Jaissle teve carreira influenciada diretamente por Ralf Rangnick

A trajetória de Jaissle como treinador começou antes do esperado. Como zagueiro, era considerado uma das promessas do Hoffenheim que surpreendeu a Alemanha sob o comando de Ralf Rangnick. Chegou a defender a seleção alemã sub-21 e participou da ascensão meteórica do clube até a Bundesliga.

Tudo mudou em 2009. Uma grave ruptura do ligamento cruzado anterior praticamente encerrou sua carreira. Depois de sucessivas tentativas de recuperação, decidiu se aposentar aos 26 anos. E foi justamente Rangnick quem abriu uma nova porta.

O então diretor esportivo do RB Leipzig convidou Jaissle para integrar o processo de formação de treinadores do grupo Red Bull. O alemão passou pelas categorias de base do Leipzig, trabalhou como auxiliar de Sebastian Hoeness e depois seguiu para o Brondby antes de retornar ao universo Red Bull para comandar o sub-18 do Salzburg.

Jaissle pelo Al Ahli (Foto: IMAGO / Naushad)

Em pouco tempo, subiu para o Liefering e, meses depois, herdou o comando do próprio Salzburg após a saída de Jesse Marsch, que comandou o Canadá na última Copa do Mundo. Tinha apenas 33 anos.

É impossível entender Jaissle sem compreender a influência de Ralf Rangnick. O alemão costuma dizer que gosta de pressionar o adversário o mais cedo possível e atacar imediatamente após recuperar a posse, uma definição praticamente idêntica aos princípios que transformaram Rangnick em um dos pais do futebol moderno de pressão.

Enquanto muitos treinadores da escola Red Bull ficaram presos à ideia de intensidade constante, Jaissle desenvolveu um entendimento mais amplo do jogo, principalmente depois das experiências na Champions League e na Arábia Saudita. Em entrevista ao “The Athletic”, o treinador resumiu sua filosofia de forma bastante direta.

“Quando recuperamos a bola, queremos atacar o gol rival o mais rapidamente possível. Gosto de um futebol muito vertical.”

A verticalidade, porém, nunca aparece de maneira caótica. Suas equipes procuram recuperar a bola perto do gol adversário, mas também sabem construir ataques mais longos quando o contexto exige — e essa talvez seja sua principal evolução nos últimos anos.

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Pressão alta continua sendo a identidade, no estilo Red Bull

No Salzburg, Jaissle herdou um elenco montado para pressionar. Como praticamente todos os treinadores da estrutura Red Bull, utilizava linhas altas, perseguições agressivas e tentava sufocar a saída de bola rival desde os primeiros segundos da jogada.

A ideia não era apenas recuperar rapidamente a posse, mas recuperar em posições que permitissem atacar imediatamente. O Salzburg frequentemente defendia muito longe do próprio gol e aceitava correr riscos para manter o adversário permanentemente desconfortável.

A pressão também era extremamente coordenada: os atacantes iniciavam o movimento fechando linhas de passe para o volante rival, enquanto os meio-campistas saltavam agressivamente sobre os receptores. Atrás deles, a linha defensiva permanecia alta para compactar o campo.

Jaissle em treino do Al Ahli
Jaissle em treino do Al Ahli (Foto: IMAGO / Naushad)

Talvez o maior mérito de Jaissle seja justamente ter percebido que nem sempre é possível pressionar durante 90 minutos. Na Champions League isso ficou evidente: contra equipes como Chelsea e Milan, o Salzburg precisou alternar momentos de pressão alta com blocos médios e até fases de defesa mais baixa.

Segundo o próprio treinador, foi justamente essa experiência que mudou sua maneira de enxergar o futebol. Ele reconheceu que precisou abandonar parte do idealismo dos primeiros anos de carreira — e que em algumas partidas era necessário baixar as linhas, proteger melhor a área e esperar o momento certo para acelerar novamente.

Essa flexibilidade reapareceu no Al Ahli. Embora mantivesse princípios agressivos, seu time passou a variar muito mais o comportamento sem bola, alternando pressão alta, bloco médio e ataques organizados conforme o adversário.

O Newcastle pode encaixar perfeitamente no perfil do treinador

Caso a chegada seja confirmada, Jaissle encontrará um cenário bastante diferente daquele do Salzburg, mas curiosamente parecido com alguns aspectos do Al Ahli.

O Newcastle também reúne jogadores de perfis diversos, apesar de vários deles estarem cotados para sair, como Bruno Guimarães e Joelinton, para além dos que já saíram, como Anthony Gordon e Sandro Tonali. Mas, recentemente, se tornou um elenco que parece adequado para um treinador que valoriza intensidade, mas não abre mão da posse de bola.

Além disso, Jaissle não representa uma ruptura completa com o trabalho desenvolvido por Eddie Howe. O Newcastle já era uma equipe extremamente intensa sem bola e Howe construiu uma identidade baseada em pressão, transições rápidas e enorme compromisso coletivo.

A diferença está na forma de controlar os jogos. As equipes de Jaissle costumam apresentar estruturas posicionais mais organizadas com a bola, alternando momentos de aceleração com períodos maiores de circulação para atrair o adversário antes de atacar os espaços.

Joelinton foi titular no Derby de Tyne-Wear (Foto: Imago/Pro Sports Images)
Joelinton pode deixar o Newcastle (Foto: Imago/Pro Sports Images)

Essa influência vem tanto da escola Red Bull quanto do aprendizado adquirido enfrentando adversários superiores tecnicamente na Champions League e comandando um elenco muito mais técnico na Arábia Saudita. O resultado é um treinador menos dogmático do que muitos imaginam.

Quando trocou o Salzburg pelo Al Ahli, muita gente acreditou que Jaissle havia interrompido prematuramente sua evolução. Ele próprio admitiu, na mesma entrevista ao The Athletic, que pensou na possibilidade de desaparecer do radar europeu.

Mas, além do título continental asiático, Jaissle passou a administrar elencos repletos de estrelas, precisou adaptar princípios táticos a jogadores de diferentes culturas futebolísticas e aprendeu a sobreviver em um ambiente de enorme pressão por resultados.

Tudo isso pode fazer dele um treinador mais completo do que aquele que deixou a Áustria em 2023. Aos 38 anos, continua sendo um dos técnicos mais jovens entre os grandes clubes europeus. A diferença é que agora chega à Premier League carregando algo que poucos treinadores da nova geração possuem: experiência internacional, títulos importantes e a convicção de que sua identidade não depende de um único modelo de jogo.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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