Ramires: “Só no Brasil se fala que somos retranqueiros”

De volta ao Brasil após o fim da temporada 2011/12, Ramires foi reconhecido por um torcedor já no aeroporto de São Paulo. “Golaço contra o Barcelona, parabéns!”, disse o torcedor. Sorridente o meia agradeceu, mas não contava com a pergunta seguinte: “Quem ganhou a Liga dos Campeões?”. “Fomos nós”, respondeu o ex-cruzeirense, que conta a história numa boa. O gol contra o Barça é apontado por ele mesmo como “o mais importante da carreira”, o que é muito, se analisarmos que o meio-campista já balançou as redes até na Copa do Mundo de 2010, contra o Chile, pelas oitavas de final.
Com muita tranquilidade, o ex-cruzeirense está ciente de que viveu em 2011/12 um grande momento na carreira. Fora das convocações para a seleção brasileira no início do ano, ele deu a volta por cima no Chelsea, sendo decisivo nos confrontos contra Napoli e Barcelona, nas oitavas de final e na semifinal da Liga dos Campeões. Na decisão, esteve ausente e os Blues, apesar da vitória, sentiram a falta de sua saída em contragolpes pelo lado esquerdo.
Em entrevista exclusiva à Trivela, Ramires fala sobre a temporada no Chelsea, rechaça a fama de que os Blues jogam um futebol “feio” e se põe à disposição para jogar em qualquer posição do campo no clube e na seleção brasileira, entre outros assuntos. A entrevista foi feita na entrega do prêmio “Futebol no mundo”, evento realizado pelos canais ESPN (Ramires ganhou como melhor jogador e por ter feito o gol mais bonito da temporada). Confira:
Quem você prefere enfrentar no Mundial de Clubes? Corinthians ou Boca Juniors?
Não sei [risos]. Não podemos escolher adversários. O importante é que vencemos a Liga dos Campeões e já estamos lá.
Como foi parar o Barcelona?
Foi a melhor coisa que aconteceu para a gente. O Barcelona é um dos melhores times do mundo, e nós tínhamos consciência disso antes da partida. O gol que fiz na segunda partida foi, sem dúvida, o mais importante da minha vida.
Como você vê essa fama que o Chelsea adquiriu no Brasil de time retranqueiro, que joga feio?
Acho que é só no Brasil que falam isso, que o Chelsea é defensivo, que entrou como zebra na semifinal. Fizemos essa opção contra o Barcelona, e todas as equipes do mundo jogam assim contra o Barcelona. Mas se fosse para nos dar um título, ninguém daria, tivemos que conquistar dentro de campo, batalhamos muito por isso. O Chelsea tem grandes jogadores e um time que chegava sempre nas fases decisivas da Liga dos Campeões. Acho que esqueceram de nos respeitar um pouco.
Você pensa que evoluiu como jogador na Premier League? Em quais fundamentos?
Sim, principalmente na forma de disputar jogadas, hoje eu entro com o pé mais duro em divididas, acho que o meu passe também melhorou, até pela exigência que eles fazem lá. Os gramados na Inglaterra são perfeitos, então não há desculpa quando o passe sai errado. Acho que nas finalizações eu também cresci.
Como foi a despedida do Drogba do time?
Após a final da Liga dos Campeões, chegamos em Londres e desfilamos de carro aberto. Quando acabou o desfile, ele falou para o grupo que estava de saída. Foi emocionante, ele chorou. Mas isso faz parte do futebol.
Muito se falou no clima no vestiário do Chelsea durante a temporada. Como era o seu relacionamento com o André Villas-Boas e com os outros jogadores?
O Villas-Boas teve um período difícil, porque quando ele chegou, colocou alguns dos melhores jogadores do time no banco. Eles ficaram insatisfeitos, e quando voltaram, não conseguiram jogar o melhor futebol que podiam. As coisas simplesmente não funcionavam. Mas eu tinha uma boa relação com ele, assim como tenho com o grupo todo. Sou um cara tranquilo, que busca fazer amizade sempre em todos os lugares que jogo, e sou muito bem tratado por todos no clube desde que cheguei.
Após a saída do Villas-Boas, o David Luiz cresceu de rendimento e passou a ser um dos melhores jogadores do time. Você acha que esse crescimento se deu pelo fato dele atuar mais protegido ou pela atitude dos jogadores?
Com certeza pela atitude dos jogadores. Essa foi a grande mudança. O Di Matteo fez algumas alterações táticas, mas os jogadores eram os mesmos. Sou suspeito para falar do David Luiz porque ele é quase um irmão para mim, mas acho que ele tem todo o potencial para ser o melhor zagueiro do mundo.
Você atuou na maioria das partidas do Chelsea centralizado, mas se destacou atuando aberto tanto pelo lado esquerdo quanto pelo lado direito do campo. Recentemente, os Blues anunciaram as contratações de Eden Hazard e Marko Marin. Como você vê essa situação?
Na temporada passada, não tínhamos muitos jogadores que atuam pelos lados do campo, então o Di Matteo me escalou por ali em uma situação emergencial. Acabei indo bem, me destacando, mas minha posição de origem é como volante. Recuo para o meio-campo numa boa, se necessário.
Você se vê como segundo volante em uma disputa por vaga na seleção brasileira?
Deixo bem claro que, seja em clube ou seleção, jogo da maneira que o treinador pedir e tento cumprir o que ele determinar taticamente. Até porque não sou habilidoso como, por exemplo, o Neymar. Tenho que aproveitar essa minha versatilidade e a possibilidade de atuar em várias posições (N.R: Ramires começou a carreira na base como zagueiro, foi promovido aos profissionais do Joinville como lateral direito, se tornou volante e já atuou como meia tanto pelos lados como centralizado, além de já ter sido improvisado na lateral esquerda quando atuava no Cruzeiro).
Junto com você no Joinville, foi revelado o zagueiro Douglas, que terminou contrato recentemente e é especulado em clubes da Premier League. Você acha que ele seria um bom reforço para algum clube inglês?
Acho. O Douglas é um zagueiro que, se não se naturalizasse holandês certamente teria uma oportunidade na seleção brasileira. É um jogador de muito potencial, e também muito amigo meu. Já nos encontramos em Joinville nessas férias.
A seleção inglesa conta com alguns companheiros seus em campo, como John Terry e Ashley Cole. Como você analisa a campanha deles na Eurocopa?
É difícil falar, pois qualquer coisa que eu diga pode ser bem ou mal interpretada por lá. Mas eu estava acompanhando os jogos e vi que a Inglaterra fez uma boa campanha. A eliminação veio num confronto com a Itália, que é uma grande seleção.
O Cruzeiro lidera o Campeonato Brasileiro. Você tem acompanhado o time?
Acompanho sim, fico muito contente em ver o Cruzeiro liderando depois de quase ter sido rebaixado no ano passado. Vou ver se arrumo um tempinho para passar em Belo Horizonte e assistir um jogo e rever os amigos que fiz por lá. Hoje eu posso dizer que sou cruzeirense de coração, assim como eu era flamenguista quando criança.



