Inglaterra

Que venham os playoffs

 A imprensa inglesa publica neste final de semana a notícia de que a Premier League está estudando a possibilidade de mudar a fórmula de classificação para a Champions League para o futuro. Segundo se diz, seria criado um playoff, a ser disputado pelas equipes classificadas entre o quarto e o sétimo lugares, para decidir a última vaga inglesa na competição mais importante da Europa.

Os puristas, aqui incluídos todos ou a esmagadora maioria dos nossos editores e colaboradores mais antigos, não vão gostar. O princípio dos pontos corridos é a justiça, quem foi mais regular durante a temporada toda fica com os prêmios por isso. Para os que defendem essa teoria, por exemplo, os playoffs das divisões inferiores da Inglaterra, que definem as terceiras vagas nas divisões de cima, violam esse princípio, e deveriam ser extintos.

A discussão aqui é a velha briga entre pontos corridos e mata-matas. De um lado, é verdadeiro o argumento de que os times que se preparam para uma temporada inteira têm de ver isso reconhecido. O argumento mais forte do outro lado é o de que um mata-mata separa as equipes que têm jogadores decisivos das que marcam muitos pontos contra os times mais fracos, mas não conseguem encarar os mais fortes.

Na Inglaterra, o sistema de pontos corridos é tão antigo que não cabe qualquer tipo de discussão sobre o assunto, pelo menos no que se refere à definição dos campeões. Há, porém, outro ingrediente nessa discussão, que é relativamente novo: o dinheiro da Liga dos Campeões.

Não parece ser coincidência que a discussão surja justamente no momento em que o Liverpool chega ao quarto lugar, indicando que, mais uma vez, os times da LC serão os mesmos. Isso em um ano em que os Reds foram ridículos, assim como o foram os Gunners no começo da temporada passada, e mesmo assim ficaram com a quarta vaga.

Aconteça o que acontecer, Liverpool e Arsenal, sem falar em United e Chelsea, sempre terão mais dinheiro enquanto perdurar o atual sistema. Com isso, tendem a, com o decorrer da temporada e o desgaste dos concorrentes com elencos menos profundos – caso de Aston Villa e Spurs neste ano –, acabar prevalecendo. A lógica é perversa pelo motivo já muito comentado: quem está na frente sempre vai ganhar mais, e a diferença entre o topo e o meio fica gigantesca.

Que eu conheça, entre as principais ligas européias a única que previu recentemente qualquer tipo de playoff é a Eredivisie, que determinava uma disputa dos times entre o segundo e o quinto lugares para definir a segunda vaga na Liga dos Campeões. Em 2005/6, por exemplo, o Ajax, 4º, tirou a vaga do AZ, segundo. Em 2008, por outro lado, o 2º colocado Ajax acabou derrotado pelo Twente. O sistema foi abandonado na temporada passada para a LC, e continua existindo para vagas n Europa League e no rebaixamento.

Olhando a questão pelo ponto de vista da justiça, as restrições aos playoffs fazem sentido. Pensando na Justiça com maiúscula, entretanto, parece ser uma maneira de diminuir a dominância dos quatro grandes, ou de outros clubes com donos milionários, como o Manchester City.

Vale ressaltar que a simples introdução dos playoffs pode não mudar em nada a situação. Uma rápida olhada nos confrontos entre os quatro grandes e os três imediatamente abaixo vai mostrar que, em geral, Spurs, Villa e City não têm condições de bater United, Chelsea, Liverpool e Arsenal. Um jogo,o porém, é um jogo, e a chance destes times chegarem à LC passa a ser muito maior se tiverem que chegar em sétimo e se preparar para dois jogos decisivos.

Para a própria Premier League a idéia seria benéfica, também, já que, ao final da temporada, haveria mais posições pelas quais brigar. Por outro lado, em um calendário já bastante apertado, a introdução de mais duas partidas, ou seja, pelo menos uma semana a mais de futebol, traria ainda mais aperto no calendário.

Um outro problema seria, em tese, a diminuição das chances inglesas na Champions League caso o sétimo colocado chegasse lá. Na temporada passada, por exemplo, o Fulham teria tido chances de se classificar para a competição, para, provavelmente, repetir o Everton de alguns anos atrás – imediatamente eliminado da LC e da Copa Uefa.

É pouco provável, entretanto, que o Fulham passasse pelos dois jogos eliminatórios – contra Arsenal, e Everton ou Aston Villa. Imaginando que alguma destas equipes passasse pelos Gunners, o que dá para dizer é que, com o dinheiro da LC, certamente não fariam feio, e dificilmente estariam muito atrás dos quartos colocados da Itália ou Espanha, ou até mesmo do segundo colocado da Bundesliga.

Vai irritar os puristas, mas tem tudo para passar, afinal, é uma proposta que deve agradar todos os clubes menos quatro. Se servir para distribuir o dinheiro e melhorar a competitividade da Premier League, que haja esse elemento de injustiça. Afinal, não é mais justo que um playoff que quatro times dividam o bolo todo e o resto fique com as migalhas.

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Equipe Trivela

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