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Há atenuantes circunstanciais para explicar a primeira vitória do Everton sobre o Liverpool em Anfield desde 1999 – e a primeira no dérbi, em qualquer lugar desde 2010 – como a ausência de torcida em Anfield, as dificuldades da pandemia que aproximaram todo mundo ou o excesso de lesões que levou Jürgen Klopp a colocar em campo sua 18ª dupla de na temporada, mas não pode ter sido a única vez em 21 anos que o contexto era favorável ao lado azul da cidade. O que mais está diferente? O Liverpool, neste momento, está um pouco pior, mas, principalmente, o Everton está melhor.

As circunstâncias ajudam a explicar o primeiro fato. O trabalho de Klopp não ficou ruim da noite para o dia, nem seus jogadores desaprenderam a jogar bola Um ano atrás, a conversa era se o Liverpool ia ganhar a Premier League com 37 vitórias e um empate. Houve uma queda de rendimento natural em março, antes da paralisação por causa da pandemia. Depois dela, a única missão era selar o título, o que foi feito em dois jogos.

Não é incomum uma queda, especialmente física e mental, depois de atingir um nível tão alto quanto o do Liverpool na arrancada para quebrar o seu jejum de títulos ingleses. Ainda mais em uma situação em que uma temporada praticamente se misturou com a seguinte – e em um estilo de jogo que tanto depende do físico e do mental. Pelo mercado veio a busca por sangue novo, com e Thiago. Ambos deram sinais de que realmente podem refrescar o time de Klopp (o português um pouco mais), mas lesões também prejudicaram suas sequências.

A temporada do Liverpool começou um pouco devagar, em aparente modo de gestão de energia, parecia que havia pegado no tranco em dezembro e de repente desmoronou. Houve uma sequência ruim de verdade, aqueles quatro jogos pela Premier League sem sequer marcar um gol. Desde a derrota para o Manchester United na Copa da Inglaterra, por incrível que pareça, o desempenho está bem melhor, mesmo que os resultados sejam até piores.

Há uma mistura de falta de confiança e cansaço com a alta rotatividade da zaga que inviabiliza qualquer tipo de consistência. O ataque segue com seus três protagonistas. Klopp tem tentado fixar um pouco mais o meio-campo com Thiago, Wijnaldum e Curtis Jones, mas sente a falta do poder físico de Henderson e Fabinho, que precisaram ser deslocados à defesa e acabaram sujeitos à maldição que machuca todos os homens do Liverpool que jogam na zaga. Nat Phillips, que precisou entrar no lugar do durante o clássico, é na prática a sexta ou sétima opção para a posição.

O Liverpool foi pior que o Everton em campo e está pior na tabela. Mas todo esse contexto, o que fez nos últimos anos e o potencial financeiro maior impedem de dizer que a derrota no clássico é simbólico de que ficou para trás – embora uma renovação profunda do time esteja cada vez mais próxima. Ainda é mais provável do que não que se reorganize para terminar entre os quatro primeiros. Há futebol ali para isso. O que é menos circunstancial, porém, é a melhora do Everton.

A tabela final da Premier League talvez não a represente. Está tudo tão próximo na parte de cima que a diferença entre quarto e décimo lugar pode ser mínima. De qualquer maneira, a temporada tem sido um passo à frente para o quarto maior campeão da Inglaterra. Na história recente, teve um período de muita estabilidade e ótimo trabalho técnico com David Moyes, mas não tinha dinheiro. Desde a chegada de Farhad Moshiri, tinha dinheiro, mas não firmou um comandante ou um plano.

A diferença é que neste momento está com as duas coisas. Não tem bala para entrar na briga por Haaland e Mbappé, mas tem para aproveitar oportunidades como Alan e James Rodríguez que queriam voltar a trabalhar com Carlo Ancelotti, um garoto com potencial como Moise Kean saindo da (mesmo que ele não cumpra toda a sua promessa), ou pegar ótimos jogadores em momentos de baixa ou em clubes menores, como Richarlison, Lucas Digne e Doucouré.

Faz quatro anos que o dinheiro de Moshiri está disponível ao Everton. Agora, porém, ele também tem a peça-chave para o próximo passo: um treinador que reúne tudo isso e transforma em um time coeso e competitivo. Ancelotti também chegou em baixa e, se não faz o melhor trabalho da sua vida, faz um muito bom. E aqui entra a ótima atuação contra o Liverpool como símbolo. Ele também havia falhado em outras tentativas de derrubar o tabu, a melhor pela Copa da Inglaterra, contra um time reserva do adversário.

No último sábado, o Everton abriu o placar logo cedo, com um lindo passe de James Rodríguez, e teve uma atuação defensiva exemplar durante o resto da partida. Não cedeu à pressão do Liverpool, não se desesperou, não deixou o histórico pesar em cima da atualidade. Contou com Jordan Pickford em uma ótima tarde, pressionado pelo dérbi do primeiro turno em que virou um dos personagens por causa da lesão de Van Dijk, e esperou a hora certa para matar o jogo.

São sinais de um time maduro. E de evolução. O patamar em que o Everton gostaria de estar, em pé de igualdade com o Tottenham, por exemplo, ainda está longe. Não é sequer o clube mais forte fora do Big Six – que, neste momento, seria o Leicester. Falta muito trabalho, muitos acertos, no mercado e dentro de campo. Mas está caminhando para a frente e acima de qualquer coisa o que um torcedor de futebol precisa é de perspectiva.

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