Inglaterra

Problema maior do Arsenal não é um mercado específico, mas um projeto esportivo que não melhora ninguém

O Arsenal foi o clube inglês que mais gastou na última janela de transferências e incrivelmente não parece mais próximo de alcançar seus objetivos

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De acordo com os valores divulgados pela imprensa, nenhum clube na Inglaterra gastou mais do que o Arsenal no último mercado de transferências. Nem em valores brutos, nem no saldo líquido. Nem o Manchester United, que contratou Jadon Sancho, Cristiano Ronaldo e Raphaël Varane. O incrível é que, depois de € 165 milhões investidos em seis jogadores, o time do norte de Londres não parece mais próximo de retornar à Champions League do que estava ao fim da temporada passada.

Isso é um problema, mas não se restringe a este mercado específico, com algumas boas contratações de jogadores talentosos. No caso do Arsenal, é uma combinação entre uma série de decisões contestáveis, um projeto esportivo que desperdiça talento e a lógica cruel do futebol europeu, pela qual quanto mais tempo você fica afastado das receitas da Champions League mais difícil é retornar a ela.

Começando pelo problema estrutural. A comparação entre as contratações de Ben White e Raphaël Varane foi frequente. O Arsenal pagou mais por um zagueiro de 23 anos do Brighton (cerca de € 58,5 milhões) do que o Manchester United por um campeão do mundo e tetracampeão europeu (€ 40 milhões). Acontece que as taxas de transferência não levam em consideração apenas a qualidade do jogador. O contrato de Varane estava chegando ao fim, o Real Madrid precisava de arrecadação e negócios entre clubes da mesma liga são sempre mais caros.

Mas tem um outro fator importante: sem colocar uma arma na cabeça de Varane, como alguém o convenceria a jogar pelo Arsenal em detrimento do Manchester United? Nada a ver com a grandeza dos dois clubes, mas o Arsenal não disputou a Champions League nos últimos quatro anos e não parece prestes a fazê-lo no curto prazo. Não ganha a Premier League desde 2004 e não parece próximo de quebrar esse tabu. A realidade do momento é beliscar uma final de Liga Europa (se conseguir se classificar a ela) ou ganhar uma das copas inglesas, enquanto tenta sair do meio da tabela do Campeonato Inglês no qual se enfiou nas últimas duas temporadas.

Digamos que é uma perspectiva menos atraente do que defender um time em ascensão como o do Manchester United, ainda sujeito a um tropeço aqui ou ali, como na última Champions League, eliminado na fase de grupos, mas que está claramente caminhando para um patamar mais alto. Isso restringe os jogadores aos quais o Arsenal tem acesso. Com menos oferta, é fácil cair na armadilha de pagar valores inflacionados de taxas de transferência e também de salários, no desespero de buscar preenchimentos mais rápidos às lacunas de elenco que parecem infindáveis.

Desde que tirou Alexis Sánchez do Barcelona, em 2014, estes são os clubes nos quais o Arsenal tem buscado jogador: Basel, Borussia Monchengladbach, Valencia, Deportivo La Coruña, Bolton, Schalke 04, Sampdoria, Lorient, Celtic, Saint-Étienne, Lille, Dijon, Flamengo, Bologna, Sheffield United e Brighton. De vez em quando um Borussia Dortmund, Lyon ou Bayer Leverkusen ou algum renegado de Juventus, Barcelona ou Real Madrid. Nenhum problema com isso em si, mas raramente desses clubes sai o produto final, o jogador pronto para atuar no nível mais alto. Ele precisa ser desenvolvido e potencializado por um coletivo forte e coerente. Já percebe onde quero chegar?

Quando Kia Joorabchian, que manteve laços próximos com o clube nos últimos anos, questiona qual jogador foi para o Arsenal recentemente e não foi um desastre, ele está exagerando. Mas por trás da bravata, há um fundo de verdade que nos motiva a fazer outra pergunta: qual jogador foi para o Arsenal recentemente e melhorou? Sério. Qual? No limite, talvez Pierre-Emerick Aubameyang, também um raro caso de jogador que chegou mais pronto do Borussia Dortmund. Por outro lado, são numerosos os jovens que tiveram sua ascensão interrompida ou mesmo jogadores mais veteranos que não conseguiram replicar o seu melhor futebol.

Não quero apontar dedos, mas Mikel Arteta tem uma parcela de culpa por não conseguir montar um time que é melhor do que a soma das suas peças, com aqueles bons sinais do começo de trabalho cada vez lhe dando menos crédito, a diretoria de futebol tem outra parcela pelo baixo índice de acerto nos reforços e os donos do Arsenal tem uma parcela enorme por não conseguir levar ao clube gente mais competente para tomar essas decisões – e olha que até tentou, com o ex-diretor de olheiros do Borussia Dortmund, Sven Mislintat, que durou pouco mais de um ano antes de deixar o clube, incomodado com quebra de promessas e uma mudança de direção que passou a favorecer mais o contato com agentes, como Kia, por exemplo.

Dá para tomar o caminho inverso. O trabalho de Ole Gunnar Solskjaer é melhor que o de Arteta, mas não é transformador. O Manchester United é tão rico que conseguiu trazer jogadores em estágio mais avançado para elevar o seu time com base na qualidade individual enquanto espera que o coletivo melhore. Ainda fica suscetível a alguns percalços e não foi suficiente, por enquanto, para alcançar o Manchester City – ou até o Liverpool. Está claramente avançando, porém, e, se decidir que Solskjaer não é o cara certo para dar o salto, basta encaixar um treinador melhor no elenco que já foi montado. Mas, para fazer isso, você precisa das receitas do United.

Sem elas, o trabalho é mais árduo. O Liverpool não esteve muito diferente do Arsenal na maior parte da última década. Ficou ainda mais tempo longe da Champions League e também era fácil acusá-lo de gastar demais em jogadores de qualidade duvidosa. Houve apenas uma temporada de exceção, em 2013/14, quando o título ficou próximo e houve o retorno à principal competição europeia. A oportunidade de investir tanto as receitas da Champions quanto da venda de Luis Suárez foi escancaradamente desperdiçada. Depois, até Roberto Firmino chegou a parecer um erro nas suas primeiras semanas após a transferência do Hoffenheim, o mesmo mercado que transformou Christian Benteke em um dos reforços mais caros da história dos Reds

Esse é um bom exemplo porque bastou a chegada de Jürgen Klopp para tudo mudar. Alguns erros, como Benteke, foram apenas erros e não duraram muito tempo. Outros foram recuperados. É verdade que havia uma estrutura de bastidores em torno do técnico que já havia conseguido garimpar nomes como Philippe Coutinho e Daniel Sturridge, mas o Liverpool era um time que levara 6 a 1 do Stoke City na despedida do seu maior jogador nos últimos 30 anos antes da chegada do alemão. Klopp trouxe um plano mais claro e também a capacidade de melhorar os jogadores no campo de treinamento e por meio de um forte coletivo. E agora, com os mesmos donos, o Liverpool tem uma política de reforços das mais eficientes do continente.

Basta fazer um simples exercício. Andrew Robertson seria o que é hoje em dia se tivesse saído do Hull City para o Arsenal em vez de ir ao Liverpool? Tudo bem, podemos argumentar que ele tem uma força de vontade excepcional que o faria ter sucesso em qualquer lugar, mas dá para visualizar hoje em dia qualquer jogador saindo de um time rebaixado e se transformando em um dos melhores da sua posição pelos Gunners? O elenco vermelho que chegou à final da Champions League em 2018 tinha reforços de Mainz, Southampton (muitos e muitos do Southampton), Hull City, Sunderland, Newcastle, Hoffenheim, Roma, Bayer Leverkusen, Augsburg, Sevilla e um renegado do Manchester City. Não muito diferente do mercado no qual o Arsenal faz as suas compras. A diferença fundamental? Klopp sabia quem queria e o que fazer com eles.

Não existem muitos Klopps por aí, mas com um Brendan Rodgers o Leicester conseguiu bater na trave da classificação à Champions League duas vezes seguidas e começa mais uma temporada teoricamente à frente do Arsenal, apesar de ter receitas menores. O Tottenham nunca teve um Klopp, mas achou um Pochettino. Nem o Milan e nem a Internazionale precisaram de um treinador tão talentoso para voltarem à Champions League em um campeonato que também tem seis ou sete candidatos às quatro vagas. É uma questão de combinar um trabalho competente com um recrutamento que não precisa ser perfeito, mas precisa ser melhor.

Ampliando um pouco a lupa, algumas decisões do Arsenal também são confusas. Vendeu Emiliano Martínez ao Aston Villa por € 17,4 milhões e um ano depois contratou Aaron Ramsdale para disputar posição com Bernd Leno por € 28 milhões. Após a última temporada do goleiro argentino, está bem claro qual dos dois passa mais segurança. William Saliba foi contratado do Saint-Étienne por € 30 milhões e ainda não fez um jogo pelo time principal. Partiu ao Olympique Marseille para seu terceiro empréstimo. Que não esteja pronto para jogar na Premier League, não havia outra prioridade para esse investimento? Se você fosse escolher um jogador para despejar € 80 milhões, contratação que deveria fazer seu time subir de patamar, esse jogador seria Pépé?

Em meio a tudo isso, o Arsenal tem alguns achados. Às duras penas, um trio de zaga com Gabriel, Ben White e o recém-chegado Tomiyasu seria bem interessante. Kieran Tierney é talentoso quando não está machucado. Gabriel Martinelli foi uma ótima contratação, e ainda pode se esperar muito mais de Thomas Partey. Conseguiu arrematar os serviços de Martin Odegaard, há anos nas discussões sobre futuras estrelas. Mas ainda é muito pouco para competir em uma liga tão acirrada, com muitos clubes capazes de gastar mais de € 100 milhões em um único mercado e que o fazem de uma maneira melhor que o Arsenal. E depois, também são melhores em cultivar esses reforços e transformá-los em um time forte.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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