Inglaterra

Primeiro adversário da seleção brasileira, o Exeter City sobe à terceirona inglesa com uma gestão encabeçada pelos torcedores

Exeter City escapou da bancarrota após sua torcida assumir a gestão e, depois de fortalecerem principalmente a base, agora desfrutam de um grande sucesso

O Exeter City possui um grande orgulho para se diferenciar de outros clubes que disputam as divisões de acesso do Campeonato Inglês: os alvirrubros inauguraram a história da seleção brasileira. O time da região de Devon estava em excursão pelo Brasil em 1914 e teve a honra de enfrentar a equipe nacional recém-formada em Laranjeiras, pouco antes que os brasileiros disputassem contra a Argentina a primeira edição da Copa Roca. Os Grecians figuravam na terceira divisão naquela época e nunca passaram disso. E se o grande “título” do Exeter é relembrar o pioneirismo contra a Seleção, nesta terça a torcida em St. James’ Park (estádio homônimo ao do Newcastle) teve um motivo para realmente celebrar. O clube conquistou o acesso na League Two, a quarta divisão inglesa, e retornará à terceirona após dez anos. Mais interessante, o projeto é administrado pelos próprios torcedores, que tiraram a agremiação da bancarrota para construir uma das mais famosas categorias de base nas divisões de acesso da Inglaterra.

O Exeter City pode se considerar sortudo por fazer parte da história da Seleção. A Argentina organizava a excursão de um clube inglês em seu país e, apesar de negociar com o Tottenham, só conseguiu acertar com o time da terceira divisão. Os Grecians voltavam de navio de Buenos Aires, quando realizaram uma parada no Rio de Janeiro para disputar três amistosos. Naquele momento, a Federação Brasileira de Sports (embrião da CBD) era formada e o duelo com os viajantes serviria exatamente para referendar a novíssima equipe nacional. Antes disso, o Brasil até tinha formado combinados entre paulistas e cariocas, mas sem a chancela de uma entidade. O amistoso seria a preparação para a estreia contra a Argentina, na Copa Roca, semanas depois.

Diante de 10 mil torcedores em Laranjeiras, o Exeter City não seria páreo diante do Brasil. A Seleção venceu por 2 a 0, gols de Oswaldo Gomes e Osman, num time forte que ainda reunia nomes como Arthur Friedenreich, Marcos Carneiro de Mendonça, Sylvio Lagreca e Píndaro de Carvalho. Seria inclusive um duelo marcado pela violência dos ingleses, com Friedenreich perdendo os dentes depois de uma pancada e saindo nos braços da torcida. Apesar disso, o Exeter teria uma história para celebrar para sempre.

Não à toa, em diferentes momentos nos últimos anos o Exeter promoveu ações ligadas à relação com o Brasil. Durante as comemorações de 90 anos do famoso jogo, os alvirrubros encararam um time de veteranos da Seleção, que incluía nomes como Dunga, Silas e Careca. Já em 2014, no centenário da partida, os Grecians criaram até um musical sobre a excursão. Além disso, organizaram uma viagem para o Brasil e também receberam os juniores do Fluminense, clube com o qual seguem os laços pelo evento em Laranjeiras.

Fora aquela ocasião em 1914, o Exeter City não possui feitos muito relevantes em sua trajetória. A equipe compôs a terceira divisão inglesa por cinco décadas, até cair para o quarto nível em 1958. Em todo esse tempo, só uma vez tinha beirado o acesso à segundona. Até o fim do século, seu costume esteve em variar mesmo entre a terceira e a quarta divisão. Já na Copa da Inglaterra, no máximo, os Grecians chegaram às quartas de final em 1930/31 e 1980/81. O único título profissional foi a quarta divisão de 1989/90.

Já neste século, o Exeter City ainda se envolveu em uma relação bizarra em 2002. Os novos proprietários do clube levaram o mágico Uri Geller para ser o presidente. O famoso paranormal atraiu atenção da mídia e chegou a nomear alguns diretores honorários famosos, como o ator David Prowse (o dublê de corpo de Darth Vader em Star Wars) e o cantor Michael Jackson – que até um “discurso em prol da paz mundial” fez em St. James’ Park. Porém, a aventura não durou muito, com o posto de Uri Geller revogado por irregularidades. Pior, esses proprietários foram indiciados por fraude em transferências e acabaram sentenciados.

Neste período, o Exeter City viveu o pior momento de sua história e caiu pela primeira vez à quinta divisão em 2003/04. Os próprios torcedores se juntaram para adquirir a maior parte das ações e assumir o controle da agremiação, que encarava um risco real de falência. No entanto, os Grecians conseguiram contornar seus débitos com diversas iniciativas e sobreviveram. Fizeram financiamentos coletivos, o tal amistoso com o Brasil e ainda deram a sorte de pegar o Manchester United na FA Cup, com o heroico replay forçado rendendo mais fundos. Com muitos torcedores sequer recebendo para trabalhar nas estruturas, um caminho surgiria. Seriam cinco participações na Conference Premier, até a volta à Football League com o acesso para a quarta divisão em 2008. Os alvirrubros ainda emendaram outra subida e jogaram a League One em duas temporadas, até caírem e retornarem de novo ao quarto nível em 2012. Não tinha saído de lá desde então.

O Exeter City passou a última década como um time relativamente competitivo na League Two. Não correu grandes riscos de rebaixamento e chegou a disputar três vezes os playoffs de acesso, mas em todas perdeu a decisão em Wembley – diante de Blackpool, Coventry City e Northampton Town. O fim do trauma e o retorno à terceirona só viriam mesmo com o acesso direto nesta temporada – ao lado do Forest Green Rovers, que havia confirmado sua promoção no último final de semana.

A campanha do Exeter City nesta League Two nem começou tão bem e os alvirrubros só venceram um jogo nas primeiras seis rodadas. A recuperação aconteceu na segunda metade do primeiro turno, embora novas instabilidades tenham ocorrido pouco depois. Foi mesmo no segundo turno que o Exeter pegou embalo e se firmou no G-3. Das 23 vitórias conquistadas na campanha, 14 vieram a partir de fevereiro. São oito triunfos nos últimos nove compromissos, até que a vitória sobre o Barrow nesta terça garantisse a comemoração. Restando duas rodadas, ainda dá para buscar o título, com o Forest Green Rovers na liderança apenas pelo saldo. Seria o troféu que o Exeter não leva há 32 anos.

A taça se tornaria um grande reconhecimento à Supporters’ Trust, já que os torcedores continuam como proprietários do Exeter City. Um dos méritos ao longo dessas quase duas décadas de gestão é a forma como as categorias de base se tornaram prolíficas. Ollie Watkins e Ethan Ampadu são dois pratas da casa surgidos em St. James’ Park. O elenco se baseia nos jogadores formados internamente e as vendas também se tornaram uma das principais fontes de receitas, gerando cerca de £10 milhões nestes 18 anos. É um montante considerável, levando em conta que £3 milhões em dívidas quase fizeram os alvirrubros fecharem as portas em 2004. Agora, o plano já aprovado é o da construção de um novo centro de treinamentos que custará £2 milhões.

“Desde o técnico até a comissão e a diretoria, mas principalmente os jogadores e os torcedores, sabem do que o clube se trata, sabem o que é o clube. Eles sabem que não temos dinheiro para injetar em tudo, mas é um projeto firme e sólido. Você pode ver que todos os dias damos pequenos passos e é para onde vamos. Você merece acabar onde conseguir e é aqui que estamos”, afirma Julian Tagg, presidente do Exeter, à BBC Sport. O dirigente é um dos torcedores que abraçaram a causa em meio à crise e segue envolvido com os alvirrubros. Não se nega o sucesso da empreitada.

Outra avaliação interessante é feita por Nick Hawker, presidente da Supporters’ Trust, ao The Athletic: “Embora não haja problemas em falar sobre apenas esta temporada, o acesso culmina o trabalho de alguns anos. Chegamos perto e ainda não tínhamos superado o limite, então é um exercício de construção. Aprendemos lições, não apenas no futebol, mas também sobre como administramos e regulamos o negócio como um clube pertencente aos torcedores. Tenho orgulho de todas as pessoas envolvidas até chegarmos a este ponto, isso mostra que o clube realmente funciona como modelo de negócio. Ter um clube de futebol não requer um grupo rico por trás. É muito trabalho duro, mas os torcedores podem fazer isso. Ver um futebol realmente bem jogado e excelentes jogadores, alguns formados na base, é um prêmio para todos. Somos o time há mais tempo na League Two, mas os torcedores nunca se voltaram contra nós, eles apoiaram o plano”.

“A consistência tem sido muito importante. Você tem que entender como vai medir seu sucesso. Se você dizer que uma temporada de sucesso só será definida pela colocação do time, então isso se torna difícil, porque você coloca todos os seus recursos na tentativa de alcançar algo que outros 20 times tentam impedir que você alcance. O que fizemos foi dizer que queremos crescer unilateralmente. Queremos que nossa infraestrutura seja igual à de um time da League One, o mesmo para o profissionalismo da nossa comissão técnica e de nosso time. Acredito que temos todas essas qualidades. Quando você constrói pouco a pouco e vê como um projeto de longo prazo, em vez de uma vitória rápida por temporada, então você alcançará essa sustentabilidade e essa consistência – o que significa que, se você falhar neste ano, tentará no próximo. Se formos bem-sucedidos, provavelmente estaremos preparados para a League One com o modelo e o ambiente certo para sermos sustentáveis”, complementa.

O técnico do Exeter City é Matt Taylor, ele próprio uma cria da casa. O comandante passou pelo clube como jogador durante quatro temporadas e estava em campo durante a conquista do acesso anterior à League One, em 2009. Após sua aposentadoria em 2016, voltou aos Grecians para dirigir a equipe sub-23 e assumiu o time principal em 2018, com a saída de Paul Tisdale após 12 anos no cargo. O atual comandante é um dos artífices do processo. Um de seus méritos está na maneira como consegue redescobrir jogadores até então escanteados em outros clubes das divisões de acesso. Um exemplo é o volante Timothée Dieng, destaque na campanha. O treinador também possui ótimo tato com os jovens da base.

Já o símbolo do Exeter City em campo é o capitão Matt Jay. O meia de 26 anos surgiu na própria base e passou por alguns empréstimos até se firmar na equipe principal em 2016. É a principal referência ofensiva e também o artilheiro da campanha, com 14 gols. De quebra, foi exatamente o responsável pelo gol do acesso, determinando a virada por 2 a 1 sobre o Barrow em St. James’ Park. São 17 jogadores no elenco principal que se formaram nas categorias de base dos alvirrubros, enquanto ainda há um bom número de garotos emprestados para que ganhem rodagem. Os pratas da casa sabem que ganharão uma chance e isso impulsiona o próprio trabalho.

Como Hawke pontua: “Não vamos contratar um centroavante por grandes quantias de dinheiro se soubermos que temos um garoto da base pronto para jogar. Ter esse plano de carreira à sua frente é realmente especial, sobretudo para os garotos locais. Você verá pessoas no estádio que dirão que jogavam com tal jogador na escola. Há essa conexão e as pessoas conhecem os jogadores. Muitos deles são moradores locais e isso cria uma relação com a torcida”.

“O acesso é uma estranha sensação de alívio, porque é quase uma confirmação de que acertamos. É tão emocionante, grande para a cidade e para os torcedores. É excelente para a gestão da torcida. Veja alguns clubes que realmente estão sofrendo – os donos não precisam ter medo dos torcedores. Parece haver uma resistência às vezes em manter a torcida à distância e não contar muito com eles, mas não devem temer, porque somos abertos e isso funciona para nós. Só porque somos torcedores não significa que não temos habilidades. A arquibancada está cheia de contadores, advogados, especialistas em marketing. Estão todos lá fora, você apenas precisa chegar neles”, conclui Hawke.

O Exeter City retorna agora à divisão na qual disputou mais temporadas. O clube pode não receber injeções financeiras, mas possui mais estabilidade interna com o apoio dos torcedores e apresenta outro modelo possível na realidade do Campeonato Inglês. O próximo passo agora é ganhar sequência na League One. Sonhar com a Championship seria um grande feito até para a história dos alvirrubros, por mais que aquele jogo contra a Seleção sempre sirva como uma estrela no peito dos pequeninos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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