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O Forest Green Rovers tem um projeto esportivo tão bom quanto o ecológico e fatura o inédito acesso à terceirona inglesa

O Forest Green Rovers é conhecido por suas iniciativas ligadas à sustentabilidade, mas os feitos em campo consolidam ainda mais o nome do clube

O Forest Green Rovers é um clube que, por seu projeto sustentável, chamava atenção na Inglaterra antes mesmo de chegar à Football League. A agremiação de Gloucestershire realiza uma série de iniciativas ligadas à ecologia e à redução de seu impacto no meio ambiente. Uma filosofia que se combina também com o sucesso dentro de campo, o que soa como conto de fadas por todas as barreiras quebradas desde as divisões regionais. Em 2017, os Green Devils se tornaram novatos na League Two, a quarta divisão do Campeonato Inglês. Mais um passo foi dado neste final de semana e os Verdes estarão na League One, a terceira divisão, pela primeira vez. A pauta ecológica da diretoria ganha mais visibilidade, enquanto precisarão lidar com um nível competitivo mais alto no futebol em si. Ainda assim, o objetivo de médio prazo é alcançar a Championship.

O nome de Forest Green Rovers, que se combina tanto com as ideias sustentáveis adotadas nos últimos anos, na verdade acompanha a agremiação desde os seus primórdios. O time foi criado em 1889 para representar a região de Forest Green, localizada na cidade de Nailsworth, próxima a Bristol. Os Green Devils historicamente disputaram divisões regionais e nunca tinham encarado um adversário que não fosse de Gloucestershire até os anos 1970. Em 1982, um momento importante aconteceu com a conquista da FA Vase (uma copa nacional para times amadores) em pleno Wembley, mas os Verdes ainda militavam na nona divisão naquela época.

O salto do Forest Green Rovers no Campeonato Inglês se tornou mais marcante na década de 1990. Foram dois acessos em anos consecutivos, saindo da sétima divisão para a quinta. Dentro da quinta divisão, os Verdes eram uma equipe que geralmente ocupava posições na metade inferior da tabela. Inclusive, o time vivenciou duas campanhas em que acabou o torneio na zona de rebaixamento, mas em ambas a salvação veio porque outro concorrente seria relegado por problemas administrativos. Após a segunda vez que isso aconteceu, em 2009/10, a história mudou com a chegada do novo dono.

Dale Vince fez sua fortuna investindo na geração de energias renováveis e em outros projetos ecológicos. O empresário não nasceu na região do Forest Green Rovers, mas viu no clube uma oportunidade de expandir seus negócios e levar suas ideias para o campo de futebol. Os Green Devils investiram em painéis de energia solar para as suas instalações, passaram a contar com um gramado orgânico em seu estádio, transportam os atletas em veículos elétricos e usam materiais esportivos feitos de itens reciclados. O elenco segue uma dieta vegana e as comidas vendidas no estádio também não têm qualquer origem animal. A ONU considerou os Verdes como “o primeiro clube de futebol a neutralizar as emissões de gás carbônico”, através de suas ações. Além das atenções da mídia, as propostas de Vince atraíram outros investidores, e o lateral Héctor Bellerín é o segundo maior acionista do clube desde 2020.

E se existe um cartaz ao redor do Forest Green Rovers, que por tabela contribui com visibilidade e fontes de receita, o clube também merece reconhecimento por seus acertos esportivos. Dale Vince pode parecer extravagante em certos pontos, mas age de maneira ponderada no trato com o futebol e respeita o trabalho de seus profissionais. O presidente até implementou um modelo ao melhor estilo “Moneyball” para buscar suas contratações. O crescimento na quinta divisão do Campeonato Inglês foi gradual. Depois de três temporadas no meio da tabela, os Green Devils disputaram os playoffs de acesso duas vezes sem conseguir subir. Na terceira tentativa, em 2016/17, os Verdes confirmaram a promoção também via playoffs. Ingressar na Football League permitiria que adotassem um regime completamente profissional, assim como elevaria o patamar em diferentes aspectos.

O Forest Green Rovers não abriu mão de suas convicções na League Two. Pelo contrário, novas medidas ecológicas surgiram dentro do clube. Enquanto isso, o desempenho se consolidou, com o elenco se baseando ainda mais em contratações por estatísticas. Os Green Devils até ficaram um ponto acima da zona de rebaixamento na primeira campanha na quarta divisão. Um ano depois, chegaram em quinto e caíram nos playoffs. Ficariam na décima posição em 2019/20, até mais uma aparição nos playoffs em 2020/21, com a eliminação nas semifinais. Pela forma como os Verdes rondavam o acesso, o novo impulso parecia questão de tempo.

Dono do oitavo maior orçamento da quarta divisão, o Forest Green Rovers ainda assim fez uma campanha muito acima dos demais. O time não liderou a League Two em apenas duas das 43 rodadas disputadas até o momento, firme na primeira posição desde o início de setembro. O fato de ter sofrido apenas duas derrotas nas primeiras 32 partidas diz muito sobre o sucesso, com direito a uma sequência invicta que se estendeu por 19 rodadas. Uma instabilidade aconteceu em fevereiro, com três derrotas num intervalo de quatro compromissos. Mas a recuperação não tardou e o trabalho mais árduo já estava encaminhado. O empate por 0 a 0 com o Bristol Rovers no sábado, fora de casa, desencadeou a promoção, com uma vantagem de oito pontos na zona de acesso direto.

O treinador do Forest Green Rovers é Rob Edwards, antigo zagueiro da seleção de Gales, que atuou na Premier League por Aston Villa e Blackpool. Ligado também ao Wolverhampton nos tempos de jogador, foi por muito tempo assistente dos Lobos e dirigiu a base. Mais recentemente, comandou a seleção sub-16 da Inglaterra. Aos 39 anos, faz nos Green Devils seu primeiro trabalho à frente de uma equipe profissional e conseguiu imprimir um estilo de jogo tanto agressivo quanto sólido defensivamente, baseado num 3-4-1-2 que não costuma ser dos sistemas mais comuns de se ver no futebol inglês.

Já o elenco mantém boa continuidade em relação às últimas participações na League Two, com raras contratações na atual temporada. Outra marca é a quantidade de jovens à disposição, em média de idade que não passa dos 24 anos, com o terceiro plantel mais jovem da quarta divisão. Além disso, Rob Edwards ofereceu uma minutagem impressionante à espinha dorsal da equipe, com apenas 19 atletas usados ao longo das 43 partidas da competição. Entre os destaques, a dupla de ataque formada por Matty Stevens e Jamille Matt funcionou muito bem, com 41 gols somados pelos dois. Também foram muito importantes os alas Kane Wilson e Nicky Cadden, que providenciaram juntos 27 assistências. Wilson, inclusive, foi eleito o melhor jogador do campeonato.

A expectativa fica agora para a maneira como o Forest Green Rovers lidará com a terceira divisão. O clube tem alguns entraves, como o fato de estar numa cidade de 7 mil habitantes. A média de público em casa até cresceu na League Two e atualmente é de 2,2 mil espectadores por jogo, mas seria a menor da League One – que chega a superar os 30 mil com o Sunderland. Uma novidade a ser inaugurada nos próximos meses é o Estádio Eco Park, construído completamente em madeira e com um design futurista, que gerará novas fontes de renda, embora deva abrigar no máximo 5 mil torcedores. Os Verdes também contarão com um moderno centro de treinamentos, que unificará o trabalho da base com os profissionais.

A filosofia ecológica que diferencia o Forest Green Rovers pode garantir mais parceiros comerciais na terceira divisão. Outro atrativo comercial é a visibilidade rara que a região de Gloucestershire, pouco tradicional no futebol, ganha nesse momento. Com o acesso dos Green Devils, a localidade verá o clássico contra o Cheltenham Town, o principal rival local. Embora mais tradicionais na Football League, os Robins chegaram a enfrentar os Verdes nos últimos anos tanto pela quinta divisão quanto pela quarta. O crescimento de ambos é importante para o contexto local.

Em relação ao restante da League Two, as outras duas vagas na zona de acesso direto permanecem em aberto, mas o Exeter City é o grande favorito. Os primeiros adversários da seleção brasileira têm uma vantagem de cinco pontos e ainda uma partida a menos. O outro posto deve ser disputado por Northampton Town, Port Vale, Bristol Rovers e Mansfield Town. Ainda há uma luta bastante aberta pelos playoffs, que deve envolver equipes como Sutton United, Salford City, Tranmere Rovers, Swindon Town e Newport County. Até por todo o equilíbrio nessa edição, a conquista do Forest Green Rovers se destaca ainda mais. Não é só na sustentabilidade que eles mandam bem.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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