Premier League

Brasil? Corinthians? Willian revela como quer encerrar carreira

Em longa entrevista à Trivela, Willian passa a limpo a carreira e traça planos para o futuro após aposentadoria

Sentado à mesa de jantar de sua casa no coração de Knightsbridge, bairro nobre de Londres, o brasileiro com mais jogos na história da Premier League não foge de suas origens. Diante dele repousam uma convidativa travessa de pães de queijo e uma garrafa de café fumegante. É com essa recepção à brasileira que Willian conversou por cerca de 30 minutos com a Trivela em uma entrevista que passou a limpo um pouco de sua longa carreira, assim como os planos para o futuro.

Já são dez anos de Londres, uma cidade que arrebatou o atacante à primeira vista e que ele não teve dificuldade alguma de aprender a amar. A família está tão adaptada e feliz, que ao fundo da entrevista, é possível ouvir as filhas do atacante conversando em um fluente inglês com sotaque britânico. Os muitos sorrisos distribuídos pelo jogador ao longo da conversa mostram que aos 35 anos, Willian conseguiu provar para ele e para os outros que ainda consegue render em alto nível na liga mais competitiva do mundo.

“Teve bastante (desconfiança). Quando eu saí (da Europa), todo mundo já falava ‘vai para o Brasil, vai se aposentar'. Aí, quando eu voltei muitas pessoas falaram: ‘Ele está voltando para curtir porque ele ama Londres. E não que eu tenha que provar algo para alguém. Acho que tinha que provar para mim mesmo que eu podia, que eu era capaz. Mas as coisas deram certo, né?” (Willian).

Willian com José Mourinho, o melhor técnico com que trabalhou (Foto: IconSport)

Deram tão certo, que o brasileiro renovou o seu contrato com o Fulham para esta temporada e segue liderando a equipe dentro de campo, a ponto de impressionar colegas, rivais e treinadores. Desde o seu comandante Marcos Silva – a quem chama de sucessor de José Mourinho, o “melhor de todos” – a Jürgen Klopp, passando por seu capitão Tom Carney. Não é à toa que o clube inglês quer (muito) a permanência do atacante por mais um ano.

Mas aos 35 anos e mais de 300 partidas de Premier League na carreira, Willian se permite escolher com calma qual será o próximo passo. A ambição ainda está ali presente, mesmo depois de 20 títulos colecionados em quase duas décadas de futebol. Futebol que, aliás, seguirá inserido na sua vida quando a aposentadoria vier – e, se depender dele, não será tão cedo.

Ao longo de meia hora de conversa, Willian revelou que tem planos e já se prepara para ser agente de jogadores. O atacante também elegeu José Mourinho como o melhor técnico que já trabalhou, derramou elogios a Hazard e elencou o seu atual treinador, Marco Silva, como um nome para o futuro da Premier League.

Confira a entrevista com Willian:

Willian aprendeu a chamar Londres de casa

“Desde quando eu jogava na Ucrânia, eu sempre vinha para Londres, para passar uns dias quando tinha uma folguinha. E foi logo quando eu também comecei a trabalhar com o meu empresário que mora aqui. E aí eu sempre vinha para cá. A primeira vez que eu vim, me apaixonei logo de cara por essa cidade. Enfim, uma cidade glamourosa, a cidade que você consegue desfrutar de várias formas, de várias maneiras. Depois consequentemente vim pra jogar, né? E já estou aqui há dez anos. Então é uma cidade que eu gosto bastante, que me sinto bem, consigo desfrutar, consigo andar tranquilamente, parar num café, tomar um café, enfim, eu curto bastante a cidade, gosto muito”.

“Quando eu vim a primeira vez, eu já fiquei apaixonado pela cidade, aí sempre coloquei na minha cabeça, falei: “Cara, quero morar em Londres. Se puder jogar lá e morar lá, vai ser perfeito”. E aí, lembro que o Chelsea foi um clube que teve interesse em mim, e aí, nossa, o Chelsea era de Londres. Pô, morar em Londres vai ser perfeito”.

Renovação de contrato com o Fulham

“Seguir em Londres, acho que seria bom, seria perfeito. Mas eu ainda não decidi qual vai ser o meu próximo passo. Como você falou, eu já tenho 35 anos, eu estou indo para o final da minha carreira, né? Então, tem que pensar muito bem nas decisões, qual vai ser o melhor lugar, qual vai ser o próximo passo a ser tomado. Mas, se pudesse, claro, continuar em Londres, ser em Londres, seria bom, seria perfeito”.

“O Fulham já sinalizou que quer. O desejo deles é da minha permanência, que eu renove o contrato. Mas eu junto com o meu empresário, a gente falou que só vai resolver isso no final da temporada. Acho que a melhor maneira, a melhor forma de fazer isso no momento é falar para eles esperarem. até porque eu tenho que também decidir será que vai ser aqui mesmo, se vou para outro lugar, então falei para eles esperarem um pouco”. (Willian)

Ambições na carreira

“Eu tenho uma ambição ainda de continuar desfrutando do futebol, de continuar jogando em alto nível, claro, é sempre bom. Você está em um lugar onde você vai brigar por alguma coisa, jogar em uma grande liga como é aqui na Inglaterra. Cada jogo estádio lotado, isso te motiva muito. Então eu tenho ainda esse desejo, essa vontade de querer continuar jogando em alto nível. Eu me sinto bem, tenho até 35 anos, estou me sentindo bem. Creio que eu consiga jogar em alto nível em mais alguns anos, mas como eu falei, a gente tem que pensar direitinho qual vai ser o próximo passo para tomar a melhor decisão”.

Brigar pelo meio da tabela no Fulham ou por título em outro lugar?

“Claro que dependendo, quando você chega uma idade assim, tem jogador que já não quer… Que pensa “já fiz o que tinha que fazer, acho que eu vou pra um lugar mais tranquilo”. Mas eu, assim, se for um lugar legal, se for uma coisa que seja boa para mim, e claro que vai brigar por título, né, porque jogador sempre quer um lugar que você vai brigar por alguma coisa, brigar por títulos é sempre importante. Então eu tenho esse pensamento, sim, de brigar, continuar brigando por título, até o final, independente de onde eu esteja, né, até o final da carreira”.

Resposta a críticas no Fulham

“Teve, teve bastante, teve bastante. Quando eu voltei. Quando eu saí, todo mundo já falava, vai para o Brasil, vai ficar lá, vai aposentar lá, acabou. E aí quando eu voltei, muitas pessoas falaram: está voltando para curtir porque ele ama Londres, está voltando para ficar em Londres com a família dele. E, cara, graças a Deus, não que eu tenha que provar, tinha que provar alguma coisa para alguém, acho que tinha que provar para mim mesmo que eu podia, que eu era capaz, mas as coisas deram certo, né? Acho que quando você tem… eu tive uma conversa com o Marco Silva, ele passou muita tranquilidade, e aí você tem a confiança de todos assim ao redor, então conseguir voltar a jogar aquilo que todo mundo sabia”.

Elogios de Marco Silva e Klopp

“Fico muito feliz. De verdade. Saber que, de alguma forma, eu fiz história aqui na Inglaterra e continuo jogando aqui. É um motivo de orgulho, um motivo de… Você sente uma satisfação diferente de ouvir elogios de jogador do time. Até treinador de outra equipe, treinador do próprio time também. Então, saber que eu fiz as coisas da melhor maneira e continuo fazendo as coisas da melhor maneira dentro de campo e acho que isso me motiva, isso é como se fosse um combustível, me motiva ainda mais pra continuar jogando melhor e melhor”.

Ovação dos torcedores do Chelsea

“Na temporada passada, quando nós fomos jogar lá, eu fiquei surpreendido. É claro que eu sei que eu tenho o carinho do torcedor, o respeito do torcedor do Chelsea, mas eu lembro que quando eu fui substituído, nossa, o estádio inteiro levantou, começou a aplaudir. Eu fiquei até um pouco emocionado. Foi uma festa bonita que eles fizeram para mim. Então, ter esse carinho também do torcedor do Chelsea, sem dúvida nenhuma, fica guardado no meu coração, com certeza”.

Por que o Willian gosta tanto da Premier League?

“Eu acho que é um jogo rápido, de força também, até mesmo técnico, tem muita técnica. Acho que antigamente, não. Mas hoje em dia se tornou um futebol que mistura muitas coisas: é técnico, de força, rápido, de muitos jogadores inteligentes também. Então, para mim, é o melhor campeonato do mundo, em unir os melhores jogadores, clubes grandes. Estádios sempre cheios, campos perfeitos”.

Por que o futebol no Brasil não consegue ser tão intenso?

“Eu acho que são alguns fatores. Claro, o gramado, sem dúvida, é um fator, deve ser o principal. Infelizmente, no Brasil a gente não tem um padrão de gramado. O calendário também é um fator que precisa ser citado. É uma loucura o que fazem no Brasil, são muitos jogos. E eu acho que terceiro, a temperatura, o calor também. Eu acho que isso acaba atrapalhando um pouco de ter essa intensidade. E na Inglaterra consegue ter essa intensidade, porque o tempo também ajuda. Mas eu acho que isso não seja o principal. O principal é o campo, depois acho que o calendário, porque são muitos jogos e acaba desgastando bastante os jogadores”.

Mantém a posição de não voltar ao Brasil?

“Sim. Eu acho que eu já voltei para o Brasil, fiquei um ano. Na verdade, antes mesmo de voltar aquela época ao Brasil, ao Corinthians, eu já tinha um pensamento, eu sempre falava nas entrevistas que eu não queria voltar, que não era o momento, que estava muito cedo, que eu não pensava em voltar ao Brasil, enfim, acabou naquela situação acontecendo, né, enfim, por algumas questões acabou isso acontecendo, mas hoje, sem dúvida. Na minha cabeça, realmente, até mesmo penso de encerrar fora”.

Plano de ser empresário

“Eu penso em ser um empresário. Já tenho isso em mente, já tenho praticamente tudo preparado para, quando parar, dar sequência como empresário. Treinador, não penso em ser treinador. Acho que, imagina, ter que viver tudo isso de novo, ali aquela rotina, então não é para mim, não”.

“Você vai pegando o gosto de querer ver, de participar mais das coisas, de querer entender como é que é, até para, quando parar, já saber como é que vai fazer as coisas. Ele (Kia Joorabchian, empresário de WIllian) é uma pessoa, assim, que é um empresário muito bem sucedido. Se tornou um grande amigo, então sempre tive a oportunidade de estar com ele, jantar, até passar férias alguns dias. E aí, você vai vendo a forma que ele conduz as coisas e você vai pegando isso, aprendendo um pouco, então com certeza pude pegar um pouquinho ali do que eu vi, do que eu aprendi com ele, pra poder também, quando parar, trazer isso comigo”.

Como jogar em intensidade aos 35?

“A gente tem que sempre estar cuidando. Principalmente hoje no futebol, futebol que mudou bastante. Acho que é um futebol mais dinâmico, mais rápido. Cada ano que passa, cada temporada que passa, vai ficando mais rápido o futebol. E bastante transição também. Acho que hoje se você não se cuida, impossível você conseguir jogar. E isso eu me cobro bastante, de poder estar me cuidando. Mas na idade que eu estou, tem que cuidar ainda mais, cuidar com alimentação, cuidar com sono também. Enfim, tudo aquilo que eu posso fazer para poder estar rendendo dentro de campo. Tenho acompanhamento de nutrólogo, tomo algumas vitaminas. Suplementos pra me dar força pra continuar jogando”.

Ídolo do Chelsea, Willian foi ovacionado em retorno ao Stamford Bridge (Foto: IconSport)

Elogios de colegas e adversários

Então, todo mundo, muitas pessoas falam isso. Gente do meu clube, gente de fora, adversários que a gente joga contra, fala tipo, “cara, quem olha você nunca vai falar que você tem 35 anos”. Fala que você tem uns 26, 27. E isso é legal escutar. No clube lá todo mundo: “cara, quero chegar aos 35 anos correndo desse jeito”. Isso é legal, escutar isso de pessoas, de jogadores, isso mostra que eu sempre procurei fazer as coisas da melhor forma.

Relação com Marco Silva

“Eu lembro que quando eu cheguei, eu estava aqui em Londres, vendo pra qual clube eu ia, e aí o meu empresário falou:  o Marco Silva quer falar com você. Sentei com ele, conversamos, e aí passou aquela tranquilidade, falou qual era o posicionamento do clube, o que ele esperava. Quando o meu empresário falou do Fulham, eu fiquei assim um pouco, eu falei “caramba, será?” Porque eu sei que o Fulham nos últimos anos vivia muitos estava altos e baixos, subia, descia. E aí quando fui conversar com o Marco, eu senti uma tranquilidade, uma confiança nele, de ver que ele é um cara que realmente trabalha muito e se esforça muito para poder fazer com que o time jogue da melhor forma. Então, sem dúvidas, foi depois dessa conversa com ele que eu fiquei mais tranquilo para poder assinar com o Fulham”.

“O Marco Silva foi um cara que desde a minha chegada aqui, um cara que sempre deu confiança, sempre passou confiança para mim, para poder jogar, para poder desempenhar o melhor futebol. E, assim, sem dúvida nenhuma, eu tenho certeza que ali no clube, é claro que respeito todos, todos eles, o dono do clube, mas não teve pessoa que me quis mais no clube do que o Marco Silva”.

“Ah, sem dúvidas. Daqui a pouco vai estar no clube grande, e eu sempre falo: tive um treinador que foi o Mourinho, que para mim foi o melhor que eu tive, mas o Marcos vem atrás ali. Marcos é o segundo sem sombra de dúvidas. Da forma que fala com os jogadores, da forma que trabalha dentro de campo, sabe gerir muito bem o time, os jogadores. Não adianta o treinador só ser bom dentro de campo, tem que ser bom fora de campo também, a parte humana hoje no futebol é muito importante, então ele é bom nas duas coisas” (Willian, sobre Marco Silva)

Mourinho, o melhor técnico com que Willian trabalhou

“Ah não, Mourinho pra mim foi o melhor que eu tive, eu sempre falo isso, o cara era. Nunca caía nenhuma pegadinha, nenhuma isca. Sempre muito bem preparado para as coletivas, para as reuniões, no intervalo dos jogos. O cara nos treinamentos também, ele não era muito de trabalhar taticamente. Trabalhava, sim, mas tem treinadores que trabalham muito mais. Por exemplo, o treinador italiano fica lá trabalhando uma hora taticamente. Ele trabalhava o básico ali, jogadores entendiam. Muitas vezes, nem no campo ele trabalhava. Só mostrava no vídeo: “a gente vai fazer isso, se esse jogador fizer isso, você faz isso”. E aí era tudo mastigado. Ia para o jogo sabendo, se caso acontecer isso no segundo tempo, a gente estiver perdendo, ele fala: “vou colocar esse, vai jogar assim e tal”. Um cara que para mim, foi top.

“Tudo o que ele fala acontece. Ele falava: “esse cara vai pegar, vai fazer isso, e esse vai atacar assim”. Aí, de repente tomava um gol desse jeito, e ele falava: “eu avisei”. Desse jeito”. É um cara que vai falar a verdade na sua frente sempre. Ele falava, você faz um jogo ruim, e ele falava “f***, jogou um c**** ontem”. Desse jeito. Mas também quando vocÊ joga, ele fala: “você jogou muito”. Ele sempre reconhece e fala a verdade, mas quando tinha que dar dura, ele dava. Tomava dura dele ali, gritava. Mas depois do jogo estava abraçando. Um treinador que foi o melhor que tive. Às vezes ele dava uma dura. Eu lembro de um jogo contra o PSG, precisávamos ganhar de dois gols de diferença, classificamos. E ele ficava louco quando a gente perdia dividida. Eu perdi, vou fazer o que? E ele começou a gritar. Olhei para ele: o que eu faço, o cara ganhou a bola. E aí depois do jogo, ele fala: esquece, ficou lá. A gente ganhou, então era assim. Dava a dura, mas depois… E quando ele gosta de você, ele vai brigar por você até o final”.

Hazard ou Neymar?

“Que isso. Assim, eu falo que jogava com o Ney na Seleção. Então tinha um período curto com ele. Não tinha o dia a dia. O Hazard eu via o que ele fazia. Não que eu não visse o que o Ney fazia, mas via pela TV. O Hazard e o Neymar são os melhores. O Hazard é um grande amigo meu, eu acho um fenômeno, mas se tivesse que escolher um, eu escolho o Neymar, né? Você pode fazer assim, fecha o olho e em qual cair está bem servido”.

Hazard não gostava de treinar?

“É verdade. Ele não era muito de treino, ficava na inhaca. Não amarrava nem a chuteira às vezes. Era impressionante. Ele ficava lá, dava um pique. E parava. Perdia a bola e voltava andando. Mas chegava no jogo,
era só dar a bola nele que ele resolvia. Ele foi assim… Que jogador. Infelizmente, parou de jogar muito cedo agora.  Eu joguei com ele seis, sete anos ali no Chelsea, uns dos melhores que eu vi jogar, sem dúvida” (Willian, sobre Hazard).

Relação com Andreas Pereira

“Todo mundo vê as notícias, né, as redes sociais, às vezes quando acontece alguma coisa, a gente comenta, né? A gente fala. Mas, sim, quando eu cheguei aqui, a gente conversou bastante. De que foi muito difícil pra ele, o tempo depois daquele jogo. Que foi muito pesado pra ele e tal. Eu falei: “pra mim também foi difícil”, tinha um tempo difícil lá. Mas ele é um cara que, cara, se tivesse a oportunidade de… ele ama o Flamengo. Ele ama o Flamengo. Ele sempre fala, você já deve ter visto nas redes sociais que às vezes ele posta lá. Acho que assim, hoje, não sei hoje, mas de repente mais pra frente, futuramente, se o Flamengo tiver o interesse nele, eu acho que ele voltaria”.

Foto de Eduardo Deconto

Eduardo Deconto

Eduardo Deconto nasceu em Porto Alegre (RS) e se formou em Jornalismo na PUCRS. Antes de escrever para a Trivela, passou por ge.globo e RBS TV.
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