Premier League

Shearer: “O Newcastle de Mike Ashley era um arremedo de clube – agora que se ele foi, estou empolgado, mas em conflito com o envolvimento saudita”

Lenda e torcedor do Newcastle, Shearer trouxe uma interessante perspectiva sobre o momento do clube

Alan Shearer é o maior ídolo do Newcastle nas últimas décadas. Mais do que isso, o artilheiro representa o clube além de sua contribuição em campo. O veterano nunca escondeu sua torcida pelos Magpies e isso motivou sua mudança para St. James’ Park no auge da carreira, quando outros clubes também o cobiçavam. Shearer não conquistou títulos com a camisa alvinegra, mas alimentou sonhos e reforçou a identidade. Continuou por perto mesmo depois de pendurar as chuteiras.

Shearer já não atuava mais quando Mike Ashley se tornou dono do Newcastle. Mesmo assim, sua história acabou usada nos primeiros anos de gestão do execrado proprietário dos Magpies. O ex-atacante teve uma rápida passagem pelo comando técnico e foi uma espécie de “boi de piranha”, sem evitar o rebaixamento do clube para a segunda divisão inglesa. Shearer depois acabou ignorado por Ashley e se tornou um dos principais críticos do mandatário, um dos tantos no meio da multidão insatisfeita no norte da Inglaterra.

Nesta semana, Mike Ashley deixou o Newcastle. E esse motivo, acima de tudo, foi o que rendeu a comemoração da torcida na frente de St. James’ Park. Encerrou-se o período no qual o clube se distanciou de sua massa, conhecida como uma das mais apaixonadas do futebol inglês. Com a mudança de donos, surgem também as expectativas sobre um investimento massivo realizado pela Arábia Saudita. Mas também surge um conflito moral, diante daquilo que os novos proprietários representam e das violações de direitos humanos ao redor.

Nesta sexta, Shearer assinou um artigo no site The Athletic sobre a venda do Newcastle. Fala como um antigo ídolo e um antigo funcionário de Mike Ashley, mas, sobretudo, fala como um torcedor. É uma perspectiva bastante interessante quanto ao sentimento pelo fim de uma era desanimadora e as dúvidas sobre o que virá.

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Esgotado, é como me sinto. Esgotado mas animado, cansado mas entusiasmado, otimista e desconfortável, tudo ao mesmo tempo. E, se essas coisas parecem uma contradição, então bem-vindo ao mundo do Newcastle United, onde nada é o que parece.

É um momento para fazer um balanço, para celebrar o fim de 14 anos terríveis e para inaugurar algo novo. Algo que tem potencial para ser grande e transformador. Algo que vem com algumas advertências importantes.

Mike Ashley foi embora e quase tenho que me beliscar para acreditar nisso. É estranho nutrir qualquer emoção sobre o clube da minha cidade natal, qualquer coisa além de raiva e decepção, porque por muito tempo temos sido uma sombra. Nós existimos, apenas. Existindo como zumbis existem – meio mortos e meio vivos. O Newcastle joga, cumpre suas rodadas, mas não se preocupe em verificar o pulso.

Pode ser difícil explicar o Newcastle de Ashley para aqueles que não o vivem. Tem sido um conceito difícil de entender. Não somos como o Sheffield Wednesday ou nossos vizinhos e rivais Sunderland. Não somos uma versão do que o Derby County está atravessando agora. Assim como eles, somos um grande e histórico clube. Diferentemente deles, nunca realmente afundamos numa crise, mas ao mesmo tempo sempre parecia que estávamos atravessando uma.

Ashley nunca entendeu que, para um clube funcionar, ele precisa ter uma conexão profunda com as pessoas que pagam por seus ingressos aos jogos, as pessoas que trabalham a semana inteira para investir seu tempo e seu dinheiro para torcer. Aconteceram muitos momentos tóxicos – a temporada em que tive uma breve passagem como treinador (ao lado de outros três infelizes), dois rebaixamentos, a mudança de nome do St. James’ Park e incontáveis danos ao nosso prestígio – mas, nas últimas temporadas, o Newcastle tem sido um arremedo.

Alan Shearer, do Newtcastle, comemora gol em 1998 (Foto: Mark Thompson /Allsport)

Diversão – lembra disso? O esporte deve ser uma liberação. Com Ashley, isso se tornou uma tarefa árdua.

Não havia nenhuma identidade, nenhum empurrão para o progresso, pouca ou nenhuma melhora na infraestrutura, investimento em jogadores ou na hora errada ou nos nomes errados, o estádio reduzido a um anúncio barato e surrado, e um futebol horrível, dos piores que me lembro. O Newcastle United deveria trazer energia para a cidade, mas, em vez disso, o clube minou essa energia.

A crise foi significativa e suficiente para fazer, há alguns anos, que 10 mil torcedores abandonassem o clube. Esse foi o número de ingressos gratuitos que o Newcastle distribuiu, uma quantidade surpreendente quando você considera nossa reputação de pessoas que comparecem independentemente do momento para apoiar o time e cantar por ele. Todos aqueles homens, mulheres, meninas e meninos encontraram outra coisa para preencher seu tempo. Dez mil histórias tristes.

Ao redor de tudo isso, tem ocorrido uma saga sobre a compra do clube e não apenas esta, que agora se consumou, mas muitas outras antes. Eu disse a mim mesmo, anos atrás, que não comentaria mais sobre isso porque estava farto. O telefone tocava com o último não-desenvolvimento, a última onda de atividades que levavam a lugar nenhum e parecia o Dia da Marmota. Sempre achei que, se acontecesse e quando acontecesse, seria do nada. E aqui estamos.

Shearer pelo Newcastle (AP Photo/Scott Heppell)

Sei que empatia é uma raridade no futebol, mas, por favor, tente se colocar em nosso lugar pelo menos em um aspecto.

Ashley vendendo o clube é como um sopro de ar. É apenas alívio. Para alguns torcedores mais jovens, esse é o único Newcastle que eles conheceram e isso parte meu coração; doeu muito ver o clube sobrevivendo e nada mais. Meus amigos, minha família e muitos ex-companheiros querem dar um passo para trás e refletir sobre a última década perdida. Deveríamos ter permissão para isso.

Estou me enganando, eu sei disso. Porque o descanso estará ausente pelo que vem a seguir. Existem tantos estereótipos e clichês sobre os torcedores do Newcastle, que esperamos muito do time, que esperamos o mundo, que nunca estamos satisfeitos. Tudo isso é bastante injusto. Os torcedores teriam ficado em êxtase com a chegada de alguém que tivesse algumas moedas, mas pudesse oferecer o tipo de esperança ou direção que nunca existiu em Ashley. Acontece que temos algo muito diferente.

Chega um momento em que o Newcastle está remando contra si de uma maneira que não me lembro. As redes sociais têm sido um lugar sombrio de disputas e brigas internas. Pessoas que estavam nas arquibancadas contra o Wolverhampton na última semana me disseram que foi desanimador. E isso acontece num momento em que o time é o penúltimo na Premier League, sem uma vitória depois de sete partidas e com a cabeça do técnico Steve Bruce sob forte escrutínio.

Amanda Staveley montou esse consórcio e conduziu um acordo até a conclusão, depois de quatro longos anos desde que ela apareceu pela primeira vez em St. James’. A história dela é de perseverança, mas é o envolvimento da Arábia Saudita que captará as manchetes e guiará a narrativa. Teoricamente, pelo menos, o Newcastle agora se tornou o clube mais rico do mundo, embora meu entendimento é de que a abordagem dos novos proprietários será ponderada e sem pressa.

Não acho que estou revelando muito ao dizer que já tive algumas conversas com pessoas envolvidas no consórcio e que apreciei o gesto, feito por cortesia. Não é sobre mim, mas já é mais que recebi de Ashley desde a tarde em que sentamos juntos depois do rebaixamento do Newcastle em maio de 2009 e apertamos as mãos em um plano para voltar à Premier League. Depois, nada de telefonemas, nada de nada.

Isso apenas indica a forma como Ashley presidia o clube.

Shearer nos tempos de treinador (Foto: Getty Images / One Football)

Todos entendemos que o mundo não é perfeito, mas apenas nos diga o que está acontecendo. Seja honesto conosco, seja aberto. Dê algo para nós, qualquer coisa, pelo amor de Deus. Em vez disso, silêncio, quebrado pela declaração estranha e anônima sobre a aquisição. É profundamente errado que a única pessoa a falar tenha sido o treinador. Bruce foi deixado para trás.

Não acho que o Newcastle ficará sem palavras a partir de agora. Todas as indicações são de que os torcedores serão colocados na frente e no centro.

Você sabe o que eu quero? Sentir que estamos todos na mesma página, remando na mesma direção. Devolva nosso clube de futebol. Não estou preocupado com a riqueza, só quero sentir a conexão novamente, para que os donos tentem nos melhorar e para que possamos melhorar. Acho que posso falar pela maioria dos torcedores do Newcastle quando digo isso.

Também sabemos que há outras consequências para essa aquisição, que a conversa será externa também e a conversa será em volume alto.

Não deixei isso no final para varrer as coisas para debaixo do tapete, mas sim para enfatizar. Devemos isso a nós mesmos e ao resto do mundo, para ouvir as evidências sobre abusos de direitos humanos na Arábia Saudita, para nos educar e saber onde estamos nos metendo. É importante estar atento sobre o sportswashing e o que isso realmente significa.

Se você quer saber mais sobre a Arábia Saudita, recomendo ler esse artigo.

A estátua de Shearer no St. James’ Park (Foto: Getty Images / One Football)

O futebol nos coloca em posições difíceis. E pode nos tornar hipócritas também. Odiamos aquele bastardo que joga duro por outro time, até o momento em que ele assina com nosso clube e se torna nosso bastardo. O VAR é uma piada e então nosso time recebe uma ajuda, e é a melhor coisa de todos os tempos.

Quando se trata de mau comportamento ou decisões ruins ou boas, andamos na ponta dos pés em um campo minado. Nós só nos importamos com nós mesmos.

Esse não é meu território, mas me parece que as questões éticas não tiveram um papel importante na compra do Newcastle. Ou, dito de outra forma, elas fazem parte da discussão, mas não da tomada de decisão. Elas devem ser algo fundamental do teste para donos e diretores? Talvez devessem, e talvez todo o sistema de governança precise de reforma para discutir isso. Estas são as regras que os clubes decidem por si.

O que eu acho mais difícil de aceitar é que os torcedores do Newcastle devam ser chamados para defender algo sobre o qual eles não têm controle. Pesquisas conduzidas pela organização de torcedores foram esmagadoramente a favor da venda, o que é uma coisa, mas essa é uma transação conduzida entre um bilionário e alguns bilionários mais ricos. Não fomos consultados. Não tivemos escolha. O que temos é a responsabilidade de examinar isso com olhos abertos.

Se os sauditas são o problema, então eu aceito, respeito e completamente entendo isso. Mas também existiram outros problemas. Talvez tenha sido o envolvimento na Premier League da Rússia, da China ou de Abu Dhabi. Talvez fossem americanos usando o dinheiro do próprio clube para concluir a compra. O Catar vai sediar uma Copa dentro de um ano. A Arábia Saudita investe em todos os tipos de negócio nesse país e numa variedade de esportes ao redor do mundo. Era apenas uma questão de tempo até que abordassem o futebol.

Isso veio para o Newcastle e estou empolgado com a perspectiva, assim como em conflito. Quero que meu time compita e desafie, quero que meu clube signifique algo além de sua existência taciturna, desajeitada e infeliz sob o comando de Ashley. Tenho essa chance agora e estou feliz.

Quero que meu clube represente minha cidade e minha região, não um regime autoritário e distante, mas parece que a segunda coisa está abrindo caminho para a primeira.

Talvez seja apenas nossa vez.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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