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Se nem a Uefa tenta impedir a Copa-2022 em novembro, ela deve ser mesmo no Catar

Se tem algo que é tradicional no futebol é a Copa do Mundo. Disputada desde 1930 – apenas parada durante o período da Segunda Guerra Mundial – e, desde então, o maior palco do futebol no mundo. De um jeito que Champions League e Libertadores nunca serão. Que nenhum campeonato será. A Copa é maior que tudo. Só que isso não deveria significar que a Copa pode ser em qualquer lugar, de qualquer jeito, em qualquer tempo. A Fifa anunciou a recomendação da sua força-tarefa para a Copa do Mundo de 2022 em novembro e dezembro, como era esperado. Ninguém gostou. A Uefa, esperava-se, iria bradar contra a decisão. Afinal, tem as ligas mais ricas e poderosas do mundo e elas serão as maiores afetadas por essa mudança de calendário. Mas a entidade comandada por Michel Platini deu de ombros. Basicamente, a Uefa disse: “Bom, se não tem jeito, que seja o menos pior”. Os clubes e ligas, então, devem ter pensado: se nem a Uefa é por nós, quem será?

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“A Uefa acredita que, para benefício dos jogadores e torcedores, o evento deveria ser disputado no inverno e agora espera a decisão final da reunião do Comitê Executivo da Fifa. A Uefa não vê grandes problemas em reagendar suas competições para a temporada 2022/23, se a proposta da Copa do Mundo Fifa 2022 for aprovada pelo Comitê Executivo da Fifa e a Uefa entende que a competição deveria ser encurtada e assim o período que os jogadores são liberados é reduzido”, diz o comunicado da confederação que representa a Europa. Logo a Uefa, de quem se esperava uma posição claramente contrária.

A reação não foi bem vista por Richard Scudamore, presidente da Premier League, que se sentiu abandonado. “A Fifa manteve suas datas internacionais, mantiveram a sua Copa do Mundo intacta, e até a Uefa, que, eu acho, nos desapontou um pouco, claramente forçou isso… Então a Champions League deles pode começar e continuar novamente, como sempre faz”, criticou o dirigente inglês.

Karl-Heinz Rummenigge, presidente da Associação Europeia de Clubes (ECA, em inglês) mostrou insatisfação por meia de uma nota oficial. “Para a família do futebol, o reagendamento da Copa do Mundo de 2022 representa uma tarefa difícil e desafiadora. Todos os calendários de jogos ao redor do mundo terão que acomodar este torneio em 2022/23, o que requer de todos vontade de se comprometer. Não se pode esperar clubes e ligas europeus paguem o custo desse reagendamento. Nós esperamos que os clubes sejam compensados pelo prejuízo que uma decisão final irá causar”, diz o comunicado.

A Associação de Ligas Europeias Profissionais de Futebol (EPFL) foi outra a manifestar o seu descontentamento ao dizer que a proposta irá “perturbar e causar grande dano ao andamento normal das competições domésticas da Europa”.

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A Liga Alemã de Futebol (DLF) disse estar preocupada com os jogadores. “Jogar uma Copa do Mundo em novembro/dezembro é um fardo organizacional, assim como financeiro, para as ligas europeias”, disse o diretor da entidade, Andreas Rettig. “Também é preciso levar em conta a pressão nos melhores jogadores. Um plano de redução de dias de jogos não pode significar o mesmo número de jogos sendo disputados em um período menor de tempo”, disse ainda o dirigente alemão.

A FIFPro, associação mundial dos jogadores, também falou sobre a questão e considera que a mudança já é uma vitória. “As mudanças da agenda de jogos que possa potencialmente colocar uma pressão extra de trabalho nos jogadores é uma questão para a FIFPro analisar junto com todas as partes envolvidas no tempo certo”, diz comunicado da entidade.

Segundo o secretário-geral da entidade, Theo van Seggelen, impedir que a Copa-2022 fosse disputada no verão do país era a primeira preocupação. “A FIFPro colocou na mesa suas preocupações já que as condições no Catar vão além do calor. É uma questão de direitos humanos mais do que qualquer outra coisa”, disse o dirigente.

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Vale lembrar: o presidente da Uefa, Michel Platini, foi um embaixador da candidatura do Catar para 2022. Mais do que isso, a sua relação com os catarianos é intensa: foi ele que intermediou um encontro entre o ex-presidente Nicolas Sarkozy, os dirigentes do Paris Saint-Germain e o grupo Qatar Sports Investment (QSI), em 2011, que gerou a entrada dos investidores no clube. Como explicamos neste post, a relação de Platini com os catarianos é bem controversa e alvo de críticas.

Nem clubes, nem jogadores, nem ligas, nem a Uefa pareceram felizes com a decisão. Mas os discursos já são resignados. Ninguém parece disposto a se mexer, nem mesmo a Uefa, que representa os clubes e ligas que serão prejudicados. Há um certo tom de conformismo que é até estranho. Depois de tanto barulho, tudo será passivamente aceito? É o que parece. E por mais que a decisão só será ratificada mesmo nos dias 19 e 20 de março, no Congresso da Fifa, é bom deixar as barbas de molho: dificilmente essa questão não será aprovada nos dias 19 e 20 de março, no Congresso da Fifa. E se nem a Uefa, que tem poder de fogo para ir contra, parece disposta a entrar nessa briga, quem irá?

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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