Premier League

Os motivos que dão razão para Pochettino ter deixado personagem bonzinho de lado no Chelsea

Durante quase 4 meses, Pochettino segurou um personagem bonzinho que desabou após a derrota do Chelsea para o Newcastle

A humilhante derrota por 4 a 1 diante do Newcastle, no sábado (25), pela Premier League, fez Maurício Pochettino deixar de lado um personagem que sustentava desde sua chegada ao Chelsea no começo da temporada: o de treinador bonzinho e compreensivo. Em uma furiosa e rápida coletiva — que durou nada mais do que sete minutos — após a goleada sofrida, ele explodiu e teve mira certa em seu próprio time, no comportamento de seus jogadores em campo.

— Simplesmente não estamos preparados para competir da melhor maneira. Às vezes é como se fosse assim: ‘OK, vamos enfrentar o Manchester City e todos vão estar focados em nós, vamos lutar até o fim'. Mas agora precisamos traduzir. Os grandes times se apresentam dessa forma toda semana ou a cada três dias. Isso é algo que precisamos incorporar na equipe — esbravejou o treinador.

O motivo que levou Pochettino a fazer tais acusações é claro: seu Chelsea se comporta de maneira completamente diferente em grandes e pequenos jogos. Mostra lapsos de atenção, quando não de vontade, e perdeu, ao longo da temporada, diversos pontos valiosos em partidas consideradas mais fáceis, enquanto conquistou outros pontos — igualmente valiosos — em partidas contra adversários melhores.

Pochettino tem razão nas críticas que faz ao seu Chelsea?

Sim, ele tem. Uma análise mais profunda nas partidas que o Chelsea disputou na Premier League — já que não está na Champions League, Liga Europa ou até mesmo Conference League dado seu desempenho pífio na temporada passada — mostra isso. Vamos aos fatos:

Ainda em formação, até sem alguns dos jogadores que estão entre os principais do time na temporada (por exemplo, Cole Palmer), o Chelsea estreou na Premier League contra o Liverpool. Esperava-se uma derrota, mesmo jogando em casa, diante de um adversário mais podersoso. Mas o Chelsea foi intenso, combateu e saiu de sua estreia na competição com um empate em 1 a 1 bastante valioso, dadas as situações já esclarecidas.

O otimismo foi para baixo do tapete logo na semana seguinte, diante do West Ham. O Chelsea saiu atrás, empatou ainda no primeiro tempo e perdeu um pênalti logo antes do jogo ir para o intervalo. Voltou irreconhecível. Tomou um baile de bola do rival londrino e, mesmo com um a mais por boa parte da segunda etapa, acabou perdendo de 3 a 1. Na sequência, compensou ao vencer o fraquíssimo Luton Town por 3 a 0 e, vista a tabela que viria na sequência, empolgou com uma nova possível engrenada.

Não o fez.

Em casa, perdeu por 1 a 0 para o Nottingham Forest em mais um jogo marcado pela falta de concentração dos jogadores. Fora, empatou sem gols com o Bournemouth e fechou a sequência de três jogos sem vitória novamente em Londres, perdendo por 1 a 0 para o Aston Villa. Foi se recuperar apenas diante do Fulham, vitória por 2 a 0 fora de casa, e diante do lanterna Burnley, goleada por 4 a 1 longe de Londres novamente.

A sequência que prova o ponto de Pochettino

Após vencer o Burnley, o Chelsea teria uma sequência para lá de desafiadora: Arsenal e Brentford em casa, seguidos de Tottenham como visitante e Manchester City novamente como mandante.

Diante dos Gunners, seus maiores rivais em Londres, a falta de concentração criticada por Pochettino talvez tenha dado as caras de maneira mais acintosa. O Chelsea abriu 2 a 0 no placar e sustentou a vantagem até mais da metade da segunda etapa. Mas foi necessário um lapso e 13 minutos para que o Arsenal empatasse e, por pouco, não virasse a partida. Decepção em Stamford Bridge.

Decepção essa que apenas se perpetuou na partida seguinte: novamente um primeiro tempo bom diante do Brentford, sem sofrer gols e nem fazê-los, mas com pelo menos algum domínio. Tudo isso foi por água abaixo no segundo tempo e os rivais saíram de campo com um ótimo 2 a 0.

Quanto falta para o Chelsea ser competitivo?

Muito, a resposta é simples. E Pochettino sabe disso. As respostas após a derrota diante do Newcastle deixam claro que o treinador encara a acachapante goleada a favor contra o Tottenham, por 4 a 1, foi quase que um erro de percurso de seu errante grupo. Antes de levar os 4 a 1 deste último sábado, o Chelsea ainda conseguiu um empate bom pelas circustâncias e pelo adversário, o Manchester City, mas no qual novamente levou muitos gols.

— A quantidade de gols que sofremos ocorre porque precisamos estar mais focados e concentrados. Hoje, concedemos os gols tão facilmente. É algo sobre o qual sempre conversamos e tentamos ser sólidos em nossa linha defensiva. Mas não se trata apenas da linha defensiva. É sobre nossa atuação como grupo — afirmou Pochettino após a derrota para o Newcastle.

Não é possível atribuir a responsabilidade a um jogador específico pelos fatos que Pochettino critica. Os jogadores parecem alternar lapsos de concentração. Mesmo o veterano Thiago Silva está envolvido, que o diga o Newcastle, com seu toque desastroso logo após o rival retomar a liderança em 2 a 1, oferecendo a Joelinton uma oportunidade fácil de ampliar ainda mais a vantagem.

Há algumas circunstâncias atenuantes, é claro. Foi amplamente divulgado que o Chelsea contratou muitos jogadores e passou por uma grande rotatividade no elenco desde que o consórcio Todd Boehly-Clearlake comprou o clube há um ano e meio. Considerando também as diversas ausências devido a lesões, talvez não seja surpresa que, em alguns momentos, ainda pareçam mais um grupo de indivíduos do que uma unidade coesa.

Realmente chegou a hora de Pochettino não ser mais bonzinho.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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