Em um intervalo de 13 dias (entre 21 de dezembro e 2 de janeiro), a Premier League realizou quatro rodadas – e logo depois, a Copa da Inglaterra. Houve casos em que não permitiu nem 48 horas de descanso aos jogadores, como na epopeia do Wolverhampton, que enfrentou Manchester City e Liverpool em sequência. A discussão do calendário insano do futebol inglês no fim do ano não é nova, e esta temporada inclusive traz uma mini-pausa em fevereiro, mas o pico de durante as festas foi muito preocupante.

Segundo dados enviados pelo site especializado Premier Injuries ao Telegraph, houve 53 lesões diferentes ao longo das rodadas de fim de ano, o que dá uma média superior a uma por jogo. O total do mês de dezembro e dos primeiros dias de janeiro chegou a 96, apenas uma a menos do que o combinado de agosto (48) e setembro (49), considerando problemas físicos que duraram pelo menos dez dias.

O número pode crescer porque 17 jogadores estavam sob avaliação quando os dados foram publicados, na última quinta-feira. Um estudo parecido encomendado pela BBC identificou 74 lesões de todas as gravidades nesse mesmo período. Por volta de seis jogadores se machucaram a cada 24 horas, em média, e o total representa 5% dos atletas disponíveis para atuar na Premier League no começo da temporada (500 registrados mais 1.013 com menos de 21 anos).

Alguns exemplos foram gritantes. Steve Bruce, técnico do Newcastle, precisou fazer três alterações contra o Leicester antes do intervalo, graças a lesões na coxa de Jonjo Shelvey e Javi Manquillo e uma na região da virilha de Jetro Willems. No segundo tempo da derrota por 3 a 0, construída graças a muitos erros da linha defensiva, Fabian Schär também sentiu a coxa e deixou os Magpies com dez homens nos minutos finais.

Manquillo e Shelvey ainda não têm previsão de retorno, mas Schar e Willems devem ficar afastados por entre duas e três semanas. DeAndre Yedlin teve um problema na mão naquela mesma partida, mas já entrou em campo contra o Rochdale no último fim de semana. “Você tem lesões se forçar os jogadores a atuarem cansados. Eu disse um mês atrás que pedir para jogadores fazerem dez partidas em dez dias é ridículo. Essa é a consequência”, afirmou Bruce.

O primeiro dia do ano, um divisor na maratona por ser a última rodada da Premier League antes da Copa da Inglaterra, que permite mais rotações, teve algumas lesões sérias, além do atacado do Newcastle. O Aston Villa perdeu Wesley e Tom Heaton pelo restante da temporada, ambos com lesões no ligamento cruzado do joelho. Três dias antes, Calum Chambers teve o mesmo problema e também volta apenas no segundo semestre.

Harry Kane também se machucou no Ano Novo e, embora ainda não se saiba quanto tempo ficará afastado, José Mourinho confirmou que foi uma “lesão séria”. O Wolverhampton, cujo treinador Nuno Espírito Santo previa um período complicado com jogos contra City e Liverpool separados por menos de 45 horas, passou relativamente incólume, com apenas Patrick Cutrone lesionado e uma boa vitória contra o Manchester City – e derrotas para Liverpool e Watford.

O campeão mundial fez 11 jogos desde o começo de dezembro, incluindo as quartas de final da Copa da Liga nas quais colocou uma equipe de jovens porque o time principal estava no Catar, e colecionou mais alguns problemas. Naby Keita e Shaqiri ficaram fora do jogo contra o Sheffield United e James MIlner precisou ser substituído no começo do dérbi contra o Everton, pela Copa da Inglaterra, com um time todo reserva escalado por Jürgen Klopp – que mesmo assim conseguiu vencer por 1 a 0.

A maratona é sempre creditada a uma questão cultural, mas é realmente necessário haver uma rodada extra entre o Boxing Day, em 26 de dezembro, e o Ano Novo para manter a tradição? E colocar a maior parte dos jogos dela no dia 28, em vez do dia 29, que teve apenas três? “Nenhum tem problema com o Boxing Day, mas jogar em 26 e 28 de dezembro é um crime”, afirmou Klopp, cujo Liverpool teve a sorte de atuar apenas dia 29 e depois em 2 de janeiro.

“Não é ok e ainda temos isso. Neste ano, jogamos dia 26 e 29 e foi como se tirássemos férias. Eu entendo todos que dizem que não deveria acontecer. Não estão se queixando. Estão dizendo. Não é a favor do espetáculo. Não seria um problema jogar no dia 26 e no dia 29 com mais times. Não há motivo para mais times não terem um intervalo de mais de 48 horas entre jogos da Premier League. Claro que podemos dizer o que queremos, mas ninguém está ouvindo”, continuou.

“Todo ano é a mesma coisa, com jogos no dia 26 e 28. A ciência esportiva não lhe dá nada para lidar com isso. O corpo precisa de uma quantidade específica de tempo para se recuperar. Isso é ciência, mas a ignoramos completamente. Apenas dizemos ‘oh, eles correndo de novo hoje parece estranho’. Não estivemos nessa situação este ano, mas entendo cada treinador que mencioná-la de vez em quando – ou quase sempre – quando esse período chega porque não é certo, mas outras pessoas que decidem isso”, disse.

A , sindicato que representa jogadores profissionais em todo o mundo, havia alertado para a sobrecarga de calendário no começo da temporada, apontando casos específicos como Son, do Tottenham, e Sadio Mané, do Liverpool, com muitos jogos disputados e pouco tempo de descanso, por causa dos compromissos com suas seleções. Fez algumas recomendações na época, que incluíram obrigação de férias de quatro semanas uma pausa de duas ao longo da temporada, limite de partidas com menos de cinco dias de descanso entre elas e a consideração de um limite de jogos para os atletas.

A Inglaterra finalmente terá uma pausa em fevereiro, com dez partidas da Premier League espalhadas ao longo de dois finais de semana. Bobby Barnes, presidente para a Europa e vice-executivo chefe da FIFPro, afirmou ao Telegraph que essa é uma “ótima ideia e muito necessária”, mas que o problema vai além das fronteiras inglesas.

“Os órgãos do futebol, assim como os clubes e as ligas, precisam se unir globalmente para aliviar a pressão. Estamos em uma posição um pouco diferente – temos essa tradição de jogar no Natal e faz parte da nossa cultura -, mas parece que não é um sistema associado. Não podemos olhar para isso apenas do ponto de vista doméstico. Chegou a hora de termos uma visão holística (que busca compreender o fenômeno na sua totalidade). Precisamos de uma discussão conjunta”, afirmou.

“Você não faz jogos sem os jogadores. O interesse deles precisa ser mais bem protegido”, encerrou.