Premier League

O Norwich se recusou a tratar o rebaixamento como catástrofe e, confiando no mesmo projeto, volta à Premier League de imediato

Com a base que tinha faturado o acesso há dois anos, o técnico Daniel Farke repetiu o sucesso na Championship

O Norwich caiu na Premier League 2019/20 com uma campanha muito fraca. Exceção feita a vitórias sobre Manchester City e Leicester, os resultados expressivos foram raros, ainda que por vezes os Canários tenham dado trabalho aos favoritos. O estilo de jogo mais solto para um time recém-promovido não se encaixou na elite e os auriverdes encerraram a campanha afundados na lanterna, a 14 pontos de escapar da degola. Porém, fugindo do roteiro comum nos clubes de futebol, não se viu um cenário de terra arrasada em Carrow Road. O Norwich não demitiu seu treinador durante a campanha e nem mesmo com o descenso. Pois a continuidade no projeto se provou um acerto tremendo. Neste sábado, sobrando na Championship, os Canários confirmaram o retorno à primeira divisão. Nadaram de braçada com o mesmo Daniel Farke e com vários jogadores que não evitaram a queda.

A opção do Norwich por dar uma nova chance a Farke não é tão inusitada, considerado o trabalho realizado ao redor do clube. Quando subiu em 2018/19, os Canários indicavam ter posturas diferentes do corriqueiro no futebol profissional. O treinador alemão havia assumido o time em 2017 e, na primeira temporada, manteve o voto de confiança mesmo com uma campanha de meio de tabela na segunda divisão. A aposta foi recompensada um ano depois, quando os auriverdes fizeram um badalado Leeds United comer poeira e também superaram o ascendente Sheffield United para levar a taça da segundona em 2018/19.

No retorno à Premier League em 2019/20, o Norwich não deu tão certo quanto o Sheffield United. As Blades carregavam enormes interrogações por seu elenco limitado, que saltou da terceira à primeira divisão, mas o técnico Chris Wilder apresentou soluções interessantes e seu time virou um dos mais duros de se enfrentar na liga. Os Canários, por outro lado, não veriam o mesmo encaixe. Também não cometeram loucuras no mercado de transferência, apostando no grupo que conquistou a Championship, e não promoveram transformações abruptas no modelo de jogo. Só não deu certo, tornando-se presas à maioria dos oponentes.

Alguns resultados interessantes até ocorreram no início, como o triunfo sobre o City na quinta rodada, que rendeu elogios de Guardiola. Todavia, o elenco abaixo da concorrência somado às muitas lesões atrapalharam bastante o Norwich. Apesar da proposta ofensiva e de uma clara qualidade coletiva, os erros individuais se tornaram custosos repetidamente. A má fase virou uma bola de neve e a equipe não conseguiu se reinventar para escapar do rebaixamento. Tanto no ataque quanto (principalmente) na defesa, muitas falhas resultaram em muitas derrotas. O desempenho foi o terceiro pior da era Premier League, com apenas 21 pontos.

Farke, do Norwich

Por confiança da direção em seu trabalho, Farke se sustentou no cargo, sem ser demitido por um “fato novo”. E já que o treinador não caiu durante toda a campanha, por que não apostar na fórmula que tinha dado muito certo na Championship 2018/19 e repeti-la para 2020/21? A opção se provou perfeita. Se os Canários ainda não estavam preparados para competir na primeira prateleira, acabaram muito à frente dos concorrentes na segundona. O futebol dos auriverdes é bastante sofisticado para a Championship e garantiu uma caminhada relativamente tranquila, que quase sempre apontou ao acesso.

Há alguns outros fatores que ajudaram também. É preciso ponderar que os impactos da crise econômica gerados pela pandemia foram maiores na Championship do que na Premier League. O fato de estar na primeira divisão, mesmo tomando pancada, “protegeu” o Norwich de sofrer um rombo maior – assim como o Watford, outro candidato a subir de imediato. O clube tinha a gorda fatia da TV, bem como valores de direitos de transmissão maiores nesta temporada, garantidos a quem acabou de cair. Tão importante quanto isso, a diretoria não tinha buscado contratações aos montes com o acesso anterior, o que evitou dívidas e não inflacionou a folha de pagamentos. Com um orçamento estável, e num mercado retraído como um todo, os Canários agiram certo ao preservar seu elenco, em vez de promover uma limpa geral ou de tentar vender todos os destaques para fazer dinheiro. Esperaram só as ofertas que avaliaram como realmente vantajosas para faturar um pouco mais.

Como resultado, o Norwich entrou na segunda divisão passos à frente dos concorrentes, com mais segurança em diferentes aspectos. Isso permitiu que Daniel Farke ajustasse alguns pontos em campo. O time atual não é tão agressivo como aquele que conquistou a Championship em 2018/19. São 66 gols até o momento, bem abaixo dos 93 tentos daquela conquista. Em compensação, há mais equilíbrio e a defesa sofreu 31 gols, mais estruturada do que dois anos atrás, quando foi vazada 57 vezes. Tim Krul passou 18 partidas com a meta invicta. E não que o aproveitamento tenha sofrido com isso: com quatro partidas ainda por fazer, o Norwich já igualou as 27 vitórias registradas em 2018/19. Com menos empates, tem a perspectiva até de superar a marca dos 100 pontos. Foram 93 pontos naquela empreitada e já são 90 nesta.

Diferentemente do que aconteceu na Premier League passada, o Norwich ainda deu uma vacilada no início desta Championship. Venceu apenas um de seus primeiros quatro compromissos, figurando na parte inferior da tabela. Depois disso, começou o voo de brigadeiro. De outubro a novembro, os Canários emendaram nove partidas de invencibilidade, com sete vitórias. Foi o suficiente para que assumissem a primeira colocação. Antes do Boxing Day, o Norwich já tinha sete pontos de vantagem dentro da zona de acesso direto. Depois disso, o único momento de instabilidade veio no início de fevereiro, com três partidas sem ganhar e uma derrota para o Swansea, que tirou os auriverdes da primeira colocação após 16 rodadas seguidas. A resposta, contudo, foi firme.

O Norwich celebra o retorno (Foto: Imago / One Football)

O Norwich entrou em sua melhor fase exatamente diante do risco, quando ficou a um ponto de deixar o G-2. O Canários encadearam nove vitórias seguidas e dispararam, com dez pontos de vantagem na zona de acesso direto graças à arrancada. Depois disso, até vieram dois empates, mas a vitória por 7 a 0 sobre o Huddersfield indicou que algo grande estava próximo. No final de semana passado, a equipe venceu o Derby County e ficou a dois pontos da promoção. Tudo pronto para que a festa ocorresse neste sábado.

O jogo do Norwich aconteceu apenas no fechamento do dia. Desta forma, a equipe nem precisou entrar em campo para comemorar o resultado. Os tropeços de Brentford e Swansea se tornaram suficientes para garantir os Canários no G-2 e a volta à Premier League. Desta forma, até pareceu que a ressaca bateu na hora de entrar em campo contra o Bournemouth. Os auriverdes sofreram sua primeira derrota depois de 13 rodadas de invencibilidade. As Cherries (que brigam ao menos pelos playoffs de acesso) ganharam por 3 a 1 em Carrow Road, de virada, num resultado influenciado também pela expulsão de Dimitrios Giannoulis logo aos 17 minutos. De qualquer maneira, o revés não era suficiente para estragar a celebração em Norwich e nem mesmo tirar de vista a chance de terminar com o título na Championship.

O Norwich vendeu apenas dois protagonistas antes que a temporada começasse, com a saída de Jamal Lewis ao Newcastle e de Ben Godfrey ao Everton. As duas vendas no setor defensivo não necessariamente impactaram na força da equipe, até pelas adaptações no modelo de jogo realizadas por Farke. O próprio Giannoulis foi um bom acréscimo, emprestado pelo PAOK para a lateral esquerda em janeiro. Além dele, outras boas novidades vieram por empréstimo. Foi assim que chegaram o volante Oliver Skipp, promessa do Tottenham, ou o zagueiro Ben Gibson, cedido pelo Burnley. A diretoria também garimpou Jacob Lungi Sörensen na Dinamarca para ser mais uma alternativa na lateral esquerda.

Já o principal mérito do Norwich foi manejar os anseios e preservar outros destaques, mesmo que existissem propostas de fora. Tim Krul é a referência no gol desde o acesso anterior, um arqueiro de ampla experiência, mesmo que não viva mais sua melhor fase. Na lateral direita, Max Aarons é outro intocável, com um ótimo futuro aos 21 anos. Grant Hanley recuperou importância na zaga, a ponto de portar a braçadeira de capitão. Kenny McLean vinha com mais espaço já na Premier League e se mantém na cabeça de área, agora ao lado de Skipp. E os três maiores talentos no ataque são os mesmos ao longo do processo.

Pukki, do Norwich (Foto: Imago / One Football)

Todd Cantwell tinha amadurecido muito na Premier League, como um promissor meia esquerda, e segue produzindo bastante. Como homem de referência, Teemu Pukki viu seus números minguarem na elite, mas voltou a se provar como um artilheiro nato para a segundona – com 25 gols até o momento. E, na ponta direita, Emiliano Buendía vive um momento espetacular, melhor que em outros anos, seja para criar ou para concluir. O argentino, aliás, é o mais propenso a sair, tamanho impacto que vem gerando. Além do trio, também seguem com boa utilidade veteranos como Marco Stiepermann e Mario Vrancic.

O ponto central de discussão para a próxima temporada é saber qual rumo tomar. Trazer reforços de peso? Evitar vendas a todo custo? Remodelar o estilo de jogo mais um pouco? O Norwich já tem experiência e sabe o que não funciona tanto na primeira divisão. De qualquer maneira, não deve haver uma mudança tão brusca em Carrow Road. A vivência ao longo dos últimos anos pode ajudar, assim como Daniel Farke será um treinador mais talhado a diferentes tipos de desafio. Dá para esperar uma equipe mais preparada e menos exposta às pancadas na próxima edição da primeira divisão. Há menos riscos de ver os Canários afundados na lanterna, ainda que a chance de virar um “ioiô” é razoável a qualquer clube recém-promovido.

O Norwich, aliás, está mais acostumado com este sobe e desce que qualquer outro time da Premier League. Desde que os Canários retornaram à elite em 2003/04, foram cinco acessos para a primeira divisão e cinco descensos para a segundona. Vale lembrar ainda que os auriverdes chegaram a passar pela League One, a terceira divisão, em 2009/10. Contudo, o período de limbo não foi tão grande, com duas promoções consecutivas, que logo botaram a equipe na primeira prateleira. E a condução recente do clube em seus bastidores se sugere mais segura para que tal tipo de estirão não ocorra novamente.

Farke é o rosto mais famoso da ascensão. O treinador trabalhava no Borussia Dortmund II e se tornou o escolhido por sua capacidade para trabalhar com jovens, assim como pelo entendimento de um estilo mais ofensivo. O alemão tem amplo apoio de Stuart Webber, diretor esportivo de 37 anos que também possui sua importância no processo. O galês já tinha trabalhado no Liverpool e no Wolverhampton, antes de realizar uma escalada com o Huddersfield. Foi então que os Canários apostaram em sua contratação, estabelecendo as bases para o que acontece em Carrow Road atualmente. A ótima formação nas categorias de base e as boas escolhas no mercado de transferências permitiram os dois últimos acessos. E os auriverdes querem mais no futuro, com a construção de um novo CT para a base que contou com o financiamento dos próprios torcedores.

Se o Norwich ganha uma segunda chance na Premier League, os méritos são todos dele. O clube fez todos os seus deveres de casa e ainda seguiu a cartilha daquilo que muita gente prega como o certo no futebol – mesmo que quase ninguém pratique. Confiou no longo prazo e não se desesperou com o momento ruim. O resultado premia isso. A permanência na primeira divisão, ainda assim, nem sempre corresponde à lógica e os Canários parecem ter aprendido com isso. Não devem fazer loucuras neste retorno, dando passos do tamanho das pernas, mesmo que alguns detalhes possam ser mudados. O mais importante é ter a consciência de que as passadas são firmes e de que, sustentavelmente, dá para buscar a estabilidade na elite. Os auriverdes não sabem se isso acontecerá agora. Enquanto isso, seguem fiéis às suas ideias, algo suficiente para dominar a Championship e renovar suas esperanças a cada dois anos com o acesso.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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